As cidades podem nos fazer cidadãos melhores?

(texto de Justin McGuirk publicado originalmente na New Yorker: https://www.newyorker.com/books/page-turner/can-cities-make-us-better-citizens)

O que é uma cidade? O sociólogo Richard Sennett certa vez optou por uma definição aparentemente simples: uma cidade, escreveu ele, é “um assentamento humano em que há a possibilidade de estranhos se encontrarem”. Para Sennett, encontrar estranhos é um dever cívico. Ele chegou a essa crença no decorrer de uma carreira de cinquenta anos, e seu último livro, Building and Dwelling: Ethics for the City [Construir e habitar: éticas para a cidade], resume em um único volume seus pensamentos sobre como o desenho urbano molda as maneiras pelas quais nos relacionamos. Consistente ao longo de toda a obra é a noção da cidade como um lugar onde toleramos aqueles que são diferentes. Imigrante? Caixeiro-viajante? Ambos? Quem se importa? O anonimato da metrópole faz que se seja indiferente à diferença. Como diz o ditado alemão, “stadtluft macht frei”. O ar da cidade nos liberta.

É claro que é exatamente esse cosmopolitismo que hoje se encontra sob ataque. Para Immanuel Kant, o cosmopolita era um “cidadão universal”; para Theresa May, ele é “um cidadão de lugar nenhum”. A diferença crucial é que May, como o presidente Trump, parece enxergar o pertencimento no sentido tribal: são “nós” e “eles”. Se as maiores metrópoles dos EUA e do Reino Unido são bastiões contra tais impulsos, é precisamente porque suas populações diversas fazem essas cidades serem cosmopolitas e de tendência liberal. Sennett não menciona nem o presidente dos EUA, nem o psicodrama do Reino Unido, mas fica claro que uma das “éticas” mencionadas no subtítulo do livro é a capacidade da cidade de normalizar os encontros com o Outro.

O desafio que Sennett se impõe em Construir e habitar é saber se é possível planejar uma cidade de forma a maximizar esses encontros. O modo como se projeta um parque ou se molda um quarteirão da cidade pode nos tornar cidadãos melhores? Para enfrentar esse desafio, Sennett divide a cidade em duas, mais ou menos como um corpo e uma alma. Essa dualidade é uma comparação entre a cidade como forma construída (ville) e como experiência vivida (cité) — o “construir” e o “habitar” de seu título. A forma construída tem consequências sociais, e nem sempre são aquelas pretendidas pelo urbanista. Quando o Barão Haussmann entalhou seus amplos bulevares em meio ao emaranhado medieval de Paris, nos anos 1850 e 1860, um de seus objetivos era facilitar às forças armadas a supressão, com canhões puxados por cavalos, de uma classe operária insurrecional. Mas ele não poderia ter previsto o efeito dos bulevares sobre uma florescente burguesia. Eles deram velocidade à cidade, mas também contribuíram para uma vida urbana mais distanciada, na qual os cidadãos não se envolviam uns com os outros, mas com as vitrines das lojas de departamentos.

Esse é um lamento familiar para Sennett. Construir e habitar é seu vigésimo livro, mas parece assombrado pelo espírito de um trabalho muito anterior. Em 1977, ele publicou O declínio do homem público, seu influente estudo das maneiras pelas quais a vida pública regrediu desde o Antigo Regime. O argumento era que os cidadãos da Paris ou da Londres do século XVIII eram muito mais propensos a trocar opiniões com estranhos, mesmo com aqueles de classe social totalmente diferente, do que no século XIX burguês, quando se tornaram mais privados e autocentrados. (O flâneur de Baudelaire exemplificou o cidadão como observador imparcial.) Essa retirada para uma vida psicológica interior e para círculos sociais mais restritos, Sennett a interpretou como uma forma de narcisismo. Ele viu novos presságios dessa sina na “fuga dos brancos” [white flight] dos anos 1960, quando as classes médias rumaram para os subúrbios, e na geração hippie, que, em um experimento de curta duração, abandonou as cidades e partiu em direção às comunidades rurais. Sennett acusou os dois grupos de trairem o ideal cosmopolita e recuarem para comunidades fechadas de pessoas iguais a eles.

Mais de quarenta anos depois, Sennett continua tão apaixonado como sempre pela riqueza e complexidade da vida pública, que para ele significa vida urbana. Em Construir e habitar, ele rejeita o conforto de comunidades claramente definidas, de qualquer coisa que cheire muito a apenas “nós”. Isso vale tanto para comunidades fechadas quanto para “projetos” para os pobres. Ele também estende sua crítica aos escritórios de gigantes da tecnologia como o Google, que fornecem em suas sedes tudo o que um bairro tem para oferecer, sem que os funcionários precisem deixar o prédio. Cada um desses casos é, para Sennett, um gueto. Em vez disso, ele defende uma cidade que abraça a diferença, um lugar de membranas porosas e convites espaciais.

