Manual para famílias antissociais

Um guia de sobrevivência para quem simplesmente não é obrigado.


Passadas as festividades de fim de ano, decidimos — eu, filha pequena e mulher grávida — fugir da ressaquenta primeira semana de janeiro e, ao invés de praia ou cidade, corremos para um hotel-fazenda. Aclamado resort de mosquitos para os quais a principal atração somos nós, este é ainda um dos grandes refúgios das famílias de classe média em busca do merecido descanso.

Seria tudo perfeito não fosse, claro, essa invençãozinha criada à imagem e semelhança de Deus: o ser humano. A estadia em si nos obriga, invariavelmente, a conviver com outras famílias. Famílias desconhecidas sedentas por um pouco de amor fraterno que nós não estávamos dispostos a fornecer. Talvez até estivéssemos, em condições mais propícias. Mas acreditamos que amizades verdadeiras não nascem assim, de cesárea. Elas têm que vir naturalmente.

E não é por isso que privamos nossa filha da interação com terceiros. Se estamos no parquinho e ela brinca com outra criança, obviamente incentivamos o momento, brincamos junto, conversamos com os pais e assim por diante. Mas isso não quer dizer que dali a duas horas iniciaremos amizade sincera com o casal, nem que haverá qualquer tipo de disposição para que sentemos juntos à mesa durante todas as refeições, não é mesmo?

Foi o que tentamos deixar claro para um casal que cruzou nosso caminho.

Tudo começou com uma inofensiva brincadeira entre as crianças. Todos acharam muito fofo. Trocamos palavras amistosas, abrimos meio sorrisos, e ficou por isso mesmo, cada um seguindo para o seu devido canto.

No dia seguinte, já na piscina, eles se instalaram ao nosso lado. Tudo bem, coincidência, ninguém achou estranho. Nem mesmo quando eles tentaram, sem muito sucesso, iniciar assuntos aleatórios. Somos simpáticos, mas a intimidade zero levou a conversa para os sorrisos amarelos de sempre, e cada família novamente seguiu para um lado.

Estranho, mesmo, é quando alguém tenta forçar um encontro de olhares. Sabe? Você se vira para determinada direção e a pessoa acha que você está olhando para ela. Como se estivesse à espreita, esperando um contato amigável, uma oportunidade para falar com você novamente. Como o cachorrinho que levou bronca e, cabisbaixo, espera que o dono retome o contato com um afago atrás da orelha.

Sorrisos amarelos novamente, mas por sorte o sol começou a esquentar muito e precisávamos nos preparar para o almoço. Saímos da piscina, voltamos para o quarto.

Minutos mais tarde, ao entrar no restaurante, nos surpreendemos mais uma vez pelo olhar de nossos amigos casualmente em busca do nosso. Estranhamente, eles sentaram em uma mesa para quatro pessoas, com dois cadeirões para crianças. Ou seja, reservaram lugar para que todos nós pudéssemos nos acomodar juntos. E nós nem sabíamos o nome deles ainda. Acenaram de longe, os olhos fixos e a mandíbula sorrindo um sorriso doente, travado, daqueles de psicopata mesmo.

Caímos de vez na arapuca. Tivemos que nos apresentar e, pior, puxar papo. Foi um quê de falar sobre futebol, profissão, carro, piadinhas amigáveis sobre o casamento de nossos filhos. E claro, política, com todo o chorume lugar-comum que se pode imaginar sobre direitos humanos para humanos direitos, ditadura gayzista, sobre como o pessoal do politicamente correto é chato e daí por diante.

Nós, que não queríamos brigar, mas torcíamos que um buraco negro sugasse nossas existências, já vislumbrávamos o terrível futuro de perseguições amigáveis pelo hotel-fazenda, regadas de intermináveis sessões de papo reaça com passeios de charrete ao lado deles.

Inventamos qualquer desculpa e fugimos para o quarto. Pensávamos em escapar pela janela dos fundos quando o telefone subitamente tocou. Era meu novo amigão perguntando se eu estava a fim de jogar uma sinuquinha enquanto a mulherada cuidava das crianças.

Desliguei na cara dele e, desesperado, chamei as meninas. Fizemos as malas e pulamos a janela com cuidado, mas antes de chegar ao carro fomos surpreendidos pelo casal e sua sorridente cria, todos portando varas de pescar.

Onde estão indo, pessoal? Por acaso estão fugindo da gente?

Ele riu. Riu sadicamente, como um predador que acaba de encurralar sua próxima vítima.

Procurei pela desculpa mais cabível. Uma avó doente, uma emergência de trabalho. Gaguejei e emudeci de vez. Nunca fui muito bom nisso. Mas a fisionomia deles já era outra. Estavam pálidos, a expressão congelada, os braços caídos ao lado do corpo e o olhar fixo em direção ao meu carro.

Finalmente nossa real natureza havia sido exposta. Fomos descobertos.

Eles viram nosso adesivo da Dilma, aquele que eu esqueci de tirar do vidro traseiro do carro nas últimas eleições.

Viraram as costas e nunca mais nos importunaram. Tampouco qualquer outro hóspede. Nem os recreadores e funcionários do hotel-fazenda, aliás.

Pensando bem, esse feijão está com um gosto bem estranho…


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Publicado originalmente no Brasil Post em janeiro de 2015

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