Women’s Music Event faz a sua primeira edição em São Paulo

Claudia Assef e Monique Dardenne, idealizadoras do WME

Nesta sexta-feira (17) e no sábado (18), mais de 60 profissionais de música mulheres vão ocupar as salas do Centro Cultural São Paulo (CCSP) com debates, shows e workshops. O encontro, batizado Women’s Music Event (WME), é o primeiro realizado pela jornalista e DJ Claudia Assef e pela advogada e produtora Monique Dardenne.

Claudia diz que a ideia partiu da experiência das duas no trabalho com o mundo da música há muitos anos e da vontade de “acelerar o processo de aumentar o protagonismo da mulher na música”. “A mulher na música não tem que ser apenas o que a indústria quer da mulher — que normalmente é uma cantora bonitona, magra, que use pouca roupa. Ela pode ser o que ela quiser: uma tour manager, uma engenheira de áudio”. Dentre os debates, haverá um Q&A com Marina Lima, madrinha do evento, um painel sobre assédio moral e sexual com a participação da delegada Sabrina Almeida, da 1ª Delegacia de Defesa da Mulher. Também promete a mesa com o nome sugestivo “Por trás de um/uma grande rapper tem sempre uma grande mulher”, com participações de Eliane Dias, Juliana de Jesus, Daniela Rodrigues e Marina Helena. Além da programação durante o dia, o evento também fará duas festas noturnas só com DJs mulheres e shows de Karina Buhr e Ava Rocha.

O Womens Music Event também é uma plataforma online (http://womensmusicevent.com.br/), com conteúdo jornalístico e uma rede profissional. Mulheres de todo o país podem se cadastrar dizendo a sua formação, experiência profissional (dentre mais de 30 atividades como produtora, programadora, DJ, radialista, engenheira de áudio, entre outras) e uma mini-biografia. A intenção é que empresas e contratantes acessem a plataforma e possam conhecer mulheres que prestam serviços relacionados a música.

A Bravo! conversou com Claudia Assef sobre a WME e no papo ela explora mais a motivação do evento: “As profissões têm que servir a talentos e não a gêneros.”

Como surgiu a ideia do Womens Music Event? O que motivou vocês a criarem um evento pra falar de mulheres que trabalham com música?

Tanto eu quanto a Monique trabalhamos há muitos anos no mercado da música e a gente já teve a real noção de que é muito difícil, é um mercado muito dominado pelos homens. Talvez de uma forma até inconsciente eles nem entendam que repelem as mulheres. Eu sou jornalista musical desde os meus 21 anos, tenho 42, a Monique tem 33, ela trabalha desde os 17 com música — como booker, produtora, agente, manager, etc. A gente se juntou mesmo com essa vontade de acelerar esse processo de aumentar o protagonismo da mulher na música. No caso porque é o nosso métier. Acho que isso tá acontecendo de uma forma coletiva, tem um despertar do empoderamento que é muito importante também, mas eu acho que nossa contribuição poderia ser mais interessante na música porque é o nosso negócio e a gente conhece muito as entranhas desses business, então resolvemos partir pra isso. A mulher na música não tem que ser apenas o que a indústria quer da mulher — que normalmente é uma cantora bonitona, magra, que use pouca roupa, etc. Ela pode ser o que ela quiser: uma tour manager, uma engenheira de áudio, enfim. Tem tantas profissões e nós ficamos restritas àquelas profissões que são mais aceitas, que “cabem melhor” no perfil de uma mulher. Só que isso não existe. As profissões têm que servir a talentos e não a gêneros.

As DJs Sonia Abreu e Tata Ogan, Karina Buhr e Ava Rocha fecham o evento em festa no Espaço 555, no centro, no sábado à noite

Ainda há muito machismo no meio musical? Vocês têm percebido alguma melhora em relação a isso?

O machismo no meio musical é enorme, né. Eu acho que nos últimos dois anos ele tem diminuído porque como tá rolando essa onda de empoderamento, acho que nos últimos dois ou no último ano chega a pegar mal você ter uma atitude machista. Não só dos homens — porque as atitudes podem partir de nós mulheres, também. Então tem diminuído um pouco, ou ficado um pouco mais velado, porque é um negócio que está começando a pegar mal — e que pegue mal mesmo. A gente espera que isso daqui a alguns anos nem seja uma questão. A gente quer permanecer como o Womens Music Event mas daqui a alguns anos, quem sabe, se a gente lutar muito, o Women’s Music Event vai abraçar todo mundo, vai ter no palco homens, mulheres, trans, enfim. Que não importe o gênero. Mas nesse momento a gente precisa sim atuar nessa questão de dar espaço pra mulher.

Como vai funcionar a rede de mulheres que trabalham com música?

