Veja 12 trabalhos imperdíveis no Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil

Exposição ocupa o Sesc Pompeia até janeiro e traz um panorama da produção do chamado sul global

O 20º Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil abriu nesta terça-feira (3) no Sesc Pompeia, em São Paulo, com programação para quase quatro meses de mostra: além da exposição, que vai até 18 de janeiro, são performances, aulas abertas, palestras, visitas guiadas e filmes exibidos no auditório.

Os mais de 70 trabalhos foram selecionados pela equipe de curadores através de uma chamada pública, a partir de 2 mil inscrições de artistas. Cinquenta estão presentes na mostra, que desta vez traz uma novidade: a entrada de portugueses. Para João Laia, um dos curadores, que também é português, trata-se de um modo de questionar ou estender o que se chama "sul global" ou "sul geopolítico" presente no festival desde a 7ª edição. Em relação aos países do norte da Europa, Portugal também pode ser considerado "sul", conforme os trabalhos de Pedro Barateiro (The Current Situation, 2015) e da dupla Von Calhau! (EULUSIONISMO ANTILUSIONISTU, 2015).

Panoramas do Sul privilegia trabalhos produzidos neste chamado sul global, com artistas mexicanos, colombianos, peruanos, sul-africanos, russos, senegaleses, indianos, além da grande representação de brasileiros. Refletem sobre colonialismo, subdesenvolvimento, crise, questões identitárias, festas populares. Uma das graças da exposição é também aproveitar diversos dos espaços do Sesc Pompeia: além do galpão de exposições, a área de cursos de arte é tomada com trabalhos, além do corredor principal da fábrica de Lina Bo Bardi.

Além de Solange Farkas, curadora-geral e diretora da Associação Cultural Videobrasil, Ana Pato, Beatriz Lemos, Diego Matos e Laia participaram da escolha das obras. Veja a seguir 12 trabalhos imperdíveis no festival.

Sasha Litvintseva — Exile Exotic

O "exílio exótico" da artista russa Sasha Litvintseva é filmado de dentro de uma piscina de hotel que simula o Kremlin e reflete sobre o poderio do Estado russo, alienação e controle dos cidadãos.

Graziela Kunsch — Ensaio Ilú Obá De Min

Graziela Kunsch traz duas obras importantes no Festival: o Ensaio Ilú Obá de Min se passa sob o som do bloco afro de mulheres de São Paulo, mas não as enfoca. Os protagonistas do vídeo são homens e mulheres trans que vivem sob um viaduto e, durante a passagem do bloco, ganham a atenção da câmera por sua dança.

Graziela Kunsch — Escolas

Graziela filmou escolas ocupadas em São Paulo em novembro e dezembro de 2015 e mesclou suas imagens com fotografias anônimas da internet. A disposição das carteiras, limpeza e organização dos pátios mostram a ressignificação das escolas para os alunos secundaristas a partir da tomada dos prédios e da luta contra mudanças impostas pelo governo do Estado sobre a educação pública.

Mariana Rodríguez — Por qué disparán?

Neste vídeo desesperador, Mariana Rodríguez juntou gravações de celular feitas por meninos antes de 6 colegas morrerem e 43 terem desaparecido na Escuela Normal Rural de Ayotzinapa, no México, em 2014. Até hoje não se explicou a história, mas acredita-se que a polícia mexicana tenha atacado os estudantes por ordem do prefeito da cidade.

Rafael Pagatini — Bem-vindo presidente

Impressos sobre papel haini, os anúncios de jornal do período da ditadura colhidos por Rafael Pagatini mostram a imbricação entre setor privado e ditadura. A maioria dos anúncios, retirados do jornal A Gazeta, de Vitória, saúda militares do período ditatorial. Atento ao que o Espírito Santo vive hoje, as frases são também uma reflexão sobre o que aconteceu com o estado — o desenvolvimento econômico trouxe também catástrofes naturais como o rompimento da barragem de Mariana, que afetou todo o trajeto do rio Doce.

Cristiano Lendhart — Pau-bonito

Foto: Paula Carvalho

As instalações de Cristiano Lendhart dão um colorido pouco usual ao galpão de Lina Bo Bardi. Selecionado pela curadoria como parte da ideia de "outros modernismos", as esculturas de madeira lembram artesanato popular e artes em parachoques de caminhão.

Ana Mazzei — A Barra de Ballet Está Livre

Foto: Paula Carvalho

Instalada especialmente para a entrada do teatro do Sesc Pompeia, a escultura/instalação/quadro que sai da tela de Ana Mazzei recria uma barra de ballet como se ela pudesse ser também elemento do parkour, malabarismo, acrobacia, circo e arte concreta.

Karo Akpokiere — Zwischen Lagos und Berlin

A série de pôsteres do nigeriano Karo Akpokiere retratam o colonialismo africano do século 21: "Querida África, eu sei que você não é um país. O que é mais importante no momento é que você me ensine o que significa ser aberto, menos egoísta e com uma mentalidade de comunidade. Minha obssessão com o ego, a mente fechada e a fascinação com o individualismo me deixou deprimida. Eu posso organizar para você vir me fazer uma visita, mas preciso que você assine um compromisso de que vai embora depois de me dar o que preciso. Eu infelizmente preciso do meu espaço e meu tempo. Estou ansioso pela sua visita. Assinado: Europa".

Bárbara Wagner e Benjamin de Burca — Faz que Vai

Bárbara Wagner e Benjamin de Burca convidaram quatro dançarinos para uma sessão de "frevo" que subverte a sua imagem de uma "tradição popular" e mostra como ele pode estar, sim, próximo de danças que hoje em dia sofrem preconceito — o funk, o pagodão, o passinho e o brega.

Elkin Calderón e Diego Piñeros — Centro Espacial Satelital de Colombia

O filme surreal de Calderón e Piñeros leva uma banda de marchinhas com trajes de astronauta para um centro espacial — espaços abandonados na Colômbia. Em português, ainda dá pra fazer o trocadilho da banda marcial que vai ao centro espacial.

Emo de Medeiros — Kaleta

O francês Emo de Medeiros fotografou jovens vestidos para o Kaleta, uma espécie de carnaval do Benin. Diz a história que ex-escravos voltaram do Brasil para a região depois da Revolta dos Malês, em 1835, em Salvador, e criaram a festa, muito parecida com a daqui. Filmados com as máscaras que lembram as dos lutadores mexicanos, as coreografias têm aproximações com muitas das formas de uso do corpo nas festas ghetto bass pelo sul global.

Tatewaki Nio — Neo andina

O fotógrafo japonês retratou as novas paisagens de La Paz. As cholets, casas de luxo andinas, mesclam a tradição indígena da Bolívia com a ostentação de uma espécie de "classe C" que surge na capital do país e, em vez de migrar para os bairros mais nobres da cidade, decide construir esses edifícios extravagantes, coloridos e de poucos andares, inspirados na cultura tiahuanaca.

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