Corpo dela, regras dela

Madalena recebia um abraço apertado e seguidos beijos melequentos na bochecha. Já mostrou certo descontentamento com isso em outras ocasiões, mas dessa vez fez valer seus direitos: meu corpo, minhas regras, disse ao vovô. A reação veio acompanhada de risos espontâneos de todos os presentes, deixando-a ainda mais chateada. Repetiu o bordão, afastou-se e, ainda emburrada, pegou seus brinquedos e se retirou. Mal sabia que tinha virado uma importante página na vida.

Prestes a completar três anos de vida, semanas antes Madá interrompeu uma conversa minha com sua mãe sobre a Marcha das Vadias, interessando-se justamente pela expressão que viria a declamar depois. O que é “meu corpo, minhas regras”? A mãe explicou: sempre que você sentir que não gostou da aproximação ou toque de alguém, qualquer um que seja, você pode falar isso e a pessoa tem que parar. Explicação protocolar, sem qualquer esperança que ela já pudesse assimilar o conteúdo por completo. Mas não só assimilou como tomou o conceito para si de maneira inimaginável.

Até o feitiço virar contra o feiticeiro.

É que naquele mesmo dia, quando a chamei para trocar a fralda, ela se recusou. Filha, sua fralda está cheia, tem que trocar. Meu corpo, minhas regras, disse. Que é que eu podia fazer? Aceitei, até achei engraçado de novo.

Mas ela continuou com isso na hora de comer, na hora de escovar os dentes, na hora de trocar de roupa, na hora de sair. Meu corpo, minhas regras. Meu corpo, minhas regras. Meu corpo, minhas regras. Criamos um monstro, pensei, e já sem paciência, acabei forçando algumas situações. Sob protesto e um pouco de choro, fiz valer minha autoridade de pai.

Claro que me enganei redondamente. Fiquei triste, perturbado por ensinarmos algo que teoricamente acreditamos profundamente e, em seguida, refutar.

E nessa reflexão percebi o quanto ela realmente não tem controle sobre o próprio corpo e a própria vida. Mesmo em nosso caso, que nunca a forçamos a sorrir, a “se comportar como mocinha”, a beijar ou abraçar quem ela não tem vontade, nós sempre a submetemos a muitas imposições, comuns ao dia a dia de uma criança: hora de comer, hora de dormir, hora de trocar fralda, hora de escovar os dentes, hora de ir embora. E se houvesse uma maneira de entender e atender aos anseios dela?

A ideia parecia absurda, mas o desafio era instigante. Não é incomum que crianças sejam encaradas como cidadãos de segunda categoria. Quantas vezes você já ouviu que alguém “odeia crianças”? Ou que uma palmadinha para educar a criança não faz mal? Troque o objeto dos comentários acima por “negro” ou “minha mulher” e veja como podem ser ofensivos e odiosos. Mas contra os pequenos pode. Foi aí que decidimos parar de forçar situações e ouvir ainda mais o que ela estava dizendo. Adotamos, ainda que reticentes, um método muito simples: a conversa franca. Arriscado, pensamos, esperar que uma menina nessa idade consiga dar vez à razão, mas ao relembrar sua total compreensão sobre como o corpo é dela e as regras também, decidimos seguir em frente.

Ah, mas criança não tem que querer. Criança não tem maturidade para tomar essas decisões sozinhas. Criança tem que sorrir sempre, tem que deixar todo mundo beijar, apertar, encostar. Criança só existe para nos entreter, não é mesmo?

Ora.

Criança tem querer sim, porque é tão humana quanto nós, adultos. Tem medos, aflições, hábitos, vontades. Quanto à maturidade, é óbvio que certas coisas são chatas mesmo, como comer quando não está a fim. Como vacina. Como ir embora quando precisa ir embora. Mesmo a mais “mimada” das crianças estará muito mais submetida ao não do que ao sim. Mas a boa notícia é que nosso método deu super certo.

Sempre que ela era confrontada com uma situação que a desagradava, procurávamos não forçar. Na verdade, oferecíamos opções: Madá, você precisa trocar as fraldas, prefere ir com o papai ou com a mamãe?

E foi assim, dando a ela pequenas liberdades para escolher que parou de chorar e sofrer em muitas ocasiões. E que aumentou significativamente nossa relação de amor e respeito mútuo. Ela agora tinha querer, ela agora tinha opção. E se tornou muito mais obediente, compreensiva e calma do que antes, pois pôde compreender que nossa família funciona de certa maneira, mas que ela é também é um membro, com opinião e voto.

E o mais importante: quando ela não tinha escolha, recebia explicações. Quantas fossem necessárias. Porque nesse momento de formação as crianças perguntam mesmo. Inúmeras vezes. Cansa sim, mas respeitamos. Ela precisa ouvir quantas vezes forem necessárias, sem que a gente descambe para o “porque sim”.

Claro, eventualmente ela não quer opção alguma, mas são exceções. Nesse caso, nós simplesmente costumamos ouví-la e abortar a missão. Certa vez, ela não quis jantar. Ora, mas porque precisamos sempre jantar do mesmo jeito, na mesma hora, se ela não está com fome? Ficamos estressados, preocupados com a saúde dela, mas cerca de uma hora depois ela pediu pra comer. E comeu tudo. O que custa perguntar se ela está com fome antes de forçar uma situação? E não ache que ela está sendo mimada, que fazemos tudo o que ela quer. Nós não compramos tudo o que ela pede, não passamos a mão na cabeça. Apenas ouvimos. E como eu disse, isso a tornou mais compreensiva, empática à nossa realidade.

Há uma singela diferença entre educar pelo respeito e educar pelo terror. Adivinhem qual dá mais trabalho?

Pois é. E é por isso que tantos pais preferem ir pelo caminho da palmada, do grito, do medo. Minha impressão é que filhos vivendo com medo constante da reação dos pais invariavelmente acabam desenvolvendo um distanciamento emocional.

E é meu papel, como pai, ouvir suas necessidades. Não tocar quando ela não quiser, não levantar a voz, não forçá-la a nada. Sim, ela vai ter que frequentar a escola, mas pode ser que ela tenha um papel mais ativo na hora de decidir qual deseja frequentar (obviamente, dentro de nossas possibilidades financeiras também).

Nosso objetivo é um só: que ela entenda que o corpo é só dela, que tenha plena consciência e disposição para se impor em qualquer situação em que tentem forçá-la a qualquer coisa.

Cansei de ouvir os críticos dizerem que apanhavam e são pessoas normais hoje. Mas o que é ser normal, não é mesmo? Se é normal criar uma relação de medo e distanciamento emocional, eu não tenho dúvidas que você seja. Violência gera estresse emocional e, sim, pessoas frustradas, com baixa auto-estima, ou mesmo pessoas violentas. Isso para nós não é normal.


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Publicado originalmente no Brasil Post em junho de 2015.

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