Sennett chama esse ideal de “cidade aberta”. “Eticamente, é claro que uma cidade aberta toleraria diferenças e promoveria a igualdade”, escreve ele, “mas, mais especificamente, libertaria as pessoas da camisa de força imposta pelo fixo e o familiar, criando um terreno em que elas poderiam experimentar e expandir sua experiência”. Em outras palavras, a cidade não deveria espelhar os sistemas fechados e os instintos monopolistas de uma empresa como a Apple. No entanto, isso muitas vezes acontece. Em todo o planeta, condomínios fechados são a forma de desenvolvimento que mais cresce. As “cidades globais”, como Londres e Nova York, são moldadas por fluxos de capital internacional que nem seus cidadãos nem suas políticas podem influenciar. Na China, o desenvolvimento liderado pelo Estado em uma escala sem precedentes resultou em paisagens alienantes e repetitivas. Enquanto isso, nas cidades em expansão do Sul global, os migrantes urbanos constroem vastas zonas de favelas que são física e psicologicamente divorciadas dos centros a que servem. Exclusão é a ordem do dia.

A resposta seria, então, dar mais poder aos urbanistas? Não é bem assim. Se as passagens históricas do livro nos dizem alguma coisa, é que mesmo os planejadores mais bem-intencionados raramente acertam. A “Great Generation” de Sennett, dos anos 1850 — Haussmann; Ildefons Cerdà, que deu a Barcelona seus distintos quarteirões sem esquinas; e Frederick Law Olmsted, que nos deu o Central Park — todos falharam em prever os resultados sociais de seus grandes planos. E os modeladores das cidades do século XX, aos olhos de Sennett, estavam ainda mais distantes da cidadela. A bête noire do livro é Le Corbusier, cujo Plan Voisin teria demolido o Marais de Paris para ali implantar um campo de torres cruciformes idênticas dispostas em um parque. A eficiência à custa de uma vida urbana animada é um anátema para Sennett.

Mais poder, então, para os cidadãos? Sim e não. Sennett discorda de sua amiga Jane Jacobs, que defendeu Greenwich Village contra a luxúria da rodovia de Robert Moses. A encantadora visão da Santa Jane, de um crescimento lento e incremental, liderado pelos cidadãos, pode ser boa para um bairro, mas não para uma cidade — não se você quiser transporte público ou um sistema de esgoto. Em um de seus amáveis argumentos, Jacobs, sem dúvida impaciente com a má-fé de Sennett, lhe deu um chega pra lá: “Então, o que você faria?”.

Construir e habitar é a tentativa de Sennett de responder a essa questão. E a obra tem um apego quase taoísta à harmonia e ao equilíbrio. Dê controle demais aos arquitetos e urbanistas e a cité sofre; fé demais no cidadão, e a ville murcha. A cidade aberta imaginada por Sennett exige que abracemos a diferença, mesmo que não nos identifiquemos com ela. Embora o título pareça inspirar-se no ensaio de Heidegger, “Construir, morar e pensar”, Sennett reserva um desdém particular à retirada do filósofo para uma choupana fora da cidade de Friburgo. A decisão de Heidegger de se separar dos colegas e estudantes judeus foi, para Sennett, um “lapso ético”, como o foi seu antissemitismo, e também como o é para a sede do Google em Nova York, que ele considera uma república universitária ilhada, introspectiva e infantil, “na cidade, mas não da cidade” e “desvinculada” da “rua sombria do lado de fora”. Os leitores de Sennett saberão que o insulto aqui não é a palavra “sombria”, mas a “desvinculada”.

Sennett gosta de “sombrio”. Ele também gosta de “dificuldade”, “complexidade” e “atrito”. Sua crítica ao efeito dos dispositivos digitais na cidade, além do fato de serem “máquinas de individualização”, é que aplicativos como o Google Maps tornam a cidade muito fácil de usar, muito “livre de atritos”. Se você acha que o papel de um projetista, seja de software ou de ruas da cidade, é tornar essas coisas mais fáceis de usar, Sennett discordaria. Ele vê os “encontros resistentes” como cruciais para aprender qualquer ofício, até mesmo o ofício de habitar. Perdendo-nos é como aprendemos.

A resposta de Sennett à pergunta de Jacobs envolve, então, a criação de espaços de encontro e fricção, particularmente na fronteira entre um bairro e outro. Ele deprecia suas próprias incursões no urbanismo e trata seus fracassos como salutares. Por que, por exemplo, ele e seus colegas definiram a localização de um mercado no centro do Harlem espanhol, em vez de na rua 96, na divisa com o abastado Upper East Side? O local poderia ter se tornado uma membrana porosa, um portal “entre diferentes comunidades raciais e econômicas”.

