encontro

sobre permanecer só no começo e preferir acabar antes do fim.

arte por agnes cecile

me leve ao seu lugar favorito
aquele que todo mundo conhece
mas que só significa algo para ti
aquele que já fui tantas vezes
com tantas pessoas diferentes
em tantas vidas diferentes.

me leve a seus sonhos e desejos
aqueles que você conta para todo mundo
mas que para mim contará em detalhes
contará devagar
como quem quer me fazer lembrar
como quem quer me fazer conhecer
tudo que faz parte
de seu ser.

me deixe falar
por tanto tempo 
(só para você me calar)
me deixe teorizar sobre o sentido da vida
e da liquidez moderna
e da existência de regras sociais
só me deixe falar
sem nem saber 
quando parar.

perceba
entre risadas tímidas
e toques íntimos
a forma como vibro quando encosta em mim
e como rio sem controle quando diz que percebeu
mesmo que sem querer
e mais ainda quando por querer.

me leve a noite
e fale sobre todas as noites em que já se sentiu
sozinho
desesperado
isolado.
mas também me conte
daquelas em que esteve muito bem acompanhado
como nessa.

me encare de longe
como quem acha que não está sendo visto
me olhe enquanto falo
enquanto respiro
enquanto vivo
pois será a última
e primeira vez
que estarei ali
sentindo.

não desvie de meus olhos
nem por um minuto
nem por um segundo
pois só assim vou saber que me quer
mas me quer só por hoje
só por agora.

me faça perguntas
tantas perguntas
que trocarei todos seus pontos de interrogação 
pela minha língua
pelas minhas mãos
pelo batimento acelerado de um coração.

me leve ao estacionamento do seu restaurante favorito
quando já estiver fechando
e as luzes se apagando
me use
me tome
me aproprie
como se nunca mais fosse me ver
me beije como se fosse a primeira
e única vez.

me jogue contra a parede mais próxima 
e diga coisas que ninguém diz
da primeira vez
coisas que mais ninguém diz no começo.

me diga que não se importa em ser usado
naquela noite
e só naquela noite
desde que seja por mim
e desde que eu use tudo
e não apenas a pele que te cobre.

se despeça com um beijo
dos menos originais
dos mais secos
tão seco que nem o reconheço mais
me diga um curto “até mais”
enquanto tento descobrir
para onde ir
para onde olhar
o que falar.

e quanto a mim,
até nunca mais.

(foi bom enquanto durou.)