Uma luz contra o atraso

Em Manual de Sobrevivência para Dias Mortos, China cria vacina contra a distopia política nacional

Foto: Pamela Gachido

Por Guilherme Werneck*

Depois do derretimento do Brasil nos últimos anos, é impossível para uma pessoa sensível e sensata passar ao largo do discurso político. Em um momento em que a busca do verdadeiro se torna irrelevante frente às iscas de cliques e às correntes da infâmia do WhatsApp, a resposta da arte tem de ser um choque de realidade, para mostrar que o mundo é mais plural, diverso e interessante daquele pintado pelos que fazem loas à morte, reduzindo a complexidade do mundo ao pensamento binário, onde só vale a vida dos homens de bens, tementes a Deus, com suas terra planas e suas cortinas de fumaça moralistas.

Manual de Sobrevivência para Dias Mortos trabalha duplamente como guia a vacina para se mover nessa nova realidade distópica que se desenha no Brasil, e assim se torna o disco mais potente de China que já ouvi. E ouvi muito todos, desde a porrada do Sheik Tosado, que fez minha alegria no fim dos anos 90 ao trazer um peso confrontacional pro manguebeat, até a sequência de discos solo, Um Só, Simulacro, Moto Contínuo, Telemática, em que ele dosava o pop, rock e a matriz brasileira com maestria.

Mas este Manual de Sobrevivência para Dias Mortos me fez pensar para além da trajetória do músico. Antes vejo um espelho que reconta uma história que é da nossa geração. Somos filhos do pós-punk, rezamos na igreja do niilismo, vimos nossos ídolos morrer de Aids, de drogas e de desgosto num país fechado e subdesenvolvido. Ao mesmo tempo experimentamos a renascença da geleia geral brasileira com o manguebeat, o último grande movimento musical a reafirmar nossa identidade ao digerir o mundo sem fronteiras que se desenhava ao redor. Batemos cabeça e suamos na pista, nos jogamos nas redes em busca do novo, de conexões, sinapses, utopias, com um senso de pertencimento e liberdade. Como num loop ou num remix infeliz, nos vimos de novo onde começamos, e precisamos sair da inércia para dinamitar o beco sem saída em que nos metemos distraídos.

Esse manual nos oferece saídas em dois planos. No lírico e no musical. Começando pela música, que é sempre mais etérea, China nos guia pelos caminhos da diversidade, o que é em si uma declaração de intenções.

A origem punk está lá, firme e forte, mas tem esse tempero pernambucano, dos grooves para frente que nascem lá no samba-rock e ganham mutações com o mangue, o acento dos ritmos folclóricos, os ecos de coco, de maracatu, de cavalo marinho. De outro lado, tem os respiros, as baladas contemporâneas, músicas bonitas, lentas, sem deixar de ser marcadas pelos ritmos, como Ofertório e Pó de Estrela, que juntam o orgânico do violão e da percussão com o elétrico da programação e da guitarra, cada um no seu lugar e juntos abrindo novos caminhos.

O coração do disco é a trinca formada por China — que além de cantar, se aventura na programação de beats, toca baixo, órgão, e seleciona samples — , pelo produtor do disco Yuri Queiroga — que toca violão, guitarra, baixo, micromoog, além das programações e dos samples — , e pelo percussionista Lucas do Prazeres. É dessa interação que nasce a espinha dorsal das canções, essa leitura do Brasil a partir dos sons. Mas em momentos específicos, uma série de convidados ganha a frente: o trombone de Nilsinho Amarante na quase vinheta Subdesenvolver e em O Selvagem, as guitarras rascantes de Neilton (Devotos) em Fascismo Tupinambá, e de Andreas Kisser (Sepultura) em Frevo e Fúria, a programação de bateria eletrônica do filho Matheus Câmara em Consumo e em Mareação, que também tem baixo de Felipe Faraco e bateria de Arquétipo Rafa. Um capítulo à parte são as vozes femininas. Bell Puã com sua poesia dura em Moinhos de Tempo, Natália Matos que banha de leveza o refrão de Mareação e Uyara Torrente (A banda mais bonita da cidade) que traz profundidade a um dos momentos mais lindos do disco, que é o dueto em Pó de Estrela.

Se o disco tem essa mistura de gêneros, um amálgama do pop refinado, com momentos de confronto e outros de conforto, é liricamente que ele se impõe como fundamental para este 2019 de retrocessos sem fim.

Além de um diagnóstico preciso de nossas mazelas, existem algumas chaves: coragem, e aí lembro do conceito valentia artística sempre defendida pelo escritor Roberto Bolaño, não ceder ao medo, nutrir a esperança sem se render, partir para cima do fascista tupinambá, não cair na espiral individualista e voraz do consumo, se rebelar, sem perder a ternura e nem a perspectiva do amor, do outro, sem deixar de ter fé. Isso em letras que entregam a mensagem diretamente, sem firulas, sem muito espaço para divagações etéreas ou para duplo sentido.

Há apenas um sentido aqui, precisamos resistir juntos para sobreviver, precisamos valorizar o que nos faz plurais, solidários, amorosos. Precisamos dar nome às nossas mazelas, às ideologias totalizantes, trazer luz ao obscurantismo. Sobreviver é não deixar o escuro dominar. Tudo sem nem um acorde a menos.

*texto feito originalmente para o press release de MSDM.