O pesadelo escola e a formação do indivíduo


Tenho um sonho recorrente em que estou preso ao sistema educacional mais uma vez. É notável, pois em circunstâncias normais sou capaz de explorar o ambiente onírico imbuído de livre-arbítrio e conhecimento das regras daquele mundo. De modo geral, ainda que fantasiosos, são micro-universos verossímeis, e há uma consciência bem-vinda sobre a condição de sonhador, algo que me permite curtir um pouco mais a trama que o inconsciente preparou para cada noite.

Já no pesadelo da volta à escola isso não acontece. Horas e horas de prisão intelectual ritmadas pelo compasso alternado de pensamentos apavorantes me convencem da triste realidade: isso é de verdade e estou fodido. Aquela vidinha bacana que eu chamava de mundo consciente é que é o sonho. Minha pena é perder vários anos aqui novamente, estudando logaritmos sem conseguir entender.

O pior de tudo é que essa persona onírica não está de todo errada: realmente estou prestes a me enveredar pelo sistema educacional mais uma vez, agora em uma posição de espectador. Ou de carrasco: Madalena, minha filha mais velha, está pra entrar na escola.

Hoje, com menos de três anos, ela já é vista como uma aberração pelo fato de ter a chance de ficar em casa. E vocês podem me dizer que há muitas alternativas disponíveis, que vai fazer bem para ela conviver com um monte de crianças. Que embora existam aos montes, não são todos os lugares que vão colocá-la de castigo sem meu consentimento, passar toneladas de lição de casa e forçá-la a ler e escrever aos quatro anos de idade. Eu não duvido, pra dizer a verdade conheço bem as opções. Há alternativas como as Waldorf, as Montessori, as construtivistas alternativas e escolas com uma pegada mais hippie de um modo geral. Ainda bem que elas existem. Mas são só a ponta do iceberg.

O que me dói é ser condizente com esse processo de pasteurização humana que começa com escolas até bacaninhas — pode mexer na terra, cozinhar a própria comida e fazer trabalhos manuais — e acaba por te despejar em um sistema canibal de pretensa meritocracia, foco no vestibular e severamente comprometido em nos tornar completos imbecis.

Ano após ano vemos aquela criatividade latente e até transbordante dos pequenos dar espaço para decorebas, regras anacrônicas, separação por idade, vestes uniformes, sirenes, lição de casa, conteúdo inútil, conteúdo útil forçado, métricas de sucesso questionáveis. Leitura, sucesso e presença: é tudo obrigatório. E o vestibular. Ah, o vestibular.

Mas cabe a nós pais, vocês diriam, manter a chama da criatividade acesa. E o que fazemos? Enfiamos a molecada no inglês, no futebol, na pintura, no karatê, no cursinho, no balé, no kumon, no raio que o parta.

Onde foi parar o prazer de fazer porra nenhuma? As melhores tardes da minha vida infantil foram aquelas em que, pós soninho, tinha a agenda totalmente livre, isenta de compromissos obrigatórios e urgentes. Era nesse momento que eu desenhava, observava formigas, fuçava, escarafunchava e, enfim, como um bom cientista, descobria o mundo.

Ao invés de potencializar, estamos sufocando a criançada, colocando mais peso e responsabilidade do que elas deveriam carregar. Haja Ritalina.

Quero uma escola que ampare minhas filhas para que tenham a auto-estima melhor desenvolvida dia após dia, e que seja capaz de instigá-las a buscar mais conhecimento. Uma escola que tenha a sensibilidade de entender o potencial intelectual de cada uma, estimule a troca em grupo e não tenha uma cacetada de conteúdo obrigatório e chato.

O modelo atual está encrustrado no cerne dessa sociedade doente que nos força a acreditar que sucesso é ter um emprego que nos consome a vida em troca de uma boa grana. Porque aí poderemos pagar carrões, babás e motoristas para viver nossas vidas por nós. Para criarem nossos filhos por nós e deixarem de cuidar de seus próprios. Terceirizamos o afeto.

Tem como acordar desse pesadelo?


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Publicado originalmente no Brasil Post em maio de 2015