Um parque de diversões na cabeça

Segunda edição do Dekmantel acerta no line-up e se adapta bem ao Playcenter

O palco principal do festival. Foto de Ariel Martini

Roubei o título do livro do Laurence Ferlinghetti — na tradução do Eduardo Bueno e do Leonardo Fróes — porque volta e meia ele assombrava a minha cabeça ao passear pelo Playcenter no último fim de semana. No sábado e no domingo, dias 3 e 4 de março, no festival holandês Dekmantel, o mapeamento afetivo dos brinquedos ganhava novo significado com as cinco tendas dedicadas à música.

Será que estou dançando onde a Monga se transformava? Esse drop do Four Tet é como a descida da montanha russa? Será que eu tinha saudade do fedor do riozinho que corta o terreno e que agora precisava ser transposto para ir à tenda UFO, de onde era impossível não sair um pouco frito?

Elena Colomb e Interstellar Funk, no palco UFO (foto: Ariel Martini)

A última vez que tinha estado no Playcenter sem crianças tinha sido no Planeta Terra, em 2011. Com o parque ainda em funcionamento, os brinquedos se impunham. Nesta edição do Dekmantel eles eram fantasmas protetores que faziam uma espécie de acupuntura existencial e que, assim como o melhor do pop hipnagógico, dilui nossa infância em ondas de vapor.

Para quem viu nascer a cena eletrônica de São Paulo nos anos 1990 e as primeiras raves, a principal característica do Dekmantel, que é manter aceso um espírito baleárico, também é um eco que toca cordas sentimentais muito boas. O nome baleárico, para quem não é desse mundo, vem de Ibiza e das ilhas da região baleárica na Espanha. Foi lá, ainda nos anos 1980, que esse tipo de festa que misturava todas as linhagens dançantes e colocava o DJ em um novo patamar nasceu. Mais do que mergulhar em um estilo, em fazer proselitismo de uma cena, o que vale é criar uma narrativa sonora, abrir caminhos para conduzir quem está na pista a lugares inesperados, que podem ser uma house obscura ou um hit b do Guilherme Arantes.

Esse sentimento permeia todo o festival. Seja na escolha do line-up e de sua distribuição no palcos, seja ao mostrar sets realmente baleáricos. E um dos melhores foi o do próprio Dekmantel Soundsystem no domingo, no palco Selectors, ou o da Selvagem no palco Gop Tun, que competia com Mall Grab, Four Tet e com o próprio Dekmantel Soundsystem. Mas sempre dá pra ver um pouco de tudo.

Azymuth no palco Gop Tun (foto:Gabriel Quintão)

Outro ponto a se destacar é a mistura de DJs, lives com algumas bandas icônicas, estas sempre no palco Gop Tun. Neste ano conseguir ver boa parte do show da Maria Rita Stumpf, Marcos Valle, Azymuth com DJ Nuts (bom ver que o Mamão está mandando bem depois da cirurgia) e Mulheres Negras, que talvez tenha sido o show que mais vi entre 1988 e 1989 e que trouxe para o Playcenter um som de uma potência que não batia com o da minha memória.

Diferentemente de grandes festivais de rock, aqui o clima é de festa e você é meio que convidado a experimentar as pistas naturalmente. Até porque se for contabilizar tudo de incrível que está acontecendo simultaneamente, você estará sempre em desvantagem. Melhor guardar os bons bocados. E assim a festa é única para cada pessoa ou para cada grupo de amigos.

Lena Willikins e Vladimir Ivkovic (foto: Ariel Martini)

Não fui à noite, preferi guardar minhas energias para o dia. Ainda assim, algumas das coisas que vi são daquelas que vão ficar na memória. No sábado, rolou uma espécie de Anjo Exterminador durante o back to back da Lena Willikens com o Vladimir Ivkovic — mesmo se eu me afastasse um pouco, voltava logo. O pouco que vi do Randomer, adorei. E o final com o ModeSelektor foi excepcional. Um set muito mais legal e em sintonia com o público do que o que a dupla alemã fez no Sónar.

No Domingo, ancorei bastante no set de lo-fi house do Mall Grab, no Main Stage. E achei lindo o Four Tet. Com problemas no som, ele teve de parar. Depois de um 15 minutos que pareceram uma eternidade, ele voltou para um set sensacional, partindo da mesma música de abertura, fazendo aquela mescla de estilos com uma elegância ímpar. Até ao usar uma das músicas pop mais grudentas do ano, Bad Liar, de Selena Gomez, ele trouxe novidade. Elena Colombi me levou pro passado com um remix de Chemical Brothers que não ouvia há muitos anos. Floating Points fez um set quase didático das origens da sua música e a super DJ Nina Kravitz terminou o festival com uma pressão de respeito.

Da esquerda para direita, em sentido horário: Floating Points, Nina Kravitz, Marcos Valle , ModeSelektor, Four Tet e Mall Grab (fotos: Gabriel Quintão)

Uma coisa do Dekmantel que tem de ser muito louvada, para além do design lindo dos palcos, é que é um festival onde as pessoas se sentem cuidadas, respeitadas em suas próprias viagens. É pensado para você dançar, descansar, era fácil pegar um drink, era fácil comer. E era muito amor. A única questão é a da inclusão, com ingressos caros, o público, muito diferente das festas de música eletrônica, era super elitizado. Nos dois dias, tinha muito mais gente brigando por um carro com motorista do que disposto a andar 15 minutos até o metrô Barra Funda.

Mas, como disse uma amiga também velha de rave, no fim do domingo, “alguém precisa dizer como isso daqui foi especial, como essa organização funcionou”. Então está falado.