Bergman e as perguntas difíceis

Eu não escrevi uma dissertação, eu vivi uma vida. Li obsessivamente até que Ingmar Bergman se tornasse a figura de preto, a Morte com quem eu jogaria xadrez


Quando soube que Ingmar Bergman havia morrido, Woody Allen se encontrava na Espanha, filmando Vicky Cristina Barcelona. A pedidos da New Yorker, o diretor escreveu um texto sobre aquele que havia sido seu grande ídolo e o intitulou “O Homem Que Fazia As Perguntas Difíceis” ("The Man Who Asked Hard Questions", no original). É um texto lindo, pleno de uma ternura para com aquele que o ensinou as perguntas que realmente nos movem e a impossibilidade de respondê-las. Mas não importa quantas obras de arte maravilhosas você faça, diz Allen, no final a morte aparece, implacável, e é impossível lhe dar um xeque-mate.

Bergman, ele continua, uma vez lhe disse que gostaria de morrer em um dia nublado, na sua autobiografia ele afirma que os longos dias quentes do verão escandinavo o deixavam melancólico.

Em um dia surpreendentemente quente do verão sueco, eu estava sentada na frente do túmulo de Ingmar Bergman e tentava identificar quais perguntas, fáceis ou difíceis, me levaram até ali.

Bergman está enterrado em uma pequena igreja em Fårö, uma ilha do mar Báltico. Sua lápide não é nada além de um pedra comum com seu nome e o de sua última mulher gravados. O cemitério é tão pequenino que não há placas, indicação, qualquer coisa apontando o lugar daquele que é, provavelmente, um dos suecos mais famosos da história. É preciso cruzar corredores, lendo lentamente o nome de diversos anônimos, até encontrar aquele que se foi buscar.

Talvez, eu pensei, essa pequena busca por uma inscrição “Ingmar Bergman” seja só uma versão miniatura da busca que me levou a ele em primeiro lugar. Por três anos eu escrevi um mestrado sobre Bergman, durante esse tempo eu li sua autobiografia, o livro em que comenta seus filmes, vi três documentários sobre eles e quase todas as suas produções. Mais do que analisar filmes, eu queria entender o homem que os havia feito, eu tinha uma sensação muito clara que o universo de Bergman só se abriria para mim se eu fosse capaz de entrar o máximo possível em sua cabeça.

E foi o que eu fiz. Eu não escrevi uma dissertação apenas, eu vivi uma vida. Eu li obsessivamente até que Ingmar Bergman, boina na cabeça e constantes dores de estômago, fosse tão real quanto os gatos de estimação que se deitavam em cima dos meus livros ou mordiam minhas mãos quando já era tarde (ou cedo) demais para continuar escrevendo. Eu busquei Bergman até que ele se tornasse a figura de preto que anda ao meu lado, a Morte com quem eu jogaria xadrez.

Eu cheguei a Bergman um pouco sem querer, uma sugestão do orientador quando eu pensava em falar de Lars Von Trier, a ideia de que faria sentido já que eu já vinha estudando o cinema dos anos 1950 e 1960. Achar meus filmes e achar meu tema foi como uma epifania. Bergman serviu para eu entender o que fazia na academia.

Bergman fez perguntas difíceis para o mundo. A resposta vem como em A Morte da Donzela: milagre, se você crê em milagres, acaso, se crê no acaso

Bergman é um cineasta confessional. Um dos livros que usei para estudá-lo se chamava justamente The Art of Confession. Seu cinema nada mais é do que a expressão de seus próprios medos, traumas, anseios e demônios. Bergman era um homem fascinado pelo demônio. Obsessivo, contou, de alguma maneira, a mesma história mais de 50 vezes, voltou sem parar aos mesmos dramaturgos, os mesmos atores, a mesma ilha. Fårö, ele diria, é a paisagem de sua alma.

Quando cheguei a Fårö era um dia de sol, no ônibus que peguei adolescentes loiras riam com o sol refletindo em seus cabelos. Me hospedei em um pequeno bangalô na beira da praia, mais de onze horas da noite e eu ainda estava sentada do lado de fora, lendo, vendo o sol começar a finalmente tocar no mar. A paisagem da alma de Bergman foi uma das vistas mais lindas que tive na minha vida.

Mas claro que nem tudo são tardes ensolaradas de verão. As encostas pedregosas que me pareciam tão belas com o sol refletindo, são com certeza hostis e dias cinzentos. O frio, a chuva, a noite infinita do inverno nórdico um dia chega. Bergman, como Fårö, era capaz de uma beleza sublime e do completo terror.

Talvez aí resida o gênio, no homem que nada mais fez do que contar sua história, fazer suas perguntas, e assim se inscreveu na história da arte. Porque as perguntas de Bergman eram as perguntas universais, as perguntas difíceis. Sobre Deus, a morte, o abandono, o silêncio, a possibilidade de comunicação entre duas pessoas e, sobretudo, sobre o amor. Em entrevista à Playboy, ele diz “nós somos salvos não por Deus, mas pelo amor”. A resposta de Bergman é desse mundo, tudo é desse mundo. É uma resposta tão difícil quanto a pergunta.

A paisagem da alma de Bergman foi uma das vistas mais lindas que tive na minha vida | Imagem: cenário de Fårö, por Peter Adermark

No meu caminho com ele, eu entendi que só poderia fazer sentido uma pesquisa que fosse sobre as minhas perguntas. O abandono era minha pergunta. A capacidade de frieza e indiferença dos seres humanos. A incomunicabilidade. E o amor. A possibilidade de salvar-se pelo amor. Pouco me interessava as implicações filosóficas do silêncio de Deus nos filmes do diretor (meu tema, no fim das contas), o que eu queria era as implicações práticas do silêncio na vida.

Bergman fez perguntas difíceis para o mundo. Por três anos eu tentei jogá-las de volta para eles até que uma resposta veio. A resposta vem como na cena final de A Morte da Donzela: milagre, se você crê em milagres, acaso, se crê no acaso. Nesse âmbito específico do universo eu creio em milagres, eu creio em gênios, em sensibilidades extraordinárias e em uma capacidade única de tornar universal o particular. Bergman é o artista da natureza humana sendo o artista dele mesmo e ninguém mais seria capaz disso, acreditar nisso é minha pequena concessão para com a mágica no mundo.

Sentada na frente do túmulo dele, eu conversei plenamente consciente do papel de ridícula que fazia. Agradeci. Prometi nunca me privar de perguntas difíceis e perguntei se ele se importava que eu era tão ruim em xadrez.


Isadora Sinay é cineasta e mestre em ciências da religião com uma dissertação sobre o "silêncio de Deus" em Ingmar Begman. Hoje trabalha com blogs, dá aulas e faz crítica de cinema. Transita entre literatura russa, nouvelle vague tcheca, cinema escandinavo e Andrei Tarkovsky. Escreve também para o Posfácio, cuida do Clube do Livro Erótico e mantém um blog pessoal.