Solenidade Sudorípara

Uma manhã na companhia do governador.


Enquanto vocês dormiam o sono dos festeiros eu tive que botar calças para ver o governador de São Paulo se empossar nesse primeiro de janeiro. Me rebelei e deixei o paletó em casa, mandando às favas a etiqueta e ostentando a mais confortável das camisetas disponíveis em meu armário. Assim que cheguei, os olhares constantes destinados a meu informal corpinho comprovaram a falta de adequação dos trajes à solenidade.


A cerimônia correu bem, na medida do possível: não fosse a necessidade protocolar de que a plateia se levantasse a cada mindinho que o governador mexesse, era bem provável que estivéssemos todos dormindo nos primeiros três minutos. Assim, vi com bons olhos o momento em que fomos convidados para mudar de ambiente para acompanhar o recém-empossado passar as tropas da PM em revista no estacionamento da Alesp.

Mordi minha língua no primeiro segundo pós-separação do ar-condicionado: aquele local era a sucursal do inferno, estávamos embaixo do sol do meio dia. Mas ferrados mesmo estavam os engravatados. Eu não consigo entender porque é que nosso traje formal no Brasil tem que ser uma porcaria de um terno completo. É pra matar o cabra desidratado. Podia ser uma linda bata de corte fino e tecido refinado sem cueca para entrar um ventinho por baixo, talvez. Falo sério. Parece que a gente gosta de sofrer.

Aqueles que antes me davam o olhar de reprovação agora eram só inveja, com suas colossais ilhas de suor crescendo e se juntando pelas costas e sovacos, formando verdadeiras pangeias de sebo e óleo. Eram perfumes caros e lavandas sendo acobertados pelo famoso cheiro de corpo, vulgarmente conhecido como “cê cê”. Óculos embaçados, paletós defumados, bochechas rosadas. Não sobrava uma pessoa confortável naquele momento.

Mentira. Sobrava sim: eu.

Lá estava minha pândega presença rindo por último. Lindo, cheiroso, penteado, de óculos escuros e arrasando no estacionamento curtindo muito ao lado de Geraldinho.

Ficamos ali cerca de dez minutos. Eu visivelmente me sentia mais confortável que os engravatados, e sabe o que aconteceu depois disso? Nada. Cada um seguiu sua vida.

Só que eu provavelmente saí de lá um pouco menos irritado que a média.


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