Um artista do nosso tempo

Era redator publicitário e conheceu o sucesso com o romance “Memórias Póstumas de Dom Casmurro: a história de Iaiá Garcia”

Por Carlos Castelo

Começou a escrever romances recentemente. Antes era redator publicitário, mas achava que devia canalizar suas ideias para algo maior. Na função de criativo comercial não chegou a ganhar nenhum prêmio importante; Leão no Festival de Cannes, então, nem pensar.

Mas acreditava que podia engendrar o romance de sua geração. Aproveitou a demissão por justa causa e a grana da rescisão — chegou bêbado pelo sétimo dia seguido na agência — e tirou um ano sabático. Rumou para São Tomé das Letras levando roupa do corpo, bloquinho e lapiseira. Conseguiu um emprego de lavador de pratos num restaurante de posto e, à noite, na pensão, registrava suas experiências existenciais embalado por muita erva.

Em seis meses já tinha a primeira versão de Memórias Póstumas de Dom Casmurro: a história de Iaiá Garcia. Retornou a São Paulo com os originais e iniciou a busca por alguém que lançasse o catatau. Foram ao todo 17 negativas de editores. Acabou novamente entregando-se ao álcool.

Com a ajuda de sua professora da quarta série, dona Edith, superou a mania e decidiu criar sua própria editora, a Hugo Books. Por causa do processo de manufatura artesanal, o trabalho era árduo. Ele precisava costurar folha por folha de uma brochura que continha mais de 900 páginas.

Quando afinal deixou de pé 12 exemplares, conheceu, numa balada na Barra Funda, a herdeira de uma das maiores editoras do país. Um mês depois casaram-se em Paris.

Na lua-de-mel em Nova York foi apresentado a Jonathan Franzen e Paul Beatty. A happy-hour com os dois autores foi postada pela esposa no Instagram. Logo em seguida, Memórias Póstumas de Dom Casmurro: a história de Iaiá Garcia chegava ao topo dos mais vendidos da Veja.

Tinha início seu périplo por eventos literários. Foi da Flip à Feira do Livro de Frankfurt, da Bienal do Livro ao Congresso de Escritores do Pen Club em menos de uma quinzena. O roteiro de Memórias Póstumas de Dom Casmurro: a história de Iaiá Garcia passou a ser disputado a tapa pelos maiores diretores de cinema do Brasil, mas acabou sendo comprado pelo Amazon Prime e vai virar série em 2019.

Sua sina era mesmo a polêmica. Redigiu um artigo para a revista piauí em que defendia os aforismos como as únicas formas literárias possíveis no século 21. Ao mesmo tempo lançava seu segundo livro, Num Átimo, um Átomo em que as únicas palavras escritas eram os dados cadastrais da editora. O livro vendeu mais exemplares em uma hora do que o iPhone 7 no dia do seu lançamento mundial.

Acabou convidado do The Oprah Winfrey Show. Desde então não escreve mais nada. À maneira de Lacan só transmite ideias através de concorridos seminários. Neles, seus ávidos seguidores gravam seu silêncio e o retransmitem pelas redes sociais.

Dias atrás separou-se da primeira esposa e uniu-se a uma das herdeiras da Walt Disney Company. Espera-se que sua obra seja brevemente adaptada para os personagens Mickey, Pateta e Pato Donald.

Um verdadeiro artista sempre ataca por flancos inesperados.

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