Se Sennett acusou Jacobs de ser melhor com a cité do que com a ville, ele sofre com a mesma cisma. Apesar de sua experiência como urbanista, é o escritor e sociólogo Sennett — o flâneur de olhos bem abertos — que é mais recompensador. Parte do charme de Construir e habitar é sua intimidade. Enquanto o redigia, Sennett sofreu um derrame, e seus relatos sobre reaprender a andar em linha reta, ou sobre observar as pessoas na Kantstrasse de Berlim enquanto se apoiava contra uma parede, deram às suas observações a pungência da experiência vivida. Há um relato extraordinário sobre relações étnicas na comunidade de Hatton Garden, em Londres, onde Sennett vive. Depois de um audacioso roubo a uma joalheria, ele nota que os donos de lojas hassídicas locais e seus vizinhos muçulmanos passaram a ser educados uns com os outros de forma incomum — a suspeita mútua gerou “civilidades superficiais”. Sennett não se opõe à ideia de usar máscaras sociais como meio de se virar socialmente. “As comunidades mistas funcionam bem”, ele escreve, “somente enquanto a consciência do Outro não vem à tona”.

Isso aponta para uma das peculiaridades do livro, que é a supressão do político. Sennett é brilhante quando aborda cidades com uma história estabelecida, mas menos convincente em estados mais emergentes de urbanidade. Seus encontros com o dono de uma barraca em uma feira em Delhi, que lhe vende uma imitação de iPhone, e com algumas crianças de rua em um bairro de Medellín fazem que se pergunte quais são as lições para as cidades informais que prevalecem em partes da América do Sul, África e Ásia. A lição desse bairro em Medellín não é que as crianças pobres desenvolvem um sexto sentido para a rua, mas que o edifício mais impressionante da cidade — uma biblioteca pública com uma forma que se assemelha ao topo de uma montanha rochosa — foi construído no bairro mais pobre da cidade e então conectado ao centro por um teleférico. Tratava-se de atos políticos de um prefeito que tentava corrigir a extrema desigualdade urbana. Da mesma forma, enquanto Sennett lamentava, com razão, os efeitos do urbanismo corbusiano — de cidades instantâneas e sem caráter, feitas de torres idênticas — ele poderia ter citado alguns projetos habitacionais modernistas em que a cité prosperasse. Na verdade, em Londres, pelo menos, foi apenas a privatização, ou a demolição, da habitação social do pós-guerra — e não seu planejamento — que empurrou à força os cidadãos mais pobres para fora do centro e reduziu a mescla social defendida por Sennett.

Ele parece sentir que qualquer proposta política de abertura poderia minar a neutralidade de suas observações sociológicas. Nesse caso, ele se distancia um pouco da linhagem de escritores que também clamaram por uma “cidade aberta”, ainda que não exatamente nesses termos. Henri Lefebvre, cujo dictum era de que os pobres têm “direito à cidade”, fremia com fervor revolucionário. Poderíamos incluir entre eles também Marshall Berman, que argumentava que o espaço público aberto, onde os ricos poderiam encontrar os pobres, oferecia à sociedade a chance de confrontar suas “repressões coletivas”. Sennett persegue o mesmo objetivo, mas mantém no bolso suas credenciais de esquerdista. Sempre um diplomata, ele é das pessoas mais influentes no campo da historiografia da ética e dos ofícios — um modo consistente com o último livro de sua trilogia sobre o Homo Faber, em que enxerga o homem como um artesão. Mas é possível que a obra incomode aqueles que sentem que um remédio mais forte se faz necessário.

Mais estimulante é a afirmação de que uma cidade saudável não pode ser meramente planejada; ela precisa ser realizada por seus cidadãos. A essência de Construir e habitar é que a cidade aberta é um lugar repleto de exigências. Qualquer pessoa que tenha participado de reuniões comunitárias, associações de bairro ou consultas públicas sobre zoneamento sabe que fazer as pessoas chegarem a um consenso não é tarefa fácil. E ser um cidadão da cidade aberta requer paciência e adaptabilidade em face do desconhecido — qualidades que Sennett enxerga corporificadas no migrante. Uma das frases finais do livro conclui: “A conexão ética entre urbanista [urbaniste] e urbanita [urbanite] reside na prática de certo tipo de modéstia: viver entre muitos, em um mundo que não nos espelha”. Tipicamente idealista, tipicamente urbano, esse é um sentimento oportuno para os debates de nossos dias.

Justin McGuirk é curador-chefe do Design Museum, em Londres, e autor de Radical Cities: Across Latin America in Search of a New Architecture.