O poder da criação

Carlos M.
Carlos M.
Nov 4 · 10 min read
Hilma af Klint — What human being is, 1910.

Orlando dirigiu-se à sala mirando a poltrona e a mesinha central, puxou isqueiro, cinzeiro e enquanto se sentava abriu o maço de cigarros de palha, era o seu kit. De pernas cruzadas bateu a ponta traseira da palha no braço da poltrona, até finalmente acender o cilíndrico. Enquanto acontecia o rito encabeçado por aquele kit dos pequenos prazeres percebeu que faltava algo para mergulhar em intensa distração e esticou o braço alcançando o celular e o controle da televisão, estabeleceu aleatoriamente um canal de TV e pôs-se a zapear o celular.

Algo o incomodava e o impedia de abstrair completamente dos comentários aleatórios do Bom Dia Brasil. Olhou para os lados, a porta estava aberta, mesmo assim não era o calor dos meados de novembro interrompido por uma breve lufada, que atravessou ligeira a brecha da porta central, o que o enfastiava, tampouco os longos zumbidos de carros acelerando na oficina do vizinho. Seria mesmo um barulho? Talvez. Não era o tic tac do relógio de parede, pois esse como sempre estava mais parado que o concreto que o segurava. Nem era um zumbido de inseto, era fato que algo imanente martelava em seu íntimo, crescendo em ritmo familiar. Levantou-se e percebeu pela acústica traiçoeira que o som vinha do final do corredor, era o quarto de seu companheiro de casa.

“André? É daí esse som?”

“Opa, desculpa cara, não sabia que tinha gente em casa, calma aê.”

“Não, tranquilo.”

Com a cabeça pra fora André o interpelou.

“E ai, maluco! Foi mal, tava arrumando as coisas aqui, tá muito alto?”

“Não, tá tudo certo mesmo. Só queria saber se era daqui, se tinha gente em casa também”.

“Ah! Tá certo, já apareço na sala, vamo ver o jogo mais tarde.”

Consentiu aliviado.

De repente, após aquele barulho seco de som interrompido, depois de uma onomatopeia característica do desligar de aparelhos eletrônicos, veio um calafrio. Por um segundo a música parou e no segundo seguinte o pulsar sanguíneo de Orlando já era uma batida de bumbo. {Porra, isso tá tocando dentro de mim?}

Assim que saiu do quarto André percebeu Orlando cantarolando a última música de sua playlist.

“Pô, tava alto pra caralho, né? Desculpa, perdi a noção com o quarto fechado. Pelo menos você curte um João Nogueira.” Riu-se.

Orlando coçou a nuca um pouco confuso, mas limitou-se a responder concordando com um sorriso fraco.

“Pois é, essa é linda.”

Voltando-se à palha descansada no cinzeiro o nosso herói não viu outra saída que não fosse completar seu ritual. Acendeu o cigarro e tragou longamente, baforando para o lado. Tudo corria bem, não fosse a fumaça sair de sua garganta de maneira sonora. {Que porra é essa? Fumaça tem som?} O vapor embolou da traqueia à boca e Orlando a sentiu como uma melodia sinestésica. O pior foi que esse sentimento agudo se voltou a ele como um gatilho memorial, assim que soltou o fumo previamente tragado lembrou-se de um causo, mas como ainda estava atônito ficou embaraçado e por algum tempo calculou se deveria falar sobre isso ou somente esperar esse devaneio acabar. Mal sabe por qual motivo começara a expor a história quase imediatamente à conclusão do pensamento, como uma ânsia de si para fora.

“Sabe que tenho uma história meio maluca com essa música?”

“É? Diz ai”.

André aconchegou-se no sofá como quem se acomoda na poltrona de cinema, descascando a laranja que estava em suas mãos.

“Uma vez eu tava com uns amigos naquele bar da Rosaura, tá ligado?”

“Uhum” Consentiu André, mascando um gomo.

“Um silêncio pavoroso no lugar, somado às mesas totalmente ou parcialmente quietas, mesmo nas que emanavam algum som, exalava um ar profundamente tedioso. Até que fui mijar, no caminho cantarolei uma música do João Nogueira mesmo, não essa, aquela Ê, vida boa…espelho, sabe?”

André limitou-se a balançar a cabeça em um movimento curto e aquiescente.

“Quando voltei o ambiente tava completamente mudado, cara. Parecia que o programa do Erick Jacquin tinha feito uma reforma no lugar. Não que tivesse mudado a decoração, mas a energia era outra. No fundo do salão um grupo tocava um sambão forte e as pessoas estavam profundamente animadas. Não sei o que rolou, se demorei no banheiro ou se me distraí antes, sei que ninguém na minha mesa parecia surpreso. E teve mais, quando cantarolei a música o vocalista do grupo apontou pra mim e começou a cantar exatamente essa que você tava ouvindo agora.”

Orlando parou a conversa ai, mas sua vontade era contar para o amigo que a música parecia ainda estar dentro de si nesse exato momento. {Ah não! Já pareço maluco o suficiente.} Em meio à síncope do samba, o estralar de seus ossos, a caminhada sanguínea e as batidas do coração, nosso herói ouviu a palavra café.

