Creep

O dia estava todo estranho. Eu não queria saber de nada. Estava trancada no meu quarto, no meu colchão desforrado adolescente, vendo a chuva cair. Meu mundo era um telefone fixo branco com fio de mola e um toca fitas do lado na cama para gravar músicas de rock que passavam na rádio. Não tinha problema gravar a fala do radialista. O importante conseguir reter aquela música e, depois de um tempo, acumular uma seleção incrível de hits que só eu amava. Assim meu casulo ficava cada vez aconchegante e protegido da estranheza do mundo. Na verdade, eu que me sentia uma estranha, uma aberração. I’m a creep.

E foi por esse ano que o Radiohead lançou Creep. Quando Thom Yorke cantava aquela perfeição de refrão “what the hell I’m doing here?” eu gritava com toda força da minha garganta folk. Vivia fechava no meu mundo, com uma puta trilha sonora. Uma verdadeira viagem de balão para qualquer destino mágico que eu quisesse ir. I float like a feather. Flutuava sempre até ele, meu espelho, minha xérox, meu carbono. Ele tocava violão, era tímido, magro como Thom Yorke, queria deixar o cabelo crescer feito um rock star dos anos 90, nerd como eu. Mas a porra do violão atraía outras meninas. Eu nunca iria chamar sua atenção. Argh, como eu queria ter o controle, ter um corpo perfeito, uma alma perfeita. I wanna have control, I wanna a perfect body, I wanna a perfect soul. Eu me sentia uma pizza de muzarela em rodízio, sempre ignorada. Eu também rejeitaria. Iria na de berinjela. Mais exótica, com potencial degustativo imenso. É só saber esquentar para ficar espacial. Ah, cara… I wish I was special. You’re so fucking special…

Preciso fazer alguma coisa. Vou até ele. Quem sabe eu não consigo trocar algumas palavras, já que conhecia as mesmas bandas que ele, conhecia todo seu setlist e todo seu universo musical. Eu poderia me exibir com tais conhecimentos. Acho que ele nem sabia que eu tocava piano. E mal ele sabe que eu fiz uma versão foda de Smell Like Teen Spirits nos teclados. Ah, e também de Nothing Else Matter, do Mettalica. Ha ha! Estavam todos lá naquela roda de música. Bando de desafinados. Mas ele estava…. lindo…. Não aguentava ver aquela mão descendo nos acordes de Legião Urbana — típico, todo mundo sabia cantar. Bem, eu vi que ele me olhou pelo canto do olho. Difícil ele me olhar nos olhos. Tratei logo de dar um sorriso. Ele sorriu de volta. Todos estavam pedindo músicas, mas ele não curtia muito, eram manjadas como muzarela. Sentei ao lado dele, buscando espaço no meio daquelas histéricas tentando ser sexy e querendo dar. Grrrrr. Mais uma vez pensei, que diabos estou fazendo aqui…. Mas meu coração estava disparado e ele fazia aquilo tudo valer a pena. Peguei coragem e então pedi minha pizza de berinjela: “toca Creep?” Em súbito espanto, ele surtou: “Caralho, você conhece?”. Eu me enchi mais do que os balões que eu viajava e disse: “Não só conheço, eu sei tocar!” Tirei onda. Peguei a viola do brother mais perto, afinei (tirei onda de novo) e começamos juntos. E então ele cantou olhando para mim e só para mim.

Quando você esteve aqui
Não conseguia te olhar nos olhos
Você é como um anjo
Sua pele me faz chorar
Eu queria ser especial
Você é especial pra caralho

Gritamos juntos o refrão, com o mesmo sentimento de não pertencimento desse mundo, viajando na guitarra pós grunge do Radiohead:

Mas eu sou um estranho, uma aberração
Que diabos estou fazendo aqui?
Não devia estar aqui

O que mais importava? Na hora dos agudos de Thom Yorke a gente deveria se beijar. No meio de tanta gente, cantávamos sós. Ninguém mais conhecia a música. Ele me chamou para levantar. O melhor que poderíamos fazer era correr dali. Corre, corre, corre….. We don’t belong here!

Seja lá o que te faça feliz
Seja lá o que você deseje
Você é especial pra caralho
Eu queria ser especial

Ele colocou o violão nas costas. Voltamos para casa de mãos dadas, conversando sobre os novos clipes da MTV. Ele disse que ia gravar uma fita cassete para mim com sua seleção incrível que só ele amava (e eu também). Depois a gente iria cair em resenhas intermináveis sobre as bandas de rock, comprar um caderninho de cifras nas bancas e tocar. Quem sabe, nascia uma banda. Estávamos felizes naquele momento para sempre. Enfim, pertencemos a algo.