Chantal Mouffe: “Jeremy Corbyn mostra o caminho para a social-democracia europeia”

(Publicado originalmente no Le Monde: http://abonnes.lemonde.fr/idees/article/2018/04/05/chantal-mouffe-jeremy-corbyn-montre-la-voie-a-suivre-pour-la-social-democratie-europeenne_5280939_3232.html)

Em uma tribuna do Le Monde, a filósofa Chantal Mouffe observa que o líder trabalhista britânico conseguiu renovar seu partido ao se apoiar em movimentos populares, rompendo com uma prática de política puramente tecnocrática.

[Nos dias 7 e 8 de abril, o Partido Socialista (PS) francês se reunirá em um congresso em Aubervilliers (Seine-Saint-Denis). Nessa ocasião, o deputado de Seine-et-Marne, Olivier Faure, será oficialmente nomeado secretário-geral do partido. Ele conquistou o primeiro lugar no primeiro turno das eleições internas em 15 de março, mesmo que sua vitória não tenha sido confirmada até 29 de março. O 13o secretário-geral do partido assume a liderança de um processo de reconstrução após as pesadas derrotas eleitorais de 2017. Enquanto o PS busca um novo fôlego, o Le Monde passou a palavra a vários intelectuais e atores políticos para que refletissem sobre o futuro do socialismo no século XXI.]

Tribuna. A crise da social-democracia europeia está confirmada. Depois dos fracassos do Pasok na Grécia, do PvdA na Holanda, do PSOE na Espanha, do SPÖ na Áustria, do SPD na Alemanha e do PS na França, o PD da Itália acaba de obter o pior resultado de sua história. A única exceção a esse panorama desastroso está na Grã-Bretanha, onde o Partido Trabalhista, liderado por Jeremy Corbyn, está em ascensão. Com quase 600 mil membros, o Partido Trabalhista é hoje o maior partido de esquerda da Europa.

Como Corbyn, para a surpresa de todos eleito para a liderança do partido em 2015, conseguiu esse feito?

Após uma tentativa de reversão à direita em 2016, o momento decisivo na consolidação de sua liderança foi o forte crescimento do Partido Trabalhista nas eleições de junho de 2017. Enquanto as pesquisas davam aos conservadores uma vantagem de vinte pontos percentuais, o Partido Trabalhista obteve 32 assentos, fazendo que os Tories perdessem sua maioria absoluta. É a estratégia posta em prática nessas eleições que mostra a chave para o sucesso de Corbyn.

Isso se deve a dois fatores principais.

Um manifesto radical

Primeiro, um manifesto radical, alinhado com a rejeição da austeridade e das políticas neoliberais por importantes setores da sociedade britânica. Em seguida, a enorme mobilização organizada pelo Momentum, o movimento criado em 2015 para apoiar a candidatura de Corbyn.

Inspirado pelos métodos de Bernie Sanders nos Estados Unidos e por novas formações europeias radicais, o Momentum aproveitou vários recursos digitais para estabelecer extensas redes de comunicação que permitiram que ativistas e muitos voluntários se informassem sobre as zonas eleitorais que precisavam ser conquistadas e onde era necessário fazer o corpo a corpo. É essa mobilização inesperada que fez todos os prognósticos caírem por terra.

Mas foi graças ao entusiasmo pelo conteúdo do programa que tudo isso foi possível. Intitulado “For the many, not the few” (Para muitos, não para poucos), utilizou-se um slogan que já havia sido usado pelo partido, mas lhe dando agora um novo significado para estabelecer uma fronteira entre um “nós” e um “eles”. Foi, portanto, uma questão de repolitizar o debate e oferecer uma alternativa ao neoliberalismo estabelecido por Margaret Thatcher e continuado sob Tony Blair.

Renacionalização de serviços públicos

As medidas emblemáticas do programa foram a renacionalização dos serviços públicos, como ferrovias, energia, água e correios, interrompendo o processo de privatização do Serviço Nacional de Saúde (NHS) e do sistema escolar, a abolição das mensalidades nas universidades públicas e o aumento significativo de subsídios na área social. Tudo isso aponta para uma ruptura clara com o projeto da Terceira Via do Novo Trabalhismo [New Labour].

Enquanto esta última substituía a luta pela igualdade pela liberdade de “escolher”, o novo manifesto reafirmou que o Partido Trabalhista era o partido da igualdade. O outro ponto crucial foi a insistência no controle democrático, razão pela qual a ênfase foi dada à natureza democrática das medidas propostas para criar uma sociedade mais igualitária.

A intervenção do Estado era reivindicada, mas seu papel era criar as condições para os cidadãos assumirem e administrarem os serviços públicos. Essa insistência na necessidade de aprofundar a democracia é uma das principais características do projeto Corbyn.

“Populismo de esquerda”

Isso ressoa particularmente no espírito que mobiliza o Momentum, que defende o estabelecimento de laços estreitos com os movimentos sociais. Explica a centralidade atribuída à luta contra todas as formas de dominação e discriminação, tanto nas relações econômicas como em outros campos, como o das lutas feminista, antirracista ou LGBT (lésbicas, gays, bis e trans).

É a articulação das lutas com aquelas que dizem respeito a outras formas de dominação que está no centro da estratégia de Corbyn, e é por isso que ela pode ser descrita como “populismo de esquerda”. O objetivo é estabelecer uma sinergia entre as várias lutas democráticas que atravessam a sociedade britânica e transformar o Partido Trabalhista em um grande movimento popular capaz de construir uma nova hegemonia.

É claro que a realização de tal projeto significaria, para a Grã-Bretanha, um ponto de virada tão radical, embora na direção oposta, quanto o foi aquele realizado por Margaret Thatcher. Certamente, a luta para reavivar o trabalhismo ainda não está ganha, e a luta interna continua com os defensores do blairismo. Assim, os oponentes de Corbyn produzem múltiplas manobras para tentar desacreditá-lo, sendo a última a acusação dirigida a ele de tolerar o antissemitismo dentro do partido.

O apoio dos sindicatos

Também há tensões entre os defensores de uma concepção mais tradicional do trabalhismo e os da “nova política”. Mas esta está se impondo, e o equilíbrio do poder joga em seu favor. A vantagem de Corbyn, quando comparado a outros movimentos como o Podemos ou a França Insubmissa, é estar à frente de um grande partido e de se beneficiar do apoio dos sindicatos.

Sob sua liderança, o Partido Trabalhista conseguiu restaurar o gosto pela política naqueles que dela haviam desertado sob Blair e atrair mais e mais jovens. Isso prova que, ao contrário do que muitos cientistas políticos afirmam, a forma do partido não se tornou obsoleta e que, ao se articular com os movimentos sociais, ela pode ser renovada. É a conversão da social-democracia em neoliberalismo que está por trás da insatisfação de seus eleitores.

Quando se oferece aos cidadãos a perspectiva de uma alternativa e eles têm a oportunidade de participar de um verdadeiro debate combativo, eles ficam ansiosos para fazer suas vozes serem ouvidas. Mas isso requer o abandono da concepção tecnocrática da política, que a reduz ao gerenciamento de problemas técnicos, e o reconhecimento de seu caráter partidário.

Chantal Mouffe é uma cientista política belga que estuda teoria política pós-marxista. Atualmente ela está acoplada ao Departamento de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade de Westminster, na Inglaterra.