“E ai? Vamo?”

Orlando demorou um pouco para compreender que era um convite, mas assim que se deu conta aceitou uma ida ao Café Loreto.

Era meados de uma primavera seca e quente, o cair amarelado da tarde reluzia nas folhas dos arbustos e das árvores somados ao colorido dos famigerados ipês, que farfalhavam a cada rajada de vento, este que salvava o pouco da dignidade de um suado caminhar. Definitivamente não era um clima para bebidas quentes, mas Orlando ia como se tracionado em direção ao estabelecimento.

O café era organizado e charmoso, aconchegado por uma decoração nem muito moderna e nem muito retrô. Os dois pediram expressos e uma porção de pães de queijo, que chegaram frescos e depressa. O garçom que os serviu se incomodou com a ventania incentivada por um grande ventilador, um Ventisilva daqueles bem antigos e carcomidos, que se não fosse sua utilidade — ou seria sua inutilidade? — poderia fazer parte de um antiquário. Depois de lutar vorazmente contra os guardanapos espalhados pelo sopro constante daquele maquinário monumental o funcionário não viu outra saída que não fosse desligar o dito cujo.

Logo que o motor arrefeceu foi possível ouvir o tilintar de uma pequena caixinha de som colocada ao lado do balcão. Não sei o que aconteceu primeiro, mas assim que o som tornou-se discernível Orlando queimou a boca na ponta da xícara e num salto derramou parte no café em seu colo, um balé desconcertado e seguido de palavrões. Claramente não era isso que o acossava e sim a canção ocupando o ambiente, evidentemente a mesma que comentara anteriormente. André o questionou se tudo estava bem e recebeu um insosso murmurar como resposta.

Saíram do café e André não notou que todos os comércios ao redor tocavam a música, {mesma desgraça de música, cacete.} Orlando estremeceu sem soltar qualquer palavra. Já era noite e o mal-estar não cessara, se bem que as noites já eram um tanto difíceis na casa, pois eram vizinhos de uma Igreja Evangélica, que parecia achar que Deus era surdo. Recusou quaisquer invitações, não viu nem o jogo do seu time e deitou-se cedo, {não havia muito que fazer}, dizia para si. Aparentemente esse assunto o cansou em demasia e assim que encostou a cabeça no travesseiro transportou-se ao mundo de Morfeu.

Acordou ressabiado lembrando-se do dia anterior, mas até agora nada de confundir o barulho de seu organismo com uma roda de bambas. Lavou o rosto na água fria da torneira do banheiro e deixou o local fechando a porta em seu encalço, as duas batidelas da porta no batente deixaram-lhe um tanto desconfiado, daí que segurou a respiração e realmente a sua música interna não dava sinais de aparecer. Cumpriu o rito matinal sentando-se à poltrona da sala de estar, fumou aliviado mais ou menos até a metade do cigarro, até que se deu conta de que a sala não era a mesma de sempre. Esse ponto não é simples de explicar em palavras, o leitor há de fazer um pequeno exercício, o mesmo desempenho de Orlando, mas agora um pouco mais guiado que o dele.

Bem, era evidente que o herói não estava em outro lugar que não fosse sua casa, o problema era a sensação das coisas, era como se uma intensa e permanente sensação musical o tomasse, como se não estivesse vivendo mais do que uma autoficção involuntária, mas não essas autoficções realistas ou modernas do campo literário. O fato extraordinário era sensorial, como já dito, por isso encostar-se ao que quer que fosse, desde o estofado de uma das poltronas do local, até pequenos objetos era o mesmo que debruçar-se sobre uma frase musical.

Não é de simples compreensão, não o foi para Orlando tampouco. Era uma rapaz alto, mas logo que foi tomado por essa sensação começou a caminhar como se fosse um baixote com as pernas formigando. Ao descer os degraus do quintal se sentiu como descendo os versos de um samba, a paisagem era um grande retiro musical e sua mente era um emaranhado de imagens sonoras. Talvez por isso que tenha olhado curioso para o cigarro em suas mãos, procurando a resposta de qual droga estaria ali. Mas, para falar a verdade, não tinha fumado ainda quando iniciara esse devir.

Seu corpo exalava a mais pura ansiedade, pensou primeiro que ia morrer, depois concluiu que já tinha falecido, agora avaliava se estava no paraíso ou no inferno. Ainda agoniado deu-se conta de que nada ali era sua casa, malgrado a aparência fosse idêntica e como alma penada pôs-se a vagar pela suposta residência tentando buscar uma saída, mas não achava qualquer possibilidade de abrir os portões, simplesmente nada se movia além de seu corpo. Nosso herói se esgueirava como quem busca a saída de um shopping em feriados comerciais, mas os objetos transformados em claves de sol, ou simples versos do samba o impediam como num sonho em que qualquer movimento é arrastado e complexo. {Não era um sonho}, tinha certeza de jamais ter sentido qualquer coisa parecida em um universo onírico. As coisas permaneciam inertes, entretanto sua visão apresentava novos objetos.

