Os desafios do documentário científico

Na 19ª edição do Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, apenas um dos títulos da programação, uma produção holandesa, era documentário científico. No Brasil, a produção anual de documentários cresceu dez vezes de 1995 a 2012, mas nos últimos cinco anos, apenas dois documentários científicos foram produzidos anualmente. Porém, três diferentes filmes, igualmente bem-sucedidos, revelam os caminhos e descaminhos do gênero, da produção à exibição, e dois deles são brasileiros.
Por Adriana Arruda, Ana Paula Zaguetto, Caroline Simor, Fátima Gigliotti e Simone Caixeta de Andrade

O Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade é o maior evento do gênero no hemisfério sul do planeta. Na 19ª edição do evento, que aconteceu em abril, simultaneamente em São Paulo e no Rio de Janeiro, foram exibidos 77 títulos de 26 países, dos quais 19 eram estreias mundiais. Apenas um dos títulos da programação do festival, no entanto, era documentário científico, a produção holandesa Sonhos de DNA (DNA Dreams, 2012).

No Brasil, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) atua como reguladora da produção cinematográfica, e dentre suas competências estão as atividades de fomento indireto, através de leis de incentivo fiscal, e direto, por meio de editais públicos. Se de 1995 a 2012, segundo dados da Ancine, o número de documentários saltou de três para cerca de 30 produções anuais, nos últimos cinco anos, de 2007 a 2012, foram produzidos, no máximo, dois documentários científicos por ano.

Há, portanto, tanto no cenário internacional como nacional da produção cinematográfica, um grande vácuo ainda a ser ocupado pelo documentário científico. Se o caminho da realização ainda é de pedras, três filmes com propostas bastante distintas, mas igualmente bem-sucedidos em seus objetivos, apontam alguns atalhos exemplares na produção e exibição de documentários científicos dentro e fora do Brasil: o longa-metragem brasileiro Fragmentos de paixão (2013), de Iara Castro; Sonhos de DNA (2010) da holandesa Bregtje van der Haak; e o curta-metragem brasileiro O mundo macro e micro do mosquito Aedes Aegypti: para combatê-lo é preciso conhecê-lo (2004), de Genilton José Vieira.

A ciência tem que ir aonde o povo está

A diretora e jornalista Iara Cardoso, como o artista da canção “Nos bailes da vida”, de Milton Nascimento, quer tirar a ciência dos laboratórios e aproximar os cientistas do público. Para isso, acredita ser fundamental a utilização de uma linguagem dinâmica, reflexiva e de fácil compreensão para tratar de um tema científico. Dessa forma, a conquista de espaços de exibição no cinema e na televisão torna-se mais viável.

Esses foram alguns dos objetivos da diretora do documentário Fragmentos de paixão, que conta, em 70 minutos, a história dos raios no Brasil. Foram três anos desde a concepção até o lançamento do filme nos cinemas, com cerca de 40 pessoas envolvidas no projeto. A escolha do tema surgiu de um trabalho que Iara Cardoso já desenvolvia em parceria com o Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Iara Cardoso e Osmar Pinto Junior passaram horas em bibliotecas para a produção do documentário

“A partir daí se traçou uma trajetória: seria realizada, primeiro, uma pesquisa histórica sobre os raios no Brasil, como eles influenciaram determinadas questões, tanto do imaginário das pessoas quanto questões práticas. Na segunda etapa, tratamos já as questões de cinema, a parte de transformar isso tudo num projeto audiovisual — a história de seis vidas atingidas direta ou indiretamente por um raio, entrelaçadas por um enredo histórico e narradas pelo pesquisador Osmar Pinto Junior, que coordena o Elat”.

Para a diretora, o objetivo de Fragmentos da paixão foi apresentar mais do que um simples documentário contando histórias de raios e contextualizando o fenômeno na história do país, mas produzir um material que fosse consistente e que pudesse esclarecer dúvidas e minimizar as mortes causadas todos os anos. “Além disso, outro objetivo do documentário foi desconstruir a ‘persona’ do pesquisador, tirá-lo da posição costumeira de inatingível, apresentando-o como um ser humano comum, que interage com as várias realidades e questiona outros aspectos da vida que não apenas a ciência”, observou Iara Cardoso.

