CULTURA

37º Festival Folclórico de Custódia chega ao fim após maratona de atrações de peso

Subiram ao palco do evento os artistas Maciel Melo, Nanado Alves, César Amaral, Em Canto e Poesia, dentre outros

Atrizes Eva Tudor, Tônia Carrerro, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara e Norma Bengel protestam contra a censura à Cultura no Período Militar (Foto: Autor desconhecido)

E m 1974, no auge da Ditadura Militar, o Brasil vivenciava um de seus períodos mais sombrios. A intervenção que contou com um grupo de militares fascistas assumindo indevidamente o governo brasileiro por meio de um Golpe de Estado e se estendeu por 21 anos, resultou em um número impreciso de mortos, mas estima-se que esteja na casa dos milhares. Um dos únicos e, talvez, o mais eficaz mecanismo de enfrentamento a este infeliz marco histórico foi a Cultura — fosse por meio de músicas com letras dúbias, espetáculos e encontros nos teatros ou outra série de manifestações artísticas.

Zita Queiroz, tabeliã de Custódia e professora na época em que o Festival foi criado, foi a responsável pela ideia e produção executiva das duas primeiras edições (Foto: Asley Ravel)

Também em 1974, surgia numa pequena cidade no semiárido sertanejo, chamada Custódia, um festejo de forte apelo cultural, artístico e informativo. Se no país a censura tentava a todo custo — inclusive por meio de homicídios — calar qualquer tipo de manifestação de livre-pensamento, neste pequeno lugar longe de todo o caos nada se sabia sobre os significados precisos do regime ditatorial. A prova disto é que este mesmo festejo foi produzido para angariar recursos e financiar a viagem de estudantes do Normal Médio do Colégio Municipal Padre Leão (atual Ernesto Queiroz) à capital do país, Brasília.

Precisos 43 anos depois, a produção do festejo chega à sua 37ª edição, entre altos e baixos, mudanças de formato e um hiato de 6 anos. O 37º Festival Folclórico de Custódia marca um novo momento da não mais pequena Custódia e diferente d’outrora trouxe para a roda do coco, entre outras coisas, um brado contra os órfãos do Golpe Militar de 1964 ao mandar um recado ao milico e deputado federal Jair Bolsonaro (PSC). “Queria que poesia matasse, pra essa música chegar como um tiro na cara de Jair Bolsonaro”, provocou Antônio Marinho, líder do grupo Em Canto e Poesia, antes de interpretarem Vida Carniça, de Lamartine Passos, na terceira noite do evento.

Em Canto e Poesia interpreta Vida Carniça do poeta egipciense Lamartine Passos (Foto: Asley Ravel — cedida à Revista Dona Custódia)

“Queria que poesia matasse, pra essa música chegar como um tiro na cara de Jair Bolsonaro”, Antônio Marinho, líder do grupo Em Canto e Poesia

Este momento não aconteceu de maneira isolada e desconectada de toda a conjuntura que o Festival assumiu este ano. Consistente, a curadoria agiu de maneira assertiva e selecionou atrações de relevância cultural, pela preservação e valorização dos elementos de raiz, e, também, política, visto que levantar bandeira pela cultura popular tem sido uma luta desgastante frente ao alcance midiático de produções plásticas e instantâneas. “Sabemos para onde a música brasileira está caminhando. Não quero ser juiz de coisa alguma, mas as questões de ritmos, cores, flores e dores mudam de lugar para lugar e o nosso lugar é o Nordeste”, refletiu o cantor Nanado Alves.

Nanado Alves, compositor e cantor, é natural de Monteiro, na Paraíba (Foto: Asley Ravel)

Apesar de certa resistência e estranhamento, a aposta numa programação raiz mostrou ter êxito ao se tornar perceptível o aumento do público que acompanhou o evento, chegando ao auge na noite de sábado (26). É estimado que, pelo menos, mil pessoas tenham passado pelo lugar. Apesar de poder ser percebido como conquista, o número ainda pequeno — comparado com outros eventos da cidade — é reflexo não só da falta de investimento e hábito no consumo de atrações da Terra, mas também de uma divulgação limitada e pouco eficaz. A programação oficial, por exemplo, chegou a sofrer mudanças e ser liberada apenas um dia antes do início do Festival.

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Apresentações e Shows Culturais

Roda de coco foi destaque entre as danças apresentadas no Festival (Foto: Asley Ravel)
Sertão Maracatu abriu a primeira noite de Festival com cortejo pelas principais ruas do centro da cidade (Foto: Asley Ravel)

Após uma abertura cheia de brilho, com direito a cortejo de maracatu pelas ruas do centro de Custódia e atrações de renome, a segunda noite (25) de festa não deixou em nada a desejar. Com a apresentação do Boi Diamante, agremiação da Folia dos Bois de Arcoverde, às 19h30, o público pode vislumbrar uma mistura de espetáculo circense com um verdadeiro carnaval de rua. Entre personagens caricatos, como uma Nega Maluca que não deixou nenhum cidadão quieto ou os pássaros exóticos interpretados por crianças, e o figurino composto por elementos que povoam nosso imaginário infantil, a apresentação fez passar rápido o tempo e rendeu quatro aplausos seguidos do público.

Maciel Melo foi a primeira atração a se apresentar na segunda noite de festejo (Foto: Asley Ravel)

Às 21h30 foi a hora de subir ao palco o cantor nordestino Maciel Melo. “É hora de recomeçar”, foi o que disse o artista no início de seu show como quem parabenizava a iniciativa. Caboclo Sonhador foi um momento expoente de seu show, mas sua seleção de pé-de-serra também fez balançar muitos casais. Na sequência, Nanado Alves, apresentou um repertório autoral e músicas como Eu só quero um xodó, eternizada na voz de Dominguinhos, e Que Ném Jiló, do mestre Luiz Gonzaga. Exímio compositor, Nanado é responsável por sucessos como Lápis de Cor e outros sucessos interpretados por Elba Ramalho, Flávio José, Santanna o cantador, dentre outros.

Foto 1: Ednardo Dali e Neguinho Arcoverde; Foto 2: Em Canto e Poesia; Foto 3: César Amaral (Fotos: Asley Ravel — cedidas à Revista Dona Custódia)

Para abrir a programação de shows do sábado (26) foi a vez de Ednardo Dali e Neguinho Arcoverde com música autoral e sucessos de cantores como Lenine. A dupla preparou os espectadores para a entrada do grupo de São José do Egito, Em Canto e Poesia, que não titubeou um só instante. As letras passearam entre a infância sertaneja, em Com Quem Vim, e a sabedoria dos mais velhos, em Ciência Popular. O público senão brincava de samba de coco assistia sem piscar os olhos presos à intensidade na interpretação dos versos e entrega aos contos e cantos dos “meninos de Bia” — como são chamados em referência à sua mãe, a artista Bia Marinho.

O encerramento ficou por conta do sertaniense César Amaral. O artista passeou por inúmeros sucessos de Floração, álbum visual com o qual ganhou em abril deste ano o 8º Prêmio da Música de Pernambuco na categoria Melhor DVD. Apresentaram-se, ainda, no domingo (27), o grupo de xaxado Os Cabras de Lampião e o cantor Assisão, ambos de Serra Talhada.

Seu José Herculano, conhecido Pimenta Malagueta, anima a roda de coco dos bacamarteiros na primeira noite do Festival (Foto: Asley Ravel/cedida à Revista Dona Custódia)