Uma infância marcada por Hitler

“Memórias de um Adolescente Brasileiro na Alemanha Nazista” faz novo relato das feridas emocionais causadas pela Segunda Guerra Mundial

Rodolfo e sua mãe em um cemitério de soldados tombados no front

Há alguns anos, na Bienal do Livro de São Paulo, os escritores Jostein Gaarder (O Mundo de Sofia) e John Boyne (O Menino do Pijama Listrado) falavam do seu trabalho de contar fatos traumatizantes da história através de personagens jovens. Quando questionado sobre o melhor modo de relatar assuntos difíceis de maneira agradável, Gaarder respondeu que “as crianças passam por coisas tristes na vida. É importante que leiam histórias assim, para aprenderem a enfrentar essas situações”.

Mesmo assim, explorar a temática da Segunda Guerra Mundial com a visão das crianças não é tarefa fácil. Corre-se um grande risco de se tornar algo sensacionalista, cheio de clichês, de olho apenas no sucesso comercial. Foi o que aconteceu com vários livros desde o lançamento de O Diário de Anne Frank em 1947. E quase se aplicou ao novo livro de Elisabeth Loibl. Não fosse por um detalhe que fez toda a diferença: a história é narrada por um brasileiro — seu irmão — que, dos 8 aos 18 anos, viveu o período mais obscuro de sua vida, marcada até hoje pelas lembranças de uma Europa atormentada pela política de Hitler.

Memórias de um Adolescente Brasileiro na Alemanha Nazista começa como um álbum da origem familiar de Elisabeth Loibl na Alemanha. Seus pais, imigrantes após a Primeira Guerra Mundial, se conheceram no Brasil, e em 1930 nasceu o primogênito, Rodolfo, em São Paulo. Impressionados pelas promessas de Hitler de “salvar” seu país da miséria, resolveram voltar pra Alemanha, onde se depararam com o cenário chocante. Quando se arrependeram do retorno, já era tarde: com documentação cancelada, suas vidas se transformaram num inferno, com mudanças e fugas de um lugar para outro, preconceito, fome, angústia e mortes de milhares de amigos e compatriotas. Rodolfo, acostumado a uma infância feliz com piqueniques às margens do rio Pinheiros, sofreu agressões físicas e psicológicas na escola, acusado de ser “inimigo” por ter nascido no Brasil. Agora, ele remexe seu baú de memórias dolorosas, num relato visceral a sua irmã mais nova.

Quem conhece bem essa parte sombria da história alemã, pode achar o livro didático demais, com passagens que poderiam ser puladas. Por outro lado, ele cumpre seu papel: o de informar os jovens sobre os fatos além das aulas escolares, mas pela ótica de quem viu o nazismo de perto. É esse o intuito da série Relatos de Guerra criada pela Editora Melhoramentos, que lançou também um livro chocante sobre as torturas vividas pelos homossexuais naquele período.

Em nota oficial de divulgação, Elisabeth fala sobre a opressão que a Alemanha sofria naquela época. “Esse livro mostra, principalmente aos jovens, o que pode acontecer com o mundo onde há falta de respeito ao próximo e intolerância”. Nas páginas finais, Rodolfo também chama atenção para isso, quando relata seu retorno. “Ao avistar a costa brasileira aproximando-se, caí de joelhos, para agradecer a Deus. O Brasil sempre foi, continua sendo e — assim espero — sempre será o país mais livre, mais tolerante, mais incrível do mundo, e o seu povo, o mais hospitaleiro e generoso de todos os povos”.

Infelizmente, não dá para concordar com ele no cenário atual em que nos encontramos. O Brasil não passava por um período de censura e retrocesso tão forte desde a ditadura militar. A classe artística e cultural, que sempre foi motivo de orgulho para o país, tem lutado para sobreviver em meio ao conservadorismo e hipocrisia que dominaram o povo brasileiro.

Só nos resta exercer nossa esperança, seguindo o exemplo do protagonista desse livro de Elisabeth Loibl, e torcer para que as palavras de Rodolfo estejam certas, quando ele diz que “muitas vezes, o sentido de acontecimentos que, num primeiro momento, parecem ser a maior desgraça, nos é revelado posteriormente. (…) Sem a fé somos nada mais do que um simples invólucro vazio, sem alma e sem eternidade”. Pensando assim, se a fé o salvou de Hitler, talvez ela seja capaz de nos salvar desses tempos macabros no Brasil. Tomara. ______

Memórias de um Adolescente Brasileiro na Alemanha Nazista, de Elisabeth Loibl. Editora Melhoramentos, 152 págs. R$ 50.

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