EDITORIAL

Dá pra amar Custódia?

Um breve resumo sobre o nascimento de uma ideia

Cartão postal da cidade datado de 1984. Mimo da administração Djalma Bezerra de Souza

Quantos universos compõem uma cidade? Centenas? Milhares? Bilhões? Quem há de saber ao certo? São muitos.

Uma coisa aprendi com a vida: a gente só ama aquilo que conhece. E foi este olhar que serviu de estímulo para o desenvolvimento do projeto que você poderá compreender melhor nas próximas linhas.

Numa conversa de mesa de bar, entre uma cerveja e outra, alguns cigarros, Bethania e lamentos, Zé Max me disse algo que não saiu de mim. “Eu nunca escrevi um poema de amor pra Custódia”, contou em tom de confissão. Essa declaração, que ainda vibra, trazendo uma porção de sentimentos, de compreensões, de juízos que alcançava e nunca soube como colocar, me fez imaginar o que poderia ser um dia um zine (publicação artesanal de número limitado), mas coube ser revista.

Costumo dizer que Custódia é uma cidade cheia de potenciais despercebidos, de talentos desmerecidos. Como acontece em muitas cidades do Brasil, a acomodação a modelos destrutivos de administração somados à falta de perspectivas frente aos entraves impedem o crescimento efetivo e saudável desta. Ou como disse Maurício de maneira mais bonita, “o problema não é a seca, são as cercas”. É um buraco profundo, é a pedra no caminho…

E é por isso que esse projeto é importante. Eu diria até urgente!

Precisamos de um espaço para problematizar de maneira responsável, honesta e coerente, o projeto de cidade que é Custódia. O que ao longo de anos vem sendo cultivado neste solo — sua história –, a cultura de que compartilhamos, os costumes, os ritmos, os comportamentos, os temperos e destemperos — o presente –, e, não muito distante, os potenciais, os sonhos, as esperanças e dificuldades — o futuro é logo ali.

Nossa história

Tanto Zé Max quanto eu nascemos em Custódia e cursamos a graduação de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. A vivência dele foi no Rio de Janeiro. A minha entre Recife e Olinda.

Com muitos aspectos que se encontram, ambos tivemos formação voltada para o popular, ainda na adolescência e juventude, em movimentos religiosos e sociais, quando a paróquia local ainda trabalhava a linha de Teologia da Libertação.

Claro que naquela época não tínhamos compreensão integral do que aquele movimento significava. Isso só viemos entender após os passos seguintes: no envolvimento acadêmico, no encontro com indígenas, com movimentos políticos ativos, as ocupações, as efervescentes discussões sobre cidade, do corpo enquanto plataforma política, de Paulo Freire a Fabiana Moraes etc.

Então a vida nos trouxe de volta ao berço. À Custódia que não entendíamos e que hoje buscamos desvendar e ressignificar dia após dia.

— “Quem é Custódia?” — eu me pergunto.

O projeto

Imagem ilustrativa (Internet)

Para responder essa e outras questões, sentamos e alinhamos um rascunho do que será a Revista Dona Custódia — a primeira publicação da cidade elaborada a partir de parâmetros jornalísticos.

Vigilantes, conversamos com amigos, professores, agentes de transformação, figuras importantes do cenário local, o principal blogueiro da cidade, um membro do sindicato rural, um economista, pessoas, muitas pessoas. Propomos parcerias e colaborações com fotógrafas, um designer, outros jornalistas e ao passo que a aurora alcança o horizonte entendemos os rumos que essa produção precisa tomar e a responsabilidade que é lhe dar vida.

A priori, projetada para três edições, propomos colocar em pauta a cidade a partir dos três tempos: o passado, o presente e o futuro. Trazendo reportagens, entrevistas, colunas, fotoregistros, ensaios, tirinhas, que discutam identidade, memória e pertencimento; comportamento, mudanças, avanços; além de um olhar menos contaminado pelas personas do ego e o partidarismo cultural acerca de um município importante para a microrregião do Moxotó — ficou curioso(a)? — e àqueles a quem a ligação não foi escolha.