Miniconto Cinza
Ele sai de seu quarto cinza e anda pelas ruas da cidade cinza. O asfalto cinza escuro não contrasta muito com o céu cinza claro. As pessoas, cinzas, de roupas cinzas andam a pé, pelas calçadas cinzas. Cabelos e cachecóis cinzas esvoaçantes brincam na atmosfera cinza. Outras pessoas dirigem os seus carros cinzas, desaparecendo nas esquinas, entre prédios cinzas e árvores secas e magras, tristes e cinzas. Cães acinzentados vasculham montes de lixo cinza. O céu ameaça despejar pesadas gotas. Cinzas. Pássaros cinzentos cruzam o mesmo céu de nuvens cinzas e emitem seu canto-agouro, grito capaz de fazer as pessoas se sentirem ainda mais cinzas por dentro.
Ele entra no café de fachada cinza, onde a atendente cinza vem e se prepara para anotar seu pedido. Então, ele se vira a tempo de ver entrar, pela mesma porta que ele acabara de cruzar, uma pessoa esbaforida, que parece tê-lo seguido até ali. É uma mulher e ela é total e absolutamente vermelha! Sua pele e cabelos são vermelhos, seus dentes e olhos são vermelhos, a roupa é vermelha e os sapatos são vermelhos. Ela toma fôlego, olha para ele e grita, já beirando a histeria:
_ Por que só você é vermelho, hein? Qual o seu problema?
Nenhuma das pessoas cinzas em volta entende o diálogo do casal cinza. Franzem o rosto cinzento. Todas assistem gotas acinzentadas escorrerem pelo rosto do rapaz cinza, e ela vê no mesmo rosto lágrimas de um vermelho brilhante correndo até o queixo rubro do garoto vermelho. Ele sorri apesar das lágrimas. Ela também, mas não sabe bem o porquê.