2.png (472×315)
Brasil é o país com mais incidência do fenômeno no mundo

No que diz respeito à produção, a diretora reconhece que o financiamento e a busca de recursos são dois dos principais desafios, além do fato de que no Brasil não existe teoricamente um público específico para o documentário científico. “O que mais falta é acreditar que a ciência possa chegar ao cinema e em tantas outras plataformas. O que falta é as pessoas terem essa coragem. Ao longo do caminho, recebi muitos ‘nãos’, até mesmo de agências do governo que trabalham com divulgação científica, mas não desisti”.

Com um trabalho diferenciado de divulgação do documentário científico — que representaria um investimento de cerca de R$ 3 milhões com os resultados obtidos de mídia espontânea nos mais variados veículos, dos impressos à televisão –, Iara Cardoso conseguiu tornar o lançamento do filme conhecido do público e conquistou as salas de exibição do circuito Cinemark em várias capitais brasileiras no segundo semestre de 2013. Um sucesso que já está disponível para compra e locação em variadas plataformas de vídeo on demand, como a NET Now e Saraiva Digital. O filme também será exibido nos canais por assinatura da Globosat, e vai ganhar ainda um livro sobre o passo a passo da produção e as histórias de Fragmentos de paixão.

Cultura científica e independência

Retratar a rotina de um laboratório de pesquisa pode se transformar em um pesadelo de vidrarias, equipamentos estranhos e jargões científicos. No entanto, a diretora holandesa Bregtje van der Haak consegue, em Sonhos de DNA, mudar o tom e documentar o trabalho do Beijing Genomics Institute (BGI) de maneira a interessar — e agradar — cientistas e não-cientistas. A produção acompanha o trabalho da equipe do BGI responsável por pesquisar e identificar as bases genéticas da inteligência por meio da análise do DNA de 2.000 crianças consideradas superdotadas, chefiada por Zhao Bowen, de 18 anos. No documentário, há uma sequência em que Bowen, enquanto faz uma refeição rápida, assiste ao filme Gattaca — experiência genética (1997).

Interessante exemplo de documentário científico que segue à risca a fórmula de investigação científica, apresentando como os cientistas elaboram suas hipóteses e como desenvolvem todo o processo investigativo, Sonhos de DNA não é, no entanto, para Bregtje van der Haak, um documentário científico ou de divulgação científica. “Dirigi um documentário sobre a cultura da pesquisa científica. Essa definição mais abrangente e democrática conecta o trabalho do cientista a uma audiência além dos cientistas e possibilita o debate público sobre o impacto das pesquisas científicas na sociedade”, afirma.

A holandesa Bregtje van der Haak, diretora de Sonhos de DNA

A diretora explica que “seu interesse não é pela ciência pura como tal, mas em como a ciência influencia a sociedade e os conceitos sociais como liberdade e igualdade”. Esse debate, aliás, está constantemente presente ao longo do documentário. Se, por um lado, os cientistas buscam esclarecer os genes que fazem as pessoas menos ou mais inteligentes, por outro, o que será feito com essa informação? E quanto aos animais que são modificados geneticamente para atingir esses objetivos? Quais consequências positivas ou negativas podem trazer? O documentário não se propõe a responder essas questões, mas a problematizar e provocar.

Porco alterado geneticamente no Beijing Genomics Institute

Durante a produção, houve total acesso aos laboratórios e um dos grandes desafios foi superar problemas de tradução do mandarim e a desconfiança, por parte dos cientistas, de que o trabalho pudesse ser mal compreendido ou interpretado. Segundo a diretora, parte da desconfiança dos cientistas repousava no fato de que eles tinham consciência de “não conseguirem explicar muito bem suas pesquisas ao público leigo”. A solução? O investimento de um ano e meio no projeto, e grande parte desse tempo dedicado a criar afinidade dos cientistas com o processo de filmagem.

Para garantir o tempo necessário ao projeto e a independência na escolha e no tratamento do tema naturalmente polêmico, Bregtje van der Haak obteve patrocínio integral da televisão pública da Holanda — VPRO Television. “Eu não tenho ideia sobre o mercado de documentários científicos. Eu queria ser independente e livre para relatar o que eu tivesse visto da forma como foi visto”, disse a diretora. E completa: “Estamos vivendo em uma época onde várias descobertas científicas estão deixando a área do laboratório e começando a ter um enorme impacto na sociedade. No momento, estamos coletivamente vivendo em um gigantesco experimento social. Nós veremos como essas tecnologias nos afetarão ao mesmo tempo em que sofreremos as consequências”.