Ja está funcionando o nosso cadastro de profissionais. A gente quer que ele seja uma espécie de Linkedin da indústria da música, em que apenas mulheres podem se cadastrar. No nosso site tem uma área que chama Profissionais e que já tem mais de 400 mulheres cadastradas e com seus perfis disponíveis publicamente pra quem quiser analisar, contratar, etc. Essa é nossa vontade de criar um impacto social mesmo, de não apenas fazer uma plataforma informativa com conteúdos muito bacanas, mas ter um impacto na sua cidade.

Tem muitas empresas que a gente tem entrado em contato — de áudio, por exemplo — que comentam que até contratariam mulheres, mas que não conhecem uma mulher engenheira de som. Não seja por isso: lá no nosso cadastro de profissionais a gente tem 30 profissões elencadas no ramo da música — engenheira de áudio, roadie, advogada de direitos autorais, jornalista, assessora de imprensa, produtora, DJ, enfim — e o contratante pode fazer uma busca por região e por profissão. Se a pessoa tá procurando uma DJ no Amapá ela pode fazer essa busca. A gente realmente tem essa ambição de ser uma espécie de Linkedin da música, um banco de dados que cresça cada vez mais e organicamente. A gente não impulsionou — isso vem rolando num boca a boca e estamos muito satisfeitas com o feedback. Lógico que é um trabalho de formiguinha, a gente não tá dando um carro zero ali pra atrair as pessoas, a gente tá oferecendo um serviço. Mas já temos depoimentos de contratantes que estão usando a nossa ferramenta e estamos super felizes com isso.

O que você destaca da programação do WME no Centro Cultural São Paulo?

Estamos também bem felizes de termos conseguido reunir 60 profissionais muito gabaritadas, mulheres que estão na indústria há muito ou pouco tempo, que fazem coisas notáveis. Eu destacaria a programação de workshops, que está muito especial. Tem workshops pra vários perfis de pessoas: gente que curte mais música eletrônica, gente que é mais do business. A programação de painéis está muito interessante também: tem temas como rádio, marca — tem grandes marcas, aliás, nos painéis. Tem artistas se posicionando, um painel sobre assédio — porque infelizmente a gente ainda precisa tocar nessa ferida — com a participação de uma delegada da 1ª delegacia da mulher. A gente tá realmente cobrindo do nicho do nicho, da música eletrônica mais underground, até essa questão de como as marcas se relacionam com a música, algo mais mainstream. Essa sempre foi nossa intenção. Fora as festas e shows, que têm desde as DJs mais undergrounds até Ava Rocha e Karina Buhr. Tem pra todos os gostos.

Por que a Marina Lima foi escolhida como a madrinha do evento?

A escolha da Marina Lima é porque a gente adora o trabalho dela, o posicionamento dela. A Marina sempre foi uma mulher muito forte, que nunca ligou pra comentários e sempre escreveu o que quis, sempre cantou o que quis. Ela sempre foi uma cantora que quis se renovar, ela nunca foi alguém que viveu no passado. Ao contrário, ela sempre está buscando sair da zona de conforto dela, acho que a Marina é uma das grandes cantoras da história do país. Tem uma história linda, uma trajetória incrível mesmo. Acho que é uma forma de abençoar essa primeira edição. A gente quer ter sempre uma madrinha, alguém que tenha o conjunto da obra interessante. Tem um painel totalmente dedicado a ela que eu acho que vai ser bem emocionante.

A ideia do WME é acontecer todos os anos, como a SIM São Paulo? O que vocês pensam a médio/longo prazo pra o evento?

A ideia é fazer uma edição anual, grande, do WME. A gente já tá começando com um tamanho razoável e nossa intenção é crescer. Nossa intenção é também participar de outros festivais, seja assinando um palco ou conteúdos, continuar fazendo nossos conteúdos na internet, talvez migrar até pra uma TV. A ideia é continuar crescendo. A gente quer ter braços fora do Brasil também, temos algumas conversas com outros festivais já: o Midem, o ADE, com o Sónar. Nossa intenção é levar essa cara do protagonismo feminino na música brasileira pra fora do Brasil, mas também estamos muito preocupadas em fazer isso aqui no Brasil. Antes de mais nada temos que resolver a situação dentro de casa, até porque o Brasil é muito grande e a gente vive numa pequena bolha aqui em São Paulo, né. A gente quer fazer edições regionais também, menores, mas em várias cidades do Brasil. Assim que passar essa loucura da primeira edição, a gente já vai trabalhar pra isso.

Serviço

Veja a programação completa: http://womensmusicevent.com.br/ava-rocha-karina-buhr-marina-lima-tie-mercenarias-e-muito-mais-conheca-a-programacao-completa-do-womens-music-event-2017/

Compre ingressos: https://www.sympla.com.br/womens-music-event__120203

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