The Walking Chuchu

Uma nova série à moda paulista


EPISÓDIO 01

Geraldo abre os olhos e se vê em uma cama de hospital. Sente a agulha que acessa a veia da mão direita conectando a uma bolsa de soro já vazia, empoeirada, assim como o chão ao redor, carecendo de limpeza. O sol entra pela janela, vidro fechado. Sua primeira reação é apertar o botão de emergência, que não funciona. Falta energia. Remove o acesso do braço e levanta. Perde o equilíbrio, cai. Grita pela enfermeira, mas ninguém o escuta. Sua voz ecoa. Está sozinho.

Consegue se apoiar em uma cadeira ao lado da cama, percebe suas roupas descansando no encosto. Tateando, encontra os óculos no criado-mudo. Tropeça até a pia, abre a torneira. Seca.


Ruas desertas, carros abandonados e silêncio sepulcral tornam a paisagem pós-apocalíptica ainda mais desoladora. O ar é difícil de respirar e a poeira carregada pelo vento acizenta a já cinza cidade de São Paulo. O silêncio é quebrado pelos passos de Geraldo vagando desajeitadamente à procura de alguém que possa saciar sua sede por respostas e por um copo de água, ainda que turva.

O compasso de sua movimentação que ressoa pelo vazio é quebrado pela confronto arrítmico de passadas quase sussurradas à frente. É fim da tarde e a silhueta do sujeito aparentemente maltrapilho e coxo é recortada pelo sol. Geraldo apoia as costas da mão direita na lustrosa careca a fim de se proteger da contraluz e grita “quem vem lá?”, sem obter resposta. A figura continua o trajeto e, mais próxima, se revela. O olhar vidrado, a roupa confortável para correr a qualquer momento, os hematomas de quem já apanhou muito, a máscara para não ser identificado, o recipiente com vinagre em uma mão, o cartaz com palavras de ordem na outra. Não há dúvidas, é um manifestante. Um baderneiro, como costumava chamar.

Há algo de errado. Ele vaga sozinho, sem propósito. Protesta sem alvo, reinvindica sem grito, como se, por nunca ter sido atendido, nada lhe restasse além de caminhar por aí em busca do algoz perdido. Mas o vislumbre imediato de outro ser vivo acende uma chama, que o impulsiona em um súbito ataque com o intuito de fazer justiça.

Geraldo, assustado com a investida, consegue se esquivar. Não sabia lidar com a situação, pois nunca brigou de igual para igual. Instintivamente olha para os lados, à procura de um PM ou outro que pudesse descer o cacete no arruaceiro, mas seguia sem aliados. Muito rapidamente se recompôs e, resoluto, juntou todo o fôlego guardado desde a época de desportista em Pindamonhangaba. Correu. Correu como nunca e fugiu, sabendo onde poderia encontrar ao menos um aliado naquele pesadelo. Precisaria de artilharia pesada.


Bate à pesada porta de mogno uma vez. Nada. Duas vezes. Nada. Desiste após a terceira e se distancia da casa. A caminhada até ali foi longa, porém sem novos contratempos. Geraldo nunca duvidou que encontraria o Coronel, seu amigo de longa data, mesmo com toda a vizinhança praticamente em ruínas. Sua casa permanecia intacta, e isso lhe trouxe alguma esperança. Mas ele não atendeu à porta. Deveria seguir viagem sozinho?

– Geraldo, é você?

– Coronel?

– Você está vivo, meu amigo!

– Onde você está? Não consigo vê-lo!

– Aqui em cima, no telhado!

– Ora, Coronel! Telhado? O que faz aí em cima?

– Fale baixo. Daqui posso acompanhar melhor a movimentação dos arruaceiros. Eu e minha espingarda, claro.

– Por que não atendeu à porta quando cheguei?

– Precisava ter certeza que você não havia se tornado um deles!

– Eu? Um deles? Como assim?

– Venha, entre, eu vou explicar tudo. Não é seguro ficar dando sopa aqui fora.


– Então você esteve em coma no hospital esse tempo todo? — O Coronel, sentado em sua poltrona, abre uma lata de atum e oferece outra a Geraldo. Ao invés de comer, ele apenas bebe aquele líquido que conserva o peixe. — Não beba tudo de uma vez, amigo, ou vai ficar com sede.

– Pois é, Coronel, não sei dizer ao certo. Acordei no hospital sem saber o que aconteceu, não me lembro como fui parar lá. De repente o mundo inteiro estava de pernas para o ar.

– Muita coisa mudou desde que você sumiu, é verdade. Mas nós achávamos que até você tinha se tornado um dos temíveis manifestantes.