Sonhos de DNA foi premiado no Pariscience International Film Festival, no Imagine Science Film Festival New York e exibido em festivais de documentários na Rússia, na Croácia, na República Tcheca, na Grécia, na Dinamarca, na Itália e no Brasil.

Conhecimento, arte e incentivos

Nos 21 segundos iniciais do documentário de curta metragem O mundo macro e micro do mosquito Aedes aegypti: para combatê-lo é preciso conhecê-lo (2004), há uma brevíssima narrativa em que se destaca a frase: “para controlar, é preciso conhecer”. Depois, são 10 minutos e 21 segundos de filme sem narrativas, depoimentos ou explicações, apenas imagens, reais e virtuais, embaladas por uma trilha instrumental, que apresentam o ciclo biológico do mosquito.

“Na época da produção, havia pouca informação sobre esses vetores em forma de imagens. A ideia foi criar um produto totalmente audiovisual e que facilitaria a compreensão”, explica Genilton José Vieira, físico de formação, diretor do documentário e chefe do Serviço de Produção e Tratamento de Imagens do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), responsável pela produção do curta, para o Programa de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde Pública — Subprojeto em Educação, Informação e Comunicação em Dengue (PDTSP-Dengue). Vieira tinha uma experiência prévia em cinema publicitário e decidiu colocá-la em prática na produção e direção do curta. Mas precisou vencer alguns obstáculos.

O filme é composto de imagens reais — capturadas com uma espécie de lupa acoplada a uma câmera –, mas também de imagens produzidas virtualmente, por computação gráfica, para explicar o funcionamento do organismo do inseto e sua movimentação. “O recurso de combinar os dois registros aumenta o dinamismo e torna a linguagem mais esclarecedora ao público de uma maneira lúdica”, esclarece Vieira. O efeito final é, portanto, uma reunião bem sucedida de arte e ciência. Mas o diretor foi inicialmente muito criticado por abrir mão de uma narrativa mais convencional no filme.

Ciclo de vida do mosquito Aedes aegypti é retratado detalhadamente
em documentários produzidos pelo Instituto Oswaldo Cruz

Produzido com o único objetivo de esclarecer a população brasileira sobre como e quem transmite a dengue, o curta-metragem teve uma propagação espontânea contínua e surpreendente. “Com as imagens prontas, fui recompensado pela aceitação do vídeo nas escolas, o que prova que a narrativa convencional não necessariamente deve estar presente em um documentário científico para que haja entendimento e compreensão de determinado assunto”, afirma Vieira. Ele teve ainda outro resultado surpreendente para seu trabalho: a exibição do filme fora do Brasil.

“A experiência em festivais veio somente em 2006, com a minha ida para Havana. Participei do Festival MIF Sciences e o documentário ficou em segundo lugar na premiação, concorrendo com 116 produções audiovisuais de diversos países”, diz o diretor. A repercussão positiva do trabalho foi de tal monta que o Instituto Oswaldo Cruz investiu na produção de um segundo documentário, Aedes aegypti e Aedes albopictus — uma ameaça nos trópicos, sobre duas espécies transmissoras da dengue. Já foram distribuídas gratuitamente 30 mil cópias dos dois documentários, inclusive internacionalmente. Os filmes estão também disponíveis na internet através do YouTube pelo canal IOC/Fiocruz, em https://www.youtube.com/user/SPTI2009.

Com o aval de sua bem-sucedida incursão documental e artística pelo mundo da dengue, Vieira avalia que a produção de documentários científicos brasileiros ainda é muito incipiente e sugere caminhos para melhorar o cenário: “Inicialmente, seria necessário ampliar o incentivo e a realização de festivais e mostras em território nacional. Acredito que agências como a Ancine, os órgãos de fomentos do Brasil e as próprias universidades também poderiam apoiar a produção de documentários voltados para divulgação da ciência. Esse seria um grande passo para motivar os produtores e, consequentemente, ampliar o acesso populacional às informações sobre ciência”. Alguém duvida?

Fotos: Divulgação