Dezoito no outono

Estes serão os dias em que a chega chuva

E eu, agoniado, quero sair de casa

Entrar sem declarar em outras estruturas,

Ver novos rostos, ouvir outras conversas


Não acabarão as contas que faço

Botando em peso os documentos que preciso novos

Os chapeis que quero comprar, as camisetas

Pra repor as roupas que ficam cada vez menores que eu


Farão cada vez menos sentido meus amores não-correspondidos

E cada vez terei menos tempo livre, pois tenho de ler

Cada vez mais direi que menos devo entregar-me aos meus vícios

Tomar meus remédios, dirigir um carro


A cada dia mais haverá briga, porque choram nas fábricas,

Porque discutem os professores nas assembleias,

Porque humilham os patrões os oprimidos,

Olharei mais a eles do que a mim, de propósito


E cada vez menos fará sentido o nome que me deram

E saberei eu o que fazer do meu corpo

Sem saber muito bem onde vai a parte minha dentro do outro

E cada vez quebrarão mais as lâmpadas, e eu deixarei de trocá-las


A cada dia que passa o escuro abriga melhor as fábulas

A cada dia que passa a poltrona me compreende melhor

Ficarão aqui minhas marcas, meus fluídos, as cinzas

Ferramentas, canetas, poemas, debaixo das almofadas


E a cada dia eu passarei mais frio por lembrar do verão de outrora

E a cada dia eu ligarei menos aos que já me fizeram sorrir tanto

E escutarei menos música, só os tambores dos meus camaradas

Diminuirão meus chinelos, terão mais pelos os meus dedos


E a cada dia que passa haverá mais angústia

E sobrarão de mim os meus sonhos

Que quero alcançar, que brigam por mim

E a cada dia escreverei mais


Terei uma agenda de pequenas anedotas,

Das compras que fiz por impulso

Talvez com sorte, assim, comprarei menos por felicidade,

E não se perderão os pensamentos de quando ando nas ruas