A crise hídrica e o declínio da civilização (maia)


Uma grande seca teria sido responsável pelo desaparecimento da civilização maia. O fato curioso, além de trágico, encerrou a trajetória de uma sociedade reconhecidamente avançada em termos de escrita, arquitetura, arte, matemática e sistemas astronômicos que se viu incapaz de resistir à força da natureza. E encontrou nela — e na fragilidade humana, por consequência — seu declínio.

Me peguei perdido em pensamentos sobre o inesperado destino dessa civilização tão à frente de seu tempo.

Teriam eles sucumbido à falta de água sem tomar qualquer medida de emergência, sem submeter suas reservas a qualquer preparo? Justo eles, notórios especialistas em calendários, foram incapazes de antecipar os períodos de estiagem, que costumam ocorrer de tempos em tempos? Me recuso a aceitar!

Por outro lado, o fervor religioso era outra marca do povo maia, com rituais envolvendo sacrifícios de animais e humanos. Não seria de espantar se, de repente, os maias de fato optassem pela passividade em relação à iminência de um período de dificuldade — ainda que cientes de sua aproximação — e relegassem a salvação da estiagem a São Pedro, ou melhor, aos deuses que cultuavem na época. Algo impensável e até mesmo primitivo para nós hoje em dia, que somos uma sociedade muito mais avançada.

Os maias viviam em cidades-estado sob regimes teocráticos. Cada líder, chamado halach vinic, representava uma divindade, e o poder passava de pai para filho. Assim, eram sempre os mesmos que estavam no poder ano após ano. Teriam eles tomado alguma atitude relevante para amenizar a crise hídrica? Ninguém, em toda dinastia de poderosos de longas linhagens, foi capaz de ver o problema sob o próprio nariz?

Mesmo na época dos maias era de se esperar algum tipo de estudo visando a antecipação de situações adversas naturais tais como grandes períodos de seca, de modo que medidas preventivas poderiam ser realizadas com certa antecedência, suponho.

Possivelmente cada cidade-estado contava com um sistema de armazenamento de água. Se eles, que eram tão bons de matemática e urbanismo, fizessem uma regra de três simples, poderiam perceber que o consumo versus o crescimento da população e a aproximação de um período de estiagem logo resultaria em uma crise hídrica sem precedentes.

Até posso entender que, no desespero, eles precisassem fazer alguns sacrifícios — literalmente falando, para as divindades. Mas que tipo de governante, ao ser alertado sobre a iminência de uma seca, optaria por não fazer nada? Não um maia, tenho absoluta certeza.

Mas também não temos como saber quais eram os interesses dos chefes halach vinic. Talvez o sistema de distribuição e tratamento de água fosse muito complexo, e ao invés de fazer as melhorias necessárias para a população, os governantes se viram obrigados a dividir os lucros com os acionistas de outras cidades-estado… Vai que, na retórica política, esses líderes — não esqueça que eles representavam divindades — conseguiram convencer o povo de que a culpa pela crise não residia na incompetência administrativa de seus governantes, mas sim na ira dos deuses. E por isso, a população era responsabilizada: quem consumisse água além do permitido seria punido com o pagamento extra de penas da cauda do quetzal (a moeda da época).

Ainda assim, segundo os halach vinic, não havia racionamento. Ao menos oficialmente.

Em um golpe de sorte, o povo maia pode até ter acreditado na culpa por consumir toda a água, absolvendo seus governantes de qualquer responsabilidade. Talvez, por serem os representantes divinos, eles poderiam até mesmo ter recebido respaldo da maioria da população para continuar com seus demandos. Ou ao menos de uns 57%.

Líderes que, na sede pela manutenção imediata de seus interesses políticos, acabaram levando seu povo à extinção. A imprensa não existia época, mas como poderíamos saber, também, que tipo de blindagem os halach vinic recebiam dos mensageiros que circulavam as notícias pelas cidades-estado?

Claro, como eu disse antes, são meras divagações. Mas nunca vamos conseguir compreender as motivações desses povos primitivos, afinal somos muito mais avançados que eles.

Suponho que nunca saberemos a verdade por trás desse mistério arqueológico.

Só temos que agradecer pelo avanço da humanidade desde então.

Afinal hoje em dia tudo é muito diferente.


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Publicado originalmente em janeiro de 2015 no Brasil Post.