– Como poderia, justo eu, que sempre detestei arruaceiros?

– Ah, Geraldo. Todo mundo virou. Fernando, José, Aloísio. A maioria de nossos familiares. Os que não foram infectados pelo vírus da revolta vivem escondidos, como eu, que sou fiel a meus princípios. Mas virou uma praga, uma epidemia mesmo.

– Coronel, continuo com sede, tem um copo d’água? Pode ser turvinha, de volume morto mesmo.

– Rapaz, você está bem por fora mesmo. Só quem esteve em coma não sabe que estamos em um racionamento brabo. Não tem mais água. Foi assim que surgiram os manifestantes.

– Mas como aconteceu?

– Você ainda estava entre nós quando secou o volume morto número dezesseis?

– Claro, quem não lembra disso?

– Então, logo em seguida a salvação foi utilizar a água do Tietê.

– Sim, sim.

– Pois é, isso enfureceu o pessoal de vez. Não sei se foi a água, ou se acharam um absurdo essa coisa de beber esgoto. A verdade é que começou um quebra-quebra generalizado. E até quem era aliado virou inimigo. Aí não teve jeito, e como não aparecia nenhuma solução, não tinha água, não tinha comida, não tinha energia, só restava para o povo protestar e morrer de pouco em pouco. Estamos assim desde então.


Um rifle, dois revólveres, um cassetete e cinco bombas de efeito moral. Presentes do Coronel — além de suprimentos e uma lanterna — para Geraldo, que caminhava rumo ao centro, local mais destruído da cidade e com grande incidência de manifestantes. Queria ao menos encontrar sua família e antigos aliados, tentar trazê-los de volta à razão. Teve uma boa noite de sono, mas partiu antes do sol nascer. Observou o dia raiar por trás dos prédios conforme cruzava a cidade a passadas largas.


Geraldo segue entocaiado no vão do MASP há dois dias. Uma multidão de manifestantes permanece ali, vagando em círculo, com pouco a dizer e sem muito a esperar. De vez em quando surge uma poça d’água e todos entram em confronto, empilham-se, gritam, lutam pela vida. Precisam beber. Geraldo sabe que, uma vez descoberto, as manifestações retomariam a todo vapor, como foi em seu primeiro encontro com um deles na saída do hospital. Mas ele precisa sair dali a qualquer custo.


Já não há bombas de efeito moral à disposição, tampouco balas. O rifle e os revólveres foram descartados para não pesar. Geraldo corre com o cassetete na mão. Atrás dele uma multidão sedenta de água e justiça, buscando o não-arruaceiro, o não-manifestante, o não-black-block revelado e que corria. Ele corre muito mesmo. Salta obstáculos, escala carros com destreza invejável para a idade. Ofega e sua muito também, mas as pernas não falham. Os olhos atentos e a mente em ebulição buscando uma solução rápida, e assim ele decide entrar na estação do metrô mais próxima. Quer desbaratinar da multidão.

Pula a catraca sem pestanejar, desce as escadas. Salta nos trilhos em direção à escuridão completa. Acende a lanterna do Coronel e segue adiante, permitindo-se diminuir um pouco o passo. Mas logo ouve a multidão se aproximar. Ele não pode parar agora.

A malha do metrô é complexa, e após muitas encruzilhadas, Geraldo se vê em um beco sem saída. O caminho é subitamente interrompido: mais uma linha que não foi entregue a tempo, sabe-se lá por qual motivo. Mas de que importa agora? A multidão o alcança, há pouco a se fazer. Conversar não é razoável e já não há para onde fugir.

Ele pode lutar ou aceitar o trágico fim. Mas Geraldo não é homem de soluções pré-concebidas e, em nome de sua renomada trajetória de quem sempre botou a mão na massa, começa a cavar o túnel com as próprias mãos. A multidão até desiste de atacá-lo, tentando entender se a situação pende mais para o ridículo ou para o absurdo. Mas Geraldo não desiste e continua a cavar incansavelmente, à procura de uma saída daquele inferno.

Para sua surpresa, um pequeno filete de água começa a jorrar. Uma água escura, fedida e muito provavelmente imprópria para consumo. Mas ainda assim é água, não é mesmo?

Transbordando de alegria, ele se vira para a multidão. As mangas da camisa dobradas, o suor de homem trabalhador na testa e o grande sorriso estampado na cara.

– Meus amigos e minhas amigas, acabei de encontrar a reserva técnica número dezessete!

A multidão aplaude freneticamente.

Definitivamente Geraldo é o herói do povo paulista.

Fim.


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Publicado originalmente no Brasil Post em de fevereiro de 2015