A compartilhável essência do ser

Compartilho, logo existo.


O que situações polêmicas em geral — aquelas que mobilizam as massas e mexem com nossas emoções — têm em comum? Elas mobilizam a ~galera na internet~.

Tomemos como exemplo o ataque ao Charlie Hebdo. Vocês perceberam que só dias depois do massacre é que começaram a despontar as análises mais sensatas? E que no furor do momento, com os corpos ainda quentes, havia uma grande preocupação, uma sangria desatada, em tomar partido nas redes sociais antes mesmo de procurar entender o que estava acontecendo de fato?

Me parece simbólico o ato de procurar uma identidade antes de apurar meticulosamente. Não sou Charlie, nem Ahmed, nem João, Francisco, nem ninguém. Ou melhor, sou alguém sim. Sou o Cauê, velho de guerra, meio confuso, um tanto perdido, tentando entender essa celeuma que se dá na França, na Europa, no Brasil, no mundo. Estou assustado, embasbacado, mas ao mesmo tempo bastante surpreso com a facilidade e rapidez com que despontam cientistas políticos nesse mundão digital.

Eu já mato um leão por dia tentando desconstruir e lutar contra meus próprios preconceitos. Discursos racistas, homofóbicos, misóginos e intolerantes de modo geral estão propensos a se travestirem de bom senso se a gente não para para pensar, refletir e entender o que está acontecendo, mas eles escapam com facilidade ainda maior se a empatia pela dor e pela existência do outro não for uma constante.

Digo isso porque antes mesmo que as famílias dos mortos pudessem chorar suas perdas, muitos já haviam montado um complexo e intrincado cenário político e sociológico sob sua ótica particular explicando aos mais incautos o que havia acontecido, em busca de sua benfazeja parcela de likes e compartilhamentos. A busca pela aceitação dos pares na era digital.

Nos dias que se passaram, pudemos ver de tudo. Teve fulano e fulana justificando a morte dos cartunistas, teve jornalista brasileiro comparando a tragédia ao ataque do prédio da Veja, teve quem falou em islamofobia, teve quem falou do discurso da Dilma sobre o Estado Islâmico, teve textão, textinho, ironia, meme, charge, homenagem, teve manifestação, teve mesquita em chamas, teve trending topic. E os discursos acalorados capazes de destruir amizades — o mesmo que de fato acabou com algumas durante as eleições meses atrás — simplesmente evaporaram, com a mesma facilidade que surgiram. Caramba, o atentado foi semana passada.

Claro, teve muita gente que manja do assunto e surgiram análises contundentes nesse período. Mas teve uma maioria esmagadora na crista da onda compartilhando bobagens. Ora, não me leve a mal, não sou desses que acha que você precisa ser especialista para falar sobre algo. Só acho que apurar informação é obrigatório.

Portanto, entrar nessa seara que envolve ascensão do partido conservador na França, toda a questão dos imigrantes, a esquerda pós-68 no país, o jornal Charlie Hebdo e o histórico de charges que vem desde 2006, toda a questão ocidental, os muçulmanos, a islamofobia e a criação do Estado Islâmico tem chance, sim, de dar meleca e você falar besteira se não manjar do assunto realmente, ou se não estudar o suficiente — algo que decididamente não dá tempo para fazer em poucos dias. Isso não quer dizer que você precisa perder sua capacidade de se chocar com a barbárie, claro que não.

Mas precisamos sempre ter uma opinião nas redes sociais?

Nos idos de 2006 a revista TIME elegeu você — nós — como personalidade do ano, pois a tal web 2.0 estava em seu auge: a internet feita pelas pessoas comuns. Sinto que hoje vivemos a ressaca disso tudo: o potencial de criador de conteúdo já foi assimilado, e cada pessoa é seu próprio broadcast, somos Robertos Marinhos de nós mesmos compartilhando o que nos dá na telha, nossa própria grade de programação. Mas em uma proporção saturada, over, em que parece que o bom senso foi para as cucuias.

Pior ainda, compartilhamos sem ler. Já reparou como alguns portais já inserem os botões de compartilhamento na home, ao lado dos títulos? Assim você não precisa perder tempo lendo todo o conteúdo: leia a manchete e compartilhe. É tudo o que importa, não é mesmo?

Isso é sintomático. Porque semana passada foi o Charlie Hebdo, mas antes disso estávamos todos compartilhando mentiras sobre as eleições, a serviço dos partidos que escolhemos apoiar. E desde sempre compartilhamos opiniões embasadas em matérias, posts e memes que são farsas, mas tomamos como realidade.

Isso sem falar na viralização de conteúdo hediondo, como decapitação de pessoas, corpos mutilados, animais mal-tratados,<em> revenge porn</em> que apesar de não serem necessariamente opiniões próprias, contribuem para tornarem nossa persona digital ainda mais intragável.

Compartilho, logo existo? Nem sempre.

Mais importante do que ter uma opinião, é compartilhar a opinião do outro. Endossar. Quanto mais compartilhamentos você fizer, melhor construirá esse golem digital, um monstro de Frankenstein composto pela opinião de todas as pessoas legais que você segue na internet.

Me parece que a nova tendência da curadoria de conteúdo em 2015 não é mais o conteúdo bacana que você compartilha. Mas, ao contrário, é o que você deixa de compartilhar que te torna uma pessoa melhor.

Mas não deixem de compartilhar o meu texto, por favor.


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Publicado originalmente em janeiro de 2015 no Brasil Post.