Um é pouco, dois é bom: Iara Rennó lança disco duplo

Chris von Ameln/Divulgação

O talento de Iara Rennó supera e muito seu sobrenome. Cantora e compositora paulista, ela já enveredou a fundo pela sua versão própria de Macunaíma e também escreveu um livro de poesia. Mas a música é mesmo sua casa: neste ano, após uma campanha de financiamento coletivo, Iara gravou e lançou os discos “gêmeos” Arco e Flecha, que, segundo ela própria, se fortalecem mutuamente. Arco se remete ao feminino e possui somente mulheres tocando — a produção é de Iara, função que fica a cargo de Curumin em Flecha. Na noite de 16 de setembro, ela faz o show de lançamento dos discos em São Paulo, no Auditório Ibirapuera. Às vésperas da estreia, a Bravo! conversou com Iara:

Você fez esse disco duplo, Arco e Flecha, tratando muito sobre dualidades, o feminino e o masculino, noite e dia… Como foi concebida essa ideia de um trabalho com temáticas duais?

Não foi premeditado nada disso. Na verdade, a intenção primeira não é sobre dualidade, é sobre pluralidade. Resolvi fazer o disco e aí foi que eu comecei a ver que eu tinha muito repertório e muitos desejos diferentes de produção, de sonoridade, de estética. Não só desejos, na verdade isso já tava rolando na minha produção. Eu tinha essa banda com as meninas, com a Mariá e com a Maria, um trio. A gente tava fazendo shows de releitura do Macunaíma [espetáculo Macunaíma Ópera Tupi] desde o final de 2014. E tinha a banda carioca do último disco que eu tinha lançado [Iara, de 2013], produzido no Rio, um trio com os meninos [Leo Monteiro e Ricardo Dias Gomes]. Tinha já esse menu de vários shows diferentes, sozinha, em dupla, em trio com as meninas, as músicas inéditas, essa vontade de trabalhar com o Curumin, coisa que a gente já tinha feito no Macunaíma e num outro projeto que ficou inédito, o Oriki. Então não foi pensado assim, na dualidade, mas no momento em que eu peguei todo esse repertório, chamei os músicos com quem eu queria trabalhar, a gente se reuniu pra um ensaio e eu gravei os primeiros esboços, eu falei: “não, cara, e se eu fizesse dois discos? eu acho que vai ser uma solução pra esse repertório, uma coisa difere muito da outra”. Eu acabei desembocando na dualidade de certa forma para simplificar a pluralidade.

“Sabiá Sabe” (Iara Rennó/Gustavo Galo) é a primeira faixa de “Flecha”.

Aí eu comecei a trabalhar a simbologia em cima disso, a coisa foi muito natural. A gente já pendia pra essa temática do feminino, do empoderamento feminino, mas não de uma forma premeditada, e sim pelo simples fato de sermos três mulheres tocando.

Isso coincidiu com esse lance da dualidade, tanto de gênero quanto de energias e forças. Eu comecei a viajar nisso, a achar que o Arco era mais noturno, e o outro, mais solar. Fiquei viajando nessas paradas da dualidade mesmo. Eles são totalmente independentes, você pode escutar um, escutar o outro, é uma obra que conta uma história que se encerra em si. Porém eles foram gestados ao mesmo tempo, eu falo que são gêmeos, e têm uma relação em que um fortalece o outro. É assim que eu vejo. A visão poderia ser que um enfraquece o outro, mas eu acho que não, porque os dois juntos ajudam a mostrar a minha multiplicidade como artista.

Você falou de empoderamento feminino, e quase todas as músicas dos dois discos são composições suas. Muitas têm um quê sexual forte e vêm de poemas que você já tinha escrito com essa temática. Como você avalia o espaço que as mulheres têm hoje na música brasileira pra compor e pra se apresentar?

Os poemas são do livro que eu lancei no ano passado, minha estreia literária, Língua brasa carne flor, que saiu pela editora Patuá. Pro lançamento do livro eu fiz uma performance, e nessa época eu fiz a música Mama-me, e fizemos até uma gravação. Acabei colocando [no disco] outras músicas de poemas do livro e isso puxou o discurso do Arco pra um lado mais subjetivo. Como eu me identifico com o gênero feminino, com ser mulher no mundo, isso ficou com um caráter talvez feminista. Ainda vejo tabu em mulher falar sobre sexo, tanto que o livro teve uma repercussão interessante. Quando eu fui buscar outras mulheres que faziam isso, eu achei muito poucas, tanto na história quanto na atualidade, mas eu acho que esse número está crescendo.

Na música, o lugar usual da mulher é como diva, como cantora, como intérprete. Intérprete da voz de um homem, geralmente. Apesar da produção musical incrível e imensa que tem no Brasil, a gente foi criado de uma maneira que a mulher sempre teve menos liberdade. Pra trabalhar com arte e com música, você precisa de liberdade. Os homens já foram criados com uma possibilidade mais alargada de fazer o que quiserem, e portanto também serem artistas, compositores e músicos.

Ainda há diferença, embora existam setores que com certeza são bem piores, como, por exemplo, a política. Na música, isso [representatividade] está crescendo, mas é muito mais fácil ter uma mulher que é intérprete de grandes compositores do que uma mulher que tenha o seu próprio discurso.

Capas dos discos, que Iara chama de “gêmeos” (Reprodução)

O que você tem escutado ultimamente?

Cara, eu acho que tem muita música boa sendo produzida hoje. Eu tenho ouvido muito os amigos, as pessoas próximas que estão lançando trabalhos novos que são muito bons: Negro Leo, Ava [Rocha], Metá Metá, Jonas Sá, Rubinho Jacobina, Mãeana. Tô achando bem interessante essa produção num ano tão esquisito, de tanta crise. É pra provar que a arte realmente tá aí pra falar, mesmo que você não fale diretamente, que não seja uma música panfletária. É uma resposta de resistência. De fora do Brasil, eu tenho curtido o Connan Mockasin, bem maluquinho, Tune-Yards, Ibeyi. Na real, quando eu tô produzindo, eu não consigo escutar muita coisa. Fico muito afundada, sem ouvido pra outras coisas. Quando você passa o dia inteiro no estúdio, você chega em casa e não quer ouvir música, seu ouvido já tá cansado!

Tanto Arco quanto Flecha estão disponíveis em plataformas como YouTube, SoundCloud, Spotify e Deezer. Dá também para baixar as músicas e os encartes no site da cantora.