Como nascem

as grandes ideias

30 noites de ficção


Acessar a dimensão das Grandes Ideias é quase um dom divino. Poucos conhecem a maneira correta de adentrar esse reinado, e a cada vez que nos é permitido instantes de exploração nessas terras desconhecidas, o caminho para chegar lá muda. Não tem muito como traçar a mesma estrada e simplesmente acessar novamente, decorar a rota, assim como você sabe de cor como chegar ao trabalho. Nada disso. A cada ocasião em que entramos lá é como se fosse a primeira. Os portões da fronteira podem abrir quando menos esperamos.

Uma vez lá dentro, as ideias flutuam em alta velocidade pelo ambiente, movimentam-se em cardumes coloridos. Tente pegar uma para ver como são ariscas. Fogem, desviam, fintam até você cair de cara na bosta. Ah, tem isso também. O chão é todo de bosta, então basta você tentar pegar uma ideia mais parrudinha que ela pode te virar do avesso e esfregar sua cara no produto intestinal alheio.

Essa é uma história sobre o dia em que pesquei uma grande ideia. Era grande mesmo, mais ou menos desse tamanho, ó. Nunca vi nada igual. Era forte, tentou me derrubar, mas finquei-lhe as unhas de um jeito que ela só podia vir comigo, não tinha escolha.

Foi ontem de manhã.

Após uma semana do cão no trabalho, minha esposa permitiu que eu dormisse um pouco mais logo cedo. Cochilos extras valem ouro quando se tem duas filhas acostumadas a acordar sozinhas e dispostas para brincar desde as cinco da manhã. Por isso aproveitei cada segundo adicional em que pude manter meu corpo estendido, largado na horizontal. Ainda assim, por força do hábito, acordei às cinco e trinta sozinho e sem sono. Pude ouvir ao fundo as três brincando baixinho para não me acordar. Rolei para a direita e fechei os olhos mais uma vez. O sono se dissipara por completo. Bem que tentei, mas não consegui dormir de novo.

Foi assim, pensando nos problemas na vida, nos afazeres do trabalho, nas vontades não realizadas que pimba, ela surgiu. Veio do nada, como um susto, uma entidade que toma o corpo. Na hora eu arrepiei, juro. Grandes ideias são assim: você sabe que são boas. Praticamente não conseguimos contê-las. Grandes ideias carregam entusiamos, grandes ideias carregam ansiedade e vontade de botá-las em prática o quanto antes.

Com a solenidade que o momento merecia, repeti em voz alta o pensamento que me ocorrera. O que a tornava genial era a simplicidade, pois as melhores ideias e soluções costumam estar diante de nós o tempo todo, escondidas logo atrás do desfoque da ignorância.

Basicamente, eu pretendia ██████████████████.

Logo que ouvi minha própria voz falando, sinos tocaram. Algo no mundo havia mudado. Era como se eu tivesse subido de level, quase pude ver a aura de luz ao meu redor. Uma ideia forte, possivelmente controversa no início, para as mentes mais simples. Mas era também uma espécie de exercício espiritual, quase budista, como uma trilha para o Nirvana. Afinal, quem é que poderia simplesmente ██████████████████? Pois é, esse é o ponto. Qualquer um poderia! E era isso que tornava a coisa ainda mais genial.

A sacada me tornaria, sem sombra de dúvidas, uma pessoa mais legal do que a média. Era impressionante como tudo fluía pela mente. A ideia, a execução, as fases. O portão do reino das grandes ideias se escanrava para mim. Primeiro eu iria █████████████. Depois, passado o ██████████████████ seria o momento de ██████. E é aí que entra o pulo do gato: todos no planeta poderiam simplesmente █████████ █████████ ██████████ ████████ ███████ ███████████. É simples e genial, admita.

Ideia boa é assim, você percebe de cara que é boa mesmo. Rola uma espécie de aviso espiritual, um arrepio que transcende o mundo físico e dá o recado: desenvolve isso aí, dessa vez realmente vale a pena.

Levantei da cama me sentindo a melhor pessoa do mundo. Eu poderia ser admirado, sem dúvidas. As pessoas poderiam me seguir, escrever livros a meu respeito, ou até mesmo me chamar para um TED Talk. Eu era tipo um Messias, quase. Pode parecer exagero, mas de certa forma era isso mesmo. Lembre-se que ████ ████████ ███. Levantei e lavei o rosto com a austeridade de quem se banha no Rio Jordão pela primeira vez. Vesti minhas roupas como o monge consciente de cada átomo que permeia sua existência. Minha respiração era suave, e eu sentia que algo estava diferente em mim, era como se uma chave tivesse virado em minha vida e a partir daquele momento eu vivesse em função dessa missão quase espiritual. Cada passo era como se fosse o primeiro, e assim percorri o corredor de casa abrindo caminho entre os brinquedos espalhados no chão como Moisés abriu caminho para os hebreus no Mar Vermelho. A novidade pulsava em minhas veias. Abram alas para o criador da █████ █████ ██.

