
Amei primeiro Pedro
ao odiar Renato.
Ódio verdadeiro e pegajoso.
Só fazia aumentar meu desprezo
seus chapéus, suspensórios,
sua colônia e sua pronúncia
do latim.
Odiando cada vez Renato
amei mais Pedro
que dizia coisas doces,
amava os direitos humanos
e me amava também.
Sua simplicidade, seus erros
de português.
Os ventos viraram e sacudiram o platô
Tempos sombrios, trovões.
Não era chuva,
Mas lavou o país.
Pedro calou.
Renato está mudado.
(Belo chapéu, Renato.)
Um mimo
esse jeito de ajeitar os suspensórios.
Gosto da tua ironia de burguês,
de como coloca os pingos nos is.
Não tenho saudade de Pedro,
Pois hoje amo Renato,
Que se ama também.

