Um prato que se come frio

O espetáculo teatral "Justa" é um thriller que faz refletir sobre o momento atual do Brasil e, mais do que um desabafo, é uma constatação da nossa vulnerabilidade cidadã

Foto de Elisa Mendes/Divulgação

O assassinato de um senador da República, asfixiado com dinheiro de propina que lhe recheou todos os buracos do corpo, é o princípio da investigação de uma série de homicídios de políticos corruptos, todos com certo grau de requinte. Esse é o pressuposto de Justa, espetáculo teatral dirigido por Carlos Gradim, a partir de texto do dramaturgo Newton Moreno.

O texto é narrado por um investigador da polícia em vias de se aposentar, interpretado por Rodolfo Vaz. De uma bancada (que pode lembrar essas tantas de pseudoprogramas jornalísticos, ou quem sabe do Congresso Nacional, em meio a microfones e uma série de monitores espalhados pelo cenário, com imagens que tentam fazer uma remissão subjetiva da narrativa), o investigador vai desenrolando a trama e dividindo suas impressões e descobertas.

A primeira delas é uma casa de prostituição que presta serviço às autoridades do país, chamada “O Colégio”. É ali que tem início a apuração dos crimes.

Justa é um um thriller, mas o assassinato mais importante que se pretende desvendar é o do povo brasileiro. Newton Moreno voltou o seu olhar para essa nação triste que estamos nos tornando, eivada de corrupção, um dos países mais desiguais do mundo, que criminaliza a pobreza, que rouba todas as possibilidades, que prostitui seus cidadãos e seus políticos. “Quando foi que a humanidade abandonou a humanidade?”, pergunta-se o inspetor logo no início. E a montagem não deixa por menos, usa todo o oxigênio para escancarar a parábola do fim a que estamos submetidos.

A perspectiva de liberdade surge na vingança explicitada pelos assassinatos. Quando uma sociedade teima em negar sua história, só lhe resta o desamparo, a represália, a guerra. A vingança pode ser um contragolpe decisivo como tentativa de exterminar o dano e recuperar a autoconservação, por isso tantas vezes ela encontra apoio e concordância. Em Justa, é assim que enxergamos.

Vingança

Apesar da crueza da discussão, o espetáculo se desenrola com humor, pitadas de expressionismo e outras de cinema noir, evidenciado pelo universo sonoro construído por Dr. Mórris, que acompanha a intenção dramática, às vezes se antecipando a ela, mas principalmente, ampliando as sensações de desconforto, que não podem ser esquecidas.

Foto de Elisa Mendes/Divulgação

As prostitutas de “O Colégio” são todas interpretadas por Yara de Novaes, que cria cada uma delas a partir de olhares, gestos e movimentos que, ora distorcidos, ora sedutores, desenham no seu corpo essas mulheres com tamanha realidade que somos capazes de nomear uma a uma.

A preferida do recinto era Justa, que vendia aos políticos uma escuta generosa e democrática, e não cobrava por hora, mas pelo nível de prazer que proporcionava. Ela fez do investigador impoluto mais um de seus reféns. “Haverá alguém não corruptível nesse país?”

Newton Moreno se consolida como um dos bons dramaturgos contemporâneos, sem se preocupar em fechar caminhos, explora recursos do folhetim, do thriller, do drama que, aliás, parte de uma alegoria singela e antiga — política e prostituição — mas tão bem arquitetada que consegue segurar na cadeira um espectador totalmente rendido.

Ter um personagem que conta tudo a partir da perspectiva de quem já sabe o fim da história poderia não funcionar. Um narrador emana quase sempre certa linearidade, mas a construção de Rodolfo Vaz é tão precisa, e o seu vigor cênico é tamanho, que ele nos faz cúmplices e esquecidos sobre o seu já traçado destino. Yara de Novaes não deixa por menos. Atriz de potência avassaladora, tem total domínio da cena, das personagens, do clima. Uma intérprete necessária à boa qualidade do teatro.

Há em Justa uma orquestração primorosa feita por Carlos Gradim — e não que ele não tenha corrido riscos: o cenário imóvel de André Cortez é quase frio por vezes, e aí reside a sua eficácia, dois atores em cena falando sem parar o tempo todo, sem parafernálias e sem recursos pirotécnicos. A chave foi tirar o melhor de cada profissional e amarrar todas as pontas construindo um espetáculo ritmado, sem facilidades e que obriga quem está assistindo a pensar no lugar que ocupa nesse país do fim do mundo.

Mais do que um desabafo, Justa lança luz à ética da vingança, que aqui não se explica apenas por seu aspecto primitivo, mas pela identificação da nossa vulnerabilidade, da necessidade de restauração da honra, enquanto cidadãos compungidos e perplexos.

Hino de Ninar, canção que abre e encerra o espetáculo Justa. de Dr. Mórris/ Voz: Laila Garin

Justa — Teatro SESC 24 de Maio (R. 24 de Maio, 109 — República, São Paulo, telefone (11) 33 50- 6300) Quinta, Sexta e Sábado: 21h e Domingo às 18h. Até 22 de julho. De R$ 12 a R$ 40.