VIVER É UM RESTAURANTE FAST FOOD

Eu sinto o mundo.
Sinto como se ele estivesse me esmagando entre duas chapas quentes, metálicas. E as soltasse repentinamente. E as voltasse sobre mim com velocidade.
Sinto como se estivesse à alta temperatura, cozinhando no âmago. E a cada dois minutos jogassem uma xícara de água gelada sobre meu corpo ardente, quase fundindo em chamas. Como se me temperassem pra ser devorado. Mas me multiplicassem a cada novo pedido. Como se acelerassem meu cozimento pra que eu chegue cada vez mais rápido a boca da plateia. Sim, meu caro. É tudo uma questão de entretenimento. Voltar a atenção para o lúdico.
Minha trajetória é tempero. A cada minuto, adquiro o sabor de especiarias distintas; peculiarizo-me — no fundo, padronizo-me. São tantas combinações possíveis. São tudo pra disfarçar meu real gosto. Não é dos melhores.
Meu corpo, com sabor exótico-lugar-comum, é disposto em uma cama de alfaces, maionese e fatias de tomates gelados. Estremeço com o frio. Linha de produção. Sobre mim, um queijo opaco. Por fim, o pão seco coberto de gergelim. Estou completo. Tão sem vida quanto o cara pálida que me olha do outro lado do vidro, fitando-me com um tesão que vai passar na primeira mordida. Já sei, baby.
Ao fundo, ouço estalos de batatas congeladas sendo fritas. Sim, elas fazem parte do show midiático. Com coca ou guaraná. Pode até ser light. Ou diet. Ou com stevia. Ou com qualquer mentira que inventem para você não deixar de consumir todo esse lixo. No fundo, é a mesma coisa. De jeitos diferentes. Ah, se você ainda tiver uns míseros trocados, leva um sorvete pasteurizado.
Vou pra bandeja. Dessa vez, fizeram uma caixinha bonitinha pra mim. Cansaram de me embalar de qualquer jeito. Finalmente. Tem uns desenhos rústicos. E uma cama de papel de seda. Pareço um presente. Até me sinto especial. Ao meu lado, canudos e papeis estáticos. Tadinhos. A vida já perdeu o sentido pra eles. São meros utilitários.
Pra mim, a única tristeza é que o cara pálida é desajeitado. Mal me pegou e já me desafrouxou todo. Argh. O tomate lambuzado escorregou do hambúrguer, rumo à tampa da caixa bonitinha. Tentativa de fuga. “Com cuidado, caralho”. Pensei.
Lá embaixo, na bandeja, a batata despede-se de mim. Ela ficou de escanteio. Vai ser consumida mais tarde. Vão embalá-la em papel pardo, jogar sachês de catchup por cima… Desintegro-me entre dentes e saliva.
Eu sinto o mundo. Como se fossem mordidas. Como sinto.
Mordidas pra me fazer sentir o sofrimento de estar vivo. Ou o alívio que se é.

