Tio Bolinha Show

Um inusitado show de stand-up


Tio Bolinha dirige um trator. No hotel fazenda em que nós estávamos adaptaram uma carreta para transportar até vinte adultos e cerca de dez crianças em bancos não muito confortáveis. A ideia, em princípio, é fazer o passeio pela propriedade, puxados pelo veículo. Mostrar as plantações, levar a criançada para dar ração aos porcos, búfalos, gansos, patos e por aí vai. Só que Tio Bolinha não é um mero motorista de trator. Não, Tio Bolinha é um recreador. Melhor, é um animador, praticamente um artista. Um showman.

Inovador, teve a ideia de instalar um megafone no “cockpit”, assim consegue conversar com a plateia enquanto dirige.

Cada passeio com o Tio Bolinha é um espetáculo à parte. Seu show particular começa aos poucos, com anedotas ágeis. Primeiro ele se apresenta. Olá, eu sou o Tio Boiolinha. Opa, Boiolinha, não. Bolinha.

Nascem os primeiros risos, antes mesmo do trator sair. É a plateia cedendo ao carisma de Bolinha.

Ele brinca o tempo todo. Dá solavancos, acelera, anda de marcha a ré ou em círculos. O pessoal se diverte e Bolinha narra o tempo todo, sempre afiado com seu extenso repertório.

Ei, gordinho, essa ração é só pros animais. Mamãe, não deixa ele comer, hein!

Olha, pessoal, ali temos o pato, o ganso, a galinha, o pavão. E esse é o peru do Tio Bolinha. Ele é enrugadinho assim mesmo, mas não dá muita comida senão ele cresce, hein dona?

Olha o carneirinho. Como que o carneirinho faz? É fácil, é só falar do que o Tio Bolinha mais gosta… Mééé. Isso mesmo, pessoal. E quando o Tio Bolinha bebe, ele fala besteira mesmo. É que descobriram que tem hormônio feminino na bebida. É por isso. Mulher só fala besteira, né?

Ô dona, tá vendo aquele porco deitado ali, dona? Lembra alguém nesse domingão a tarde? É o maridão, não é? Não é igual ao maridão, dona? Ele não tá dando no couro mais não, né dona?

O ápice do passeio se dá quando Tio Bolinha simplesmente estaciona o trator no meio do nada — sem qualquer bichinho para alimentar ou atividade interessante à vista — e resolve, de fato, fazer seu show de stand-up para as pobres almas que ali estavam apenas para inofensivamente usufruir do hotel fazenda. E assim somos agraciados com o restante do repertório do comediante, dessa vez com gracinhas sem qualquer ligação com o temática rural ou mesmo com o bom senso ou bom gosto. São pelo menos quinze minutos de terror.

Primeiro ele procura suas vítimas: o japonês, a sogra e a loira. E cada um deles se torna alvo direto das piadinhas do espirituoso Tio Bolinha. Eles riem, claro. Está todo mundo rindo, não é mesmo?

Todas as piadas mais infames e preconceituosas que você já ouviu ou não sobre pintos pequenos, sobre construções vocais que aparentemente soam como a língua japonesa (“Fugiro na Kombi”, “Cagaro no Mato” e daí pra baixo), todas as piadinhas que possam colocar a mulher loira como objeto sexual e como burra e claro, a sogra como alguém que merece todo tipo de violência. Nada que não esteja disponível em um Zorra Total ou A Praça é Nossa, mas que normalmente nós temos a opção de mudar de canal. Não é o caso do Show do Tio Bolinha, onde todos são praticamente coagidos a participar da seção obrigatória de preconceito e humor ruim em nome de uma descontração inexistente. Não havia para onde fugir.

A volta para o hotel não interrompe as piadinhas.

Ei, japonês, precisa de alguém pra traduzir?

Japonês, isso aqui não tem no seu país, né?

Alguém explica pra loira isso aqui?

Ô, loira, você sabe para que serve isso aqui?

Ih, a loira deu cria, agora tem uma loirinha (porque a moça loira, no caso, tinha uma filha, entre cinco e seis anos).

E o pessoal ria. Ria sem parar. Quando a carreta finalmente parou, a plateia feliz da vida avisava aos próximos da fila: vale muito a pena esperar, o passeio é incrível.

Confrontado, Tio Bolinha diz que suas piadas são inofensivas, que não têm malícia.

Ou ainda, que todo mundo gosta.

Que nunca recebeu uma reclamação sequer antes.

Que o povo hoje em dia está muito chato.

Coitado do Tio Bolinha.


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