Um

Ela mascava palavras sem parar. E só as cuspia em frases bem talhadas, perfeitamente esculpidas, impossíveis de discordar. Era como se ela tirasse uma única bala do bolso. Abrisse o tambor do revólver. Inserisse o projétil. Engatilhasse. Mirasse. E acertasse. Bala palavra. Calibre alto. Pontaria na mira certeira, no meio da minha testa. Eu sempre caía duro no sofá. De olhos arregalados. Boca seca. E muita vontade de falar. Mas emudecia. E mudo tentava encontrar. Uma maneira, tola que fosse, de contestar. Só me recuperava depois de doses exageradas de água, respiros incontidos, narinas em brasa, peito em vácuo, pulmão liso buscando ansiosamente por ar.

Ela me fazia delirar. Perto dela, eu era apenas um adolescente. Um nerd cheio de planos infalíveis de se vingar. Um personagem de filme de John Hughes se exibindo pela centésima vez na Sessão da Tarde. Um lobo bobo preso à própria puberdade. Traduzindo love songs entre as letras dos encartes. Sem nenhuma intenção de buscar liberdade. Estátua vaga. Pose reta. Olhar em seta. Que ali ficava. Mirando ela. Imaginando que a qualquer momento a menina criaria asas e, mulher desperta, escaparia pela janela.

Durante anos funcionou. O agudo surdo de nossas respirações em coma. O ruído dos nossos corpos na cama. Do gemido um barulho que atravessava nossa redoma. A maneira como eu desfiava seus pelos sem desfazer sua trama. A forma como eu desafiava seus sonhos sem destravar suas armas. Como eu explorava seus sentidos sem fechar seus olhos. Como eu sorvia sua essência sem estragar seu molho. Até extravasar em choro, nosso esporro em puro gozo. Ensinava-lhe os caminhos do corpo. E ela aprendia. Mesmo que às vezes confundisse prazer com agonia.

Durante anos funcionou. O silêncio. Minhas frases tolas. Pressentimentos. Versos iluminando sombras. Suas palavras dando vida à boca. Sentido à toca louca. Preenchendo minha mente morna, como a um livro vazio e aberto e esparramado em cima da escrivaninha torta. Com folhas que sonhavam voar feito débil andorinha quase morta. Paciente, ela me ensinava a ter opinião. A ser mais que um senão. Sonho de ocasião. Chuva de verão. Fui bom aprendiz. Mesmo desconfiando a todo momento. Que tudo aquilo ali estava sempre por um triz.

Durante anos funcionou. Mas como tudo o que é para sempre, um dia chegou ao final. Acabou. E não foi bonito. Ela já havia aprendido a não cair nas minhas armadilhas sinestésicas. Já sabia desligar pontos. Evitar toques. Controlar minhas mãos. Antecipar movimentos. Eu já estava fera em pensar antes de falar. Buscar argumentos. Evitar gritos. Controlar palavras. Precipitar respostas. Éramos um. Mais do mesmo. Cheios de medo. Dividindo-nos ao meio.

Durante meses funcionou. A falta. Ausência. O nada. A carência. Apenas lembranças tatuadas na varanda da demência. Vez ou outra tateadas com veemência. Pressionadas a viver sem referências. Junto a impuras indecências da adolescência. Sinais de uma injustificada decadência. Maldita insistência!

Durante meses funcionou. Mas como tudo o que é novela, um dia voltou a ser real. Era noite. Fazia frio. Trovejava lá fora. Dentro do apartamento, uma caixa de som meio furada reproduzia a voz quase rasgada de Bono Vox, que reclamava: you’re even better than the real thing! Minha cabeça reclinava numa almofada e eu chorava enquanto declamava a fumaça de uma massa da Chapada no ar. A agulha no LP começava a tocar a terceira faixa. Mas só ouvi a maçaneta destrancar. E girar. Para ela entrar. Sem tocar. Ainda tinha a chave. Não lembrava. Cheguei a pensar ser um fantasma. Passou deslizando pelo sofá. Parecia flutuar. Até pousar na janela.

Abriu o vidro por causa do calor. Molhou o rosto, a blusa, o peito, o carpete e a peça retrô. Que havíamos comprado no centro antigo de Salvador. A chuva parou. Traguei a última ponta. Enxuguei a última lágrima. Inspirei o último fôlego. Respirei palavras ao vento. Inventando raiva. Invertendo desejo. Invadindo medo. Virando o jogo. Violando o silêncio.

“Is it getting better? Or do you feel the same? Will it make it easier on you now you got someone to blame? Did a disappoint you? Or leave a bad taste in your mouth? Have you come here for forgiveness? Have you come to raise the dead? Have you come here to play Jesus to the lepers in your head? Did I ask too much, more than a lot? Well, it´s too late, tonight, to drag the past out into the light! You act like you never had love and you want me to go without! You say love is a temple, love the higher law. You ask me to enter, but than you make me crawl! And I can’t keep holding on to what you got, when all you got is hurt!”

Ela mascava palavras sem parar. E só as cuspia em frases bem talhadas, perfeitamente esculpidas, impossíveis de discordar. Era como se ela tirasse uma única bala do bolso. Abrisse o tambor do revólver. Inserisse o projétil. Engatilhasse. Mirasse. E acertasse. Bala palavra. Calibre alto. Pontaria na mira certeira, no meio da minha testa. Disparou ela: Nós somos um, mas não somos mais os mesmos.

Deixou a chave do apartamento em cima da peça molhada. Atravessou a porta aberta. Sumiu no corredor escuro. Me deixou ainda lento em cima do sofá sem palavras. Sem nenhuma resposta certa. Sozinho, com um amor impuro.

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