POEMA PARA UM CRIADO MUDO

Rê Ettinger
Jul 28, 2017 · 1 min read

Abri uma gaveta

E procurei nela

Texto para o móvel

que não falava,

Só que da gaveta

Não saia nada.

Insisti. Abri outras,

As melhores gavetas…

Ainda não havia nada

Que me deixe satisfeita.

Comecei a rabiscar a página,

A deixar nela o retrato

da agonia que é

procurar palavra

de fora pra dentro…

Então, já de dentro,

Fui forçando a barra,

Empurrei com força

Gavetas que estavam fechadas,

Até algumas caírem no chão.

As palavras se espalharam pelo quarto…

Era palavra por todo lado:

tapete, cama, quadro,

mesa, janela, armário,

chão, porta-retratos,

em todos os cantos…

E era palavra de todo jeito:

em cima, embaixo,

pendurada,

aberta, fechada,

amontoada,

cheirando a guardada…

catei o que pude,

mas tudo estava

pelo avesso…

Vesti o verso

Do jeito que tava…

Com as palavras gritando…

saltando, de tão nervosas,

do dedo pro papel…

Olhei na voz

o catado das palavras

E mirei de novo

o móvel que silenciava…

Ele tinha gaveta.

Mudei o contexto:

Abri a gaveta

E guardei o texto.

Revista Criado Mudo

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Rê Ettinger

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Poesia pode ser meio ou fim, mas também recomeço. Poesia pode ser o que você quiser. Principalmente caminho. https://complexodefenix.wordpress.com

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