Nunca encare seu reflexo

30 noites de ficção


Cabrum.

A tempestade não o deixava dormir. Levantou da cama para ir ao banheiro. Instintivamente desviou o olhar de onde costumava ficar o espelho no corredor, quebrado por ele mesmo em outra ocasião. Desceu as escadas, plec, esbarrou no interruptor. Sem luz. Caminhou até a cozinha em busca de velas, talvez pudesse ler um pouco no quarto para chamar o sono. Rápidos relampejos embranqueciam o corredor, acompanhados pelo estrondo do trovão quase simultâneo. Ele poderia se guiar pelos clarões, mas conhecia o imóvel o suficiente para se locomover na escuridão.

Cabrum.

Encontrou as velas, plec no fogão elétrico. Sem energia. Encontrou os fósforos, tic tic fssssss. Derreteu um pouco da cera na extremidade inferior e prendeu a vela em um pires. Muniu-se de mais duas, apagadas, por segurança, não sabia por quanto tempo precisaria delas, ou quando voltaria a luz.

Pensou em fazer um lanche, aproximou-se da geladeira e notou que a porta dos fundos, que dá para o quintal, estava aberta. Gelou, mas não haveria de ser nada. A cidade inteira sabia que estavam falidos, gastando as últimas economias desde a morte de sua mãe. Além do mais, se fosse algum ladrão, provavelmente teria preferido ir ao galpão externo, onde ficam as máquinas e ferramentas de marcenaria do pai.

E se não fosse humano?

Cabrum.

Se não fosse humano, Olívio respondeu ao próprio pensamento, não precisaria entrar pela porta. Monstros e assombrações só existem em sua cabeça. Tlof na tranca sem pestanejar e saiu. Desistira de comer.

Já havia subido metade dos degraus quando lembrou do que realmente o fizera levantar da cama em meio à tempestade: precisava ir ao banheiro. Voltou ao corredor, poc poc poc apressado, apertado, a vela iluminando o caminho, e entrou no lavabo.

Era o único cômodo da casa que ainda tinha espelho. Seu pai usava, alguma muito eventual visita poderia precisar também. Além do mais, quem é que não tem pelo menos um em casa? Para agradar Olívio, no entanto, seu pai permitiu que ficasse coberto a maior parte do tempo.

Cabrum.

Sentiu o vuuuuuuuuuuuuuuuuh do vento frio entrando pelo vitrô aberto. Na ponta dos pés, voft na janela que se projetava para fora, junto à extremidade inferior do vidro. Fechou, mas não conseguiu travar, estava emperrada.

Finalmente, shhhhhhhhhhhhhh aliviado.

Vuoshblrblrblrblórorororó na descarga, mas quando lavava as mãos a janela VLAM, rajada de vento abriu violentamente e vluft, pano que cobria o espelho no chão.

Olívio fechou os olhos. Tac tac tac tac tac, ainda sem ver e abaixado, encontrou o retalho de lençol no chão e cobriu novamente. Respirou aliviado.

Saiu do banheiro, olhou para esquerda, o caminho previsto, a sala onde fica a escada do quarto. Gulp. Boca seca. Olhou para a direita no corredor, a cozinha ao fundo.

A porta do quintal aberta de novo.

Cabrum.

Arrepiou dos pés à cabeça, mas não ficou ali. Pé ante pé se aproximou, poc… poc… relembrando a certeza de que tinha trancado. Poc… poc… Será que seu pai levantou? Poc… poc… Não dava para ouvir os roncos por causa da chuva. Poc…

VLAM.

Porta escancara, o vento invade, Olívio grita. Cabrum. Foi só um susto. Calma. Tá tudo bem. Poc… poc… Segura a maçaneta. Poc… poc… encosta a porta, tlof. Está seguro.

Tin com o copo. Fleft na geladeira, pega a garrafa d’água. Chuáaaaa. Bebe o copo todo, slept, lambe os beiços. Tic tic fssss. Vela acesa novamente.

Guarda tudo e procura não pensar mais naquilo. Vira para o corredor e não olha para trás.

Nhéeeeeeee…

A porta abriu de novo. Tudo bem. Pega uma cadeira, tlof na tranca e trava o encosto na maçaneta. Agora não abre mais.

VLAM.

Olívio cai no chão.

Cabrum.

Tin.
Cresh.
Fleft.
Bloft.
Trum.
Plec plec plec plec.
Vlam.
Tin.
Ploft.
Vlam.
Bruoooooom.
Tic.
Péin.

Armários e geladeira abertos. Tudo no chão. Comida, prato, copo, panela.

Não foi o vento.

Olívio.

Tem alguém ali.

Olívio.

Ele finge que não está ouvindo. Levanta, ainda tremendo, tlof na porta.

Olívio, essa porta não é nada.

Não quer ouvir. Senta no chão, a cabeça nos joelhos, chora.

Olívio, vem me ver.

Ele não quer ver nada. Não aguenta mais.

Você sabe como pode me ver. Nós só podemos conversar melhor se você olhar no meu olho.

Porque ele voltou a ouvir justo hoje? Não quer conversar com ninguém. Levanta dali e sai andando, ignora a voz.

Corredor. É logo ali.

Lavabo. Aqui, aqui!

Sala. Ora…

Escada. Volta!

Quarto. Não, não faça isso.

Cama. Descanso. Silêncio.

Fecha os olhos.

Eu conheci sua mãe.

Abre os olhos.

Mamãe via as coisas também. Estaria ficando maluco que nem ela? Nunca encare seu reflexo, ela dizia.

Bobagem, menino, vamos lá. Venha me ver. Você sabe como.

Levantou da cama.

Quarto. Isso.

Escada. Agora estou gostando de ver.

Sala. Estamos chegando!

Lavabo. Aqui, aqui!

Espelho coberto. Vluft.

Olívio encarou seu reflexo, aterrorizado. Avistou o que, por orientação de sua mãe, evitava olhar há pelo menos dois anos: um vulto cor de sangue e olhos negros permanecia empoleirado em seus ombros.

Nhac.


Esse é o vigésimo texto do projeto 30 noites de ficção,
uma coletânea de contos em tempo real. Cada história deve ser criada, escrita e finalizada no mesmo dia.

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