
Novas lentes
Entrei só pra tomar um café, “eu já ia passar um mesmo...”, mas encontrei gratidão.
Era final de uma tarde de trabalho, no caminho para casa parei para pegar alguma coisa que o filho havia esquecido na casa dos amigos. Foi então que ele ia passar o café e eu não recuso café. Café passado no filtro de pano, porque ele é chato, pano trocado diligentemente de tanto em tanto tempo, faz tempo que é assim, acho que sempre foi, e eu me animei com a expectativa de ser desses cafés que deixam uma borrinha ao final, na xícara. Ficou.
Você esta mais magro. Não é dieta, estou cuidando de saúde. É, eu também. Poxa você também? To tentando cozinhar mais. Nossa a coluna também atrapalha bastante a gente, eim? Ia até te perguntar sobre teu medico da coluna. Olha, essa bolacha é bem boa. É integral. Experimenta essa outra. Como você usa a chia na sua comida? Duas colheres, mas antes você deve... Estou com um Hemingway na fila, “Por quem os sinos batem. Dobram. Isso, “dobram”!, ganhei dele..., Freud entra nessa cena, eim. Não é mesmo?! Risos. Onde estão suas crônicas? Gaveta. Acho que tá na hora. Acha mesmo? Sim, libertar até os poemas. Ah, deixa te passar um arroz de couve-flor, não estou mais comendo arroz. Já estou curioso, vou fazer sim. Você conhece o blog tal, muito bom, não é de dieta. Ótimo, não é de dieta. Minha nutricionista trabalha mudança de mentalidade, relação com a comida, to procurando isso. Passou a hora mesmo. Isso mesmo. E os boys? Ah, os boys, você sabe, né? Precisamos de um canceriano, ou é tudo ou nada. Nossa, eu tenho a pessoa perfeita pra escrever com a gente. Mas esse café tá ótimo, humm adoro essa borrinha do filtro de pano. Pois é, meu pai só gosta assim. Não tá sobrando dinheiro, né? Nada menina. Nada menino. Mas essa pessoa já sofreu de amor? Tá maturando. Ah, que ótimo. Esses meninos esquecem tudo pela casa dos outros. Criança da fulana é cão. É, todos são. Pão também não estou mais comendo, foi aos poucos, mas aboli. To nessa, tirei o leite. Sabes né, o refrigerante nunca foi difícil pra mim. E esse livro. Menina, ótimo, uma trilogia. Quero depois. Vi aquela foto, que linda. Linda. 18 anos já, um dia desses... Tenho que ir. Olha tem um livro acho que chama O peso da dieta, não é de dieta. Ótimo que não é de dieta. Te mando a receita e o link do blog. Manda mesmo. Menina vi um filme, me identifiquei, vais também. Quero. Tem que baixar. Cuida desse colesterol, olha essa diabetes. Cuida, olha esse teu rim. Beijo. Beijo.
Eu entrei pra tomar o café, e agora ao lembrar da borrinha no fundo da xícara lembrei da Vodca de outros tempos, das receitas de farofas de outros tempos, os encontros de outros tempo. Nos outros tempos também havia café. Sempre houve café. Regra não havia, desregraaaados... Nesse havia café, e uma deliciosa, natural, terna elegância e gentil esboço sobre a idade. Minha nossa! Estávamos falando de velhice! Era mesmo sobre a velhice. E esse é um tempo, tal qual outros tempos, rodeada de felicidade disfarçada. Hora de cuidar do futuro que ainda existe, com carinho, dedicação.
Gratidão foi que eu encontrei quando terminei o café. Esses tempos, e outros tempos, muito obrigada a vocês. Obrigada pela percepção de que tudo é vaidade. Clichê. Vai idade, vem maturidade. Por favor, uma de cada vez, que precisamos ter historias.
Historias lidas, pelo que percebi, com as novas lentes dos óculos - em cima do livro, ao lado da xícara - cada dia mais grossas.