Apesar do pânico que o usurpava resolveu deitar-se naquele chão de ondas sonoras, navegando como quem boia em mar calmo. Era como se estivesse à deriva, náufrago movendo a sua mente enquanto os sentidos conspurcavam o caminho com manchas abstratas e poéticas. Em pouco tempo não estava nessa terra que conhecemos e compartilhamos, passou bem por todos os belos bairros históricos do samba carioca, além de um bom passeio do Bexiga até o Jaçanã, paulistanos. Serpenteando entrou num surdo de terceira, num rebolo e depois numa cuíca e notando, agora mais calmo, que ele mesmo era o som agudo daquele instrumento. Sentiu-se poderoso e quase sem perceber derramou lágrimas em uma avenida lotada de adereços, mergulhou na ala das baianas e equilibrou-se como um pequeno duende, driblando o percursionista que batia sem dó no agogô e saltitando ao balanço do ganzá. Foi um grande enfeite de uma índia no seio de uma festa pagã, foi bomba prensada de assustar crianças e fantasia das mais politicamente incorretas, nadou de braçada um frasco de lança perfume e cavalgou ursos, leões até pular no colo de um gorila e terminar em espiral um belo pouso nas costas de uma ave de rapina. Transformou-se em fogo de artifício e seu estouro foi quase tão intenso com o big bang, daí que foi descendo e diminuindo, até encolher ao seu tamanho natural, absorto em um suor pegajoso, além de um desconforto proporcionado por suas roupas e ossos que tangenciavam seus músculos e o miocárdio.

Anna Katarina Boberg — Northern Lights.

Deixara de ser música e era apenas aquele mesmo cara apoiado numa privada de porcelana meio ensebada de um agradável botequim. Demorou um pouco ainda para se recompor e novamente foi quase empurrado por uma vontade alheia de volta a seu lugar de origem. O clima festivo do bar da Rosaura trazia-lhe alguma lembrança, mas nada que conseguisse captar concretamente. O samba rolava vistoso como sempre e após uma parada, assim que se sentou a mesa, quase que de imediato começou um samba. Adorava aquela música e virou automaticamente em direção ao palco. O samba era executada a perfeição por uma bela e jovem cantora, que quase não tirava os olhos do seus, assim seguiu balbuciando partes da música até sentir um puxão grotesco na gola da camisa.

“Que beleza, seu Orlando!” disse sua companheira.

“Nossa, Larissa, o que foi?”

“Que que você tinha que ir lá pedir música. Tá de graça com a cantora, é?”

“Não pedi nada, amor. O que você tá falando?”

“Ah! Vá! Você cantou essa música a semana toda, é coincidência então? Você volta do banheiro todo animado e ela resolve cantar seu samba predileto?”

*******

Orlando parecia um pouco mais cansado, mas sentia que havia dormido muito bem. Lavou o rosto, escovou o dente, urinou e lavou as mãos. Estava feliz com a rotina, com as coisas no lugar, nada o perturbava. Ligou a TV, pegou o celular, sentou-se com seu kit apoiando todas as coisas no colo e escutou André saindo do quarto.

“Opa, não sabia que tava ai, rapaz.”

“Pois é, acabei de levantar na verdade, vou fumar esse cigarro e tomar um café.”

“O que você fez ontem? Chegou tarde?”

“Nada, cheguei cedo, tomei umas no barzinho sossegado até. Quer dizer, a Larissa me encheu um pouco a cabeça lá, mas foi ok.”

“Como assim?” Perguntou André enquanto colocava o molho de chaves no bolso.

“Fui naquele bar da Rosaura, sabe?”

“Sei, pô.”

“Então, a Larissa jura que eu fiquei de flerte com a cantora, pedindo um samba do João Nogueira, cara.”

“Ah! Sempre o João Nogueira, mas não era um cara?”

“O que?”

“Não era um cara que tocava lá?”

“Não lembro, acho que sempre foi uma mulher mesmo.”

“Estranho, alguém me falou algo, mas não recordo muito bem o que era, nem quem disse. Enfim, tô indo no café, bora?”

“Pô, vou passar, tô tranquilo. Vou tomar um café aqui mesmo.”

“Beleza, até mais.”

“Valeu.”

André saiu a passos largos, enquanto Orlando fumava a pontinha de seu cigarro, com um calmo e ingênuo prazer de quem não conhece as mazelas e os incômodos da vida e que tampouco precisa fazer escolhas. Pensou seriamente que o tédio era um verdadeiro porto seguro e dando uma baforada longa aceitou que aquilo ali era o seu verdadeiro destino. Mal percebeu que seus dedos tamborilavam no braço da poltrona em uma síncope característica, fechou os olhos quase em transe e os abriu.

Com os olhos cobertos de uma água doce, tudo que conseguiu enxergar foi uma silhueta. Metade mulher, metade peixe, solfejando aquele seu samba favorito.

Revista Criado Mudo

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Estudando poesia, literalmente.

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