Adentrei a sala e finquei os dois pés no assoalho, o corpo imóvel como um samurai que antecipa o perigo. Notei que embora eu estivesse nesse estado “desperto”, precisaria de muita cautela para explicar a ideia genial para os outros. Nem sempre os gênios são compreendidos em sua totalidade assim, de primeira. Percebi minha filha de três anos, ainda com sono, sentada à mesa. Um pratinho de banana fatiada à frente e minha esposa, descabelada e de pijamas, ao lado, segurava a bebê. A mesma cara de sono. As duas sorriram, deram bom dia.

Respondi, beijei, preparei o café da manhã e logo me sentei junto a elas, casualmente, procurando o momento ideal para abordar a ideia. Eu estava prestes a conquistar minha primeira adepta. E depois dela, o mundo. Tomei coragem.

– Amor, essa manhã tive uma grande ideia. Decidi ███████ ███████.

Suas sobrancelhas franziram. Não sei se é porque detestou a ideia ou se não entendeu o que eu disse.

– Legal.

Legal? Ela estava louca. Como é que algo como ██████ ████ ██████ poderia ser legal? Era genial, era fantástico.

– Amor, acho que você não entendeu. Estou falando em ████ ████, saca? Em transformar o mundo.

– Eu entendi, só acho que você deveria lembrar que █████ █████ █████. — e continuou a mastigar o cereal.

Não tinha pensado nisso. Mas tudo bem, os Grandes precisam lidar com questionamentos duros a todo momento, é normal. Eu posso enfrentar isso. Einstein deve ter sido questionado a todo momento. Dizem que, como eu, ele até foi mal na escola. Se bem que eu já li na internet que isso é mentira, mas deixa pra lá. Mark Zuckerberg também foi muito questionado, ora essa. E ele nem terminou a faculdade. Eu terminei.

A verdade é que eu poderia passar dias █████ ██████ ████. Semanas. Talvez meses. Era minha missão. Claro que para ela, reles mortal, havia dificuldades. Mas eu havia entrado no reino das grandes ideias e o tomei para mim. Eu tipo zerei a vida, sabe? Mas ela insistiu.

– Olha, não sei, mas se você não ████ ███████ ████ ou █████ █████ e ████ ██████ █████, sua ideia simplesmente não vai dar certo.

Ela tinha certa razão. Claro que tinha. Era minha esposa, uma pessoa inteligente, é quem eu mais confio no mundo. Eu só sentia que faltava vontade, faltava acreditar. Meu projeto só precisava ser lapidado. Precisava dos ajustes finos. Para ela a ideia era falha, mas para mim era apenas questão de definir público, forma, foco. Para ela, tudo estava errado, para mim era apenas uma questão de corrigir o desvio da rota. Esse tipo de conflito pode acontecer até mesmo com as pessoas que a gente ama, por excesso de zelo. Ela não quer que eu me machuque, que eu me frustre… O problema é que já olhei para o abismo e o abismo olhou para mim, não tem mais volta! Já me sinto como Steve Jobs confrontando a indústria da música ao criar o iPod. Algo novo estava surgindo naquela sala e eu era o protagonista.

O que estou pensando é algo maior do que minha mente limitada foi capaz de vislumbrar até aquele momento. Um dia eu despertei. Ela podia despertar também. Preciso pensar grande! Posso escrever um livro, um documentário. Até mesmo uma série de TV. Converter milhões de fieis. Aliás, limitar isso a uma questão pessoal seria até egoísta de minha parte. O troço tinha potencial global.

Preciso usar minha ideia genial para o bem da humanidade, escrever um manifesto, algo que vá guiar os jovens e levá-los a ter esperança em um futuro melhor. É um protesto pacífico, uma fagulha do Summer of Love revisitado no século XXI. Já penso em desdobramentos nas redes sociais, possíveis crowdfundings, e-learnings, simpósios, aplicativos. Basta escolher uma única ████ ██████ █████ em todas as comunidades para balançar os alicerces da sociedade. Havia algo totalmente novo sendo pensado naquele dia histórico, e o próximo passo precisava ser tomado com muita cautela. Assim as boas ideias se tornam grandes acontecimentos, grandes execuções, grandes passos para a humanidade.

Resolvi dar xeque-mate.

– Eu pensei nisso. E fui além. A resposta que você procura é █████ █████ █████. Com isso, poderei finalmente ███ █████ ████ e esfregar na cara do mundo que eu, apenas eu, ████ ████ ███████. Todos vão querer me copiar.

– Meu amor, não quero te desanimar. Tentei dar uns toque e tal, mas já tentaram fazer isso.

– Não tentaram não.

– Tentaram, querido. Por exemplo, █████ ██████ ████.

– Mas é diferente.

– Não é. Teve também ████ ██████ █████, █████ █████ █████, █████ █████ █████, ████ ██████ █████…

– Chega, chega.

– Não tô te falando por mal, sabe? É só pra você não se estrepar depois… Isso aí iria te demandar tempo, dinheiro.

– Tem razão.

– Então vai, pega a bebê que você já teve seu descanso da semana. É minha vez de deitar um pouco.

E foi assim que a pescaria resultou em minha face arrastada na bosta.

Ah, Grande Ideia, eu ainda te pego.


Esse é o vigésimo quinto texto do projeto 30 noites de ficção,
uma coletânea de contos em tempo real. Cada história deve ser criada, escrita e finalizada no mesmo dia.

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