Uma lição de pluralidade cultural
“O Menino Múltiplo”, de Andrée Chedid, mostra o que podemos aprender com a premiada autora francesa em meio à crise dos refugiados

Há alguns anos, a jornalista Carla Renard ouviu a canção Paroles Je dis Aime, de Matthieu Chedid — mais íntimo do público francófono apenas como “M” –, e descobriu a poeta Andrée Chedid, avó dele e autora da letra conhecida de cor por boa parte dos franceses. Os versos, que lhe soaram como poesia, fizeram com que Carla devorasse romances, novelas, poemas, entre outras particularidades do trabalho da escritora, premiada com honrarias como o Prêmio Goncourt e a Legião de Honra da França.
Já em 2011, dedicada exclusivamente ao ofício de tradutora, Renard sentia cada vez mais que precisava compartilhar a obra de Chedid, que, para sua surpresa, ainda não havia sido traduzida no Brasil. Quando encontrou com Matthieu, teve a resposta que faltava para seu projeto de Mestrado, que resultou na tradução do romance L’enfant Multiple, recém-lançado pela Editora Martin Claret como O Menino Múltiplo.
Nascida no Cairo em 1920 e radicada na França, Chedid tinha pais egípcios havia três gerações, mas com raízes libanesas. Apesar de ter começado na literatura fazendo poesia, afirmava que ela não era suficiente para expressar o seu Oriente, por isso enveredou pela novela, pelo romance e pelo teatro, sempre valorizando a pluralidade de suas origens.
O Menino Múltiplo foi publicado em 1989, inspirado numa experiência vivida anos antes, quando, passeando com sua neta, Chedid avistou um carrossel e, ao chegarem perto dele, ambas se frustraram ao ver que estava fechado. No livro, conhecemos a história de Omar-Jo, filho de um muçulmano egípcio e uma católica libanesa. Além de levar consigo as origens no nome, o menino de 12 anos foi marcado para sempre ao ficar sem o braço e sem os pais, ambos levados por um carro-bomba durante a Guerra do Líbano em 1987.
Enviado pelo avô a Paris, Omar conhece Maxime, o ranzinza dono de um carrossel falido que, com o passar do tempo, faz girar a vida dos dois: o choque de culturas do Oriente com o Ocidente; a transformação do parisiense desiludido que reencontra, naquele menino múltiplo, novas perspectivas de futuro; a visão particular de Maxime e a de Omar-Jo, o modo como o próprio leitor interpreta a versão de cada protagonista.
Eles se conhecem por acaso, mas não é casualmente que seus traumas familiares, tragédias e histórias pessoais se entrelacem, remodelando-se a exemplo de um bloco de argila, como explicou a autora em 1988, durante uma exposição na Maison des Ecrivains, em Paris: “Tudo começou por amor às imagens e às cores; pela festa do olhar, pela necessidade e pelo prazer de exercitar as mãos. Terras múltiplas, rostos diversificados, mundos contraditórios, entrelaçando-se em uma tecedura incansável, compunham uma trama miscigenada e, no entanto, comum. Todas as coisas participam do mesmo universo”.
O outro
Em texto de apresentação publicado no livro, Adriana Zavaglia, professora do Departamento de Letras Modernas da FFLCH-USP, ressalta como a tradução de L’enfant Multiple, feita por Carla Renard, não vem somente preencher um vazio na recepção de obras francófonas no Brasil: “Vem também coroar um esforço de reflexão, de retidão e de sobriedade responsável da tradutora”, diz.

O interesse por autores francófonos periféricos, de expressão francesa, mas não nascidos franceses, vindos de países nos quais essa língua é oficial ou segunda, tem crescido. Mas não o suficiente. Pensemos em alguns autores não franceses, como os canadenses Antoine Gérin-Lajoie e Félix-Gabriel Marchand, ou os senegaleses David Boilat e Léopold Panet. O que conhecemos deles? Quais obras estão traduzidas? O fato é que o brasileiro não leitor de francês tem pouco ou nenhum acesso a esse outro mundo. E aí está um dos grandes poderes da tradução: o de descortinar esse mundo, o de revelar esse outro, deixá-lo disponível. É essa preocupação com o outro, com a defesa do múltiplo e do heterogêneo, que torna a obra de Andrée Chedid cada vez mais atual. Em outro de seus livros, La Cité Fertile, ela evidencia com todas as letras o seu multiculturalismo: “Como cada um, eu sou múltipla. Mas a mesma. Eu me ramifico no passado, no futuro; e ainda assim caminho no hoje”.
Fronteiras da diversidade
Para Irène Fenoglio, diretora de pesquisa no Instituto de Textos e Manuscritos Modernos da França, sempre houve uma semelhança entre o Egito e o Brasil: um calor físico, natural e humano, cores, o riso apesar das dificuldades, as disparidades sociais. Levando essa discussão para um cenário mais abrangente, a temática de O Menino Múltiplo não poderia ser mais atual com a recente onda de nacionalismo, empenhada em impedir que grupos de refugiados e imigrantes cheguem à Europa, alegando risco à “identidade e cultura” do continente.
Considerada pela ONU como a pior crise humanitária do século, a crise dos refugiados e a história de Omar-Jo nos dizem muito mais a respeito de nós mesmos, do que imaginamos. No livro, ao ver o garoto pela primeira vez, o dono do carrossel o associou aos jovens delinquentes que ficavam pelo metrô, aos batedores de carteira das ruas. Para ele, aquele acidente com o braço provavelmente acontecera em alguma rixa de gangues. Para a sociedade brasileira, os refugiados que buscam aqui novas oportunidades profissionais geralmente são vistos como fugitivos e, como diz o parisiense Maxime, “aprendizes de criminosos, capazes de esquemas perniciosos”.
Quem dera aprendêssemos um pouco com Andrée Chedid, que antes de morrer em 2011, deixou cravado um dos seus ensinamentos: “Eu desconfio de tudo o que restringe o ser e tenta confiná-lo ao gênero, à idade, ao sangue, ao solo. Nada disso pode ser rejeitado, mas o universo que borbulha no fundo de cada um não pode se limitar a isso, o que levaria ao risco de uma completa asfixia”.
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O Menino Múltiplo, de Andrée Chedid. Tradução: Carla de Mojana Di Cologna Renard. Editora Martin Claret, 265 págs. R$ 49,90

