“Ela pedia a Deus para ser martirizada”: os pais de Gaza choram seus mortos

(Texto de Oliver Holmes e Hazem Balousha publicado no The Guardian: https://www.theguardian.com/world/2018/may/15/she-prayed-she-would-be-martyred-gaza-parents-mourn-their-dead)

Bombas de gás lacrimogêneo disparadas contra manifestantes durante confrontos com forças israelenses perto da fronteira entre a faixa de Gaza e Israel, a leste da cidade de Gaza, em 14 de maio de 2018. Fotografia de Thomas Coex/AFP

Reem Abu Irmana perdeu a filha de 14 anos durante os conflitos na fronteira; Ibrahim al-Toubasi perdeu o filho

Aos 14 anos, Wesal Sheikh Khalil já havia feito planos para seu funeral. Se as tropas israelenses disparassem contra ela durante os protestos na fronteira de Gaza, a adolescente palestina disse à mãe, ela deveria ser enterrada no local em que tivesse morrido ou ao lado do túmulo do avô.

“Ela preferia a morte a essa vida”, disse Reem Abu Irmana um dia depois de perder sua filha mais nova. “Sempre que ia às manifestações, ela pedia a Deus para ser martirizada.”

Wesal foi uma das mais de sessenta pessoas mortas em Gaza na segunda-feira, quando franco-atiradores israelenses dispararam contra dezenas de milhares de pessoas ao longo de uma cerca perimetral ao redor do enclave bloqueado.

De acordo com o Ministério da Saúde de Gaza, entre os mortos estava um bebê de oito meses que teria morrido após a inalação de gás lacrimogêneo. Um homem amputado que foi fotografado, em sua cadeira de rodas, atirando pedras também foi morto.

Vários dos mortos eram membros do Hamas, o grupo que governa Gaza e que já travou três guerras contra Israel. Pelo menos 1.300 pessoas foram feridas nos combates, segundo o mesmo ministério.

Os funerais da terça-feira coincidiram com o aniversário da Nakba, ou “catástrofe”, celebração em memória das mais de 700 mil pessoas que fugiram ou foram expulsas de suas casas na guerra de 1948, desencadeada pela criação de Israel.

Durante seis semanas, os manifestantes se reuniram na “grande marcha do retorno”, um movimento que simboliza seu desejo de retornar a seus lares ancestrais. O protesto de segunda-feira, o mais sangrento até hoje, expressava a fúria pela abertura da embaixada dos EUA em Jerusalém naquele mesmo dia.

As marchas tinham inspirado Wesal, que havia completado 14 anos em dezembro e não parava de pensar sobre o “martírio”, disse sua mãe.

Durante uma década inteira, Israel e Egito impuseram fortes restrições ao trânsito de pessoas e mercadorias em Gaza, e Abu Irmana declarou que a vida havia se tornado insuportável para seus sete filhos, com a família tendo de mudar a cada três ou quatro meses, uma vez que não podiam pagar o aluguel.

“Que Deus ajude as pessoas que moram aqui”, disse ela, cercada por amigos e familiares, todos espremidos em um pequeno quarto sob um teto de ferro contorcido.

A família alega ser originária de uma pequena aldeia, a qual nunca visitaram, localizada no que hoje é Israel. Três gerações viveram no espremido campo de refugiados de al-Bureij, em Gaza, em uma parte do bairro que os moradores chamam de Bloco D.

Wesal nunca tinha saído de Gaza, revelou Abu Irmana, descrevendo a menina como “cheia de alegria”. Wesal havia escrito uma canção para o próximo aniversário da mãe, e a tinha memorizado e cantado ao redor da casa em seus últimos dias.

Um irmão de Wesal, de 21 anos, havia lhe avisado para não ir aos protestos, ameaçando — em tom jocoso — quebrar as pernas dela caso ela tentasse. Mas a menina estava decidida, afirmou a mãe. “Ela dizia: ‘Se eu tivesse só uma perna, ainda assim eu iria. Se ambas estivessem quebradas, eu iria me arrastando’.”

Mohammed, de 11 anos, outro irmão de Wesal, estava com a irmã quando ela foi morta. Ele disse que outros manifestantes haviam dado alicates a ela para ajudar a cortar os arames, e que ela fora baleada na cabeça quando se aproximou da cerca.

O Exército de Israel declarou na segunda-feira que o Hamas planejava “realizar um massacre em Israel”. No entanto, a história não convenceu ninguém, e desde que os protestos semanais começaram em 30 de março, nenhum israelense foi ferido, exceto por um soldado que teve ferimentos leves em um incidente não especificado.

Mohammed quis retornar aos protestos na terça-feira, que foram muito menores, mas sua mãe o proibiu. “Minha vida é a mesma”, disse Abu Irmana ao ser questionada sobre seus planos para o futuro. “A única coisa que mudou é que eu não tenho mais minha filha.”

Na cidade de Gaza, na terça-feira, lojas que vendem lanches e melancias frescas permaneciam abertas e as crianças jogavam futebol. As ruas do enclave estavam mais silenciosas que o normal. “Parece que são tempos de guerra de novo”, disse um morador.

Uma estrada foi bloqueada por uma tenda de lona azul. Dezenas de homens, velhos e jovens, sentaram-se em cadeiras de plástico para lamentar a morte de Yazen al-Toubasi, outra vítima da violência de segunda-feira. O faxineiro de 23 anos tinha um filho com menos de dois anos de idade.

O pai de Toubasi, Ibrahim, estava sentado entre os vizinhos. “O mundo inteiro está espremendo este pequeno lugar chamado Gaza”, disse ele em voz baixa e desgostosa. Ele também estava nos protestos. Afirmou que continuar a luta era um “dever nacional” para todos os palestinos.

O filho, Toubasi, não tinha se aproximado da cerca; em vez disso, havia ficado em uma das tendas montadas a várias centenas de metros de distância para um protesto pacífico. “Mesmo que meu filho tivesse tentado atirar uma pedra, não os teria alcançado”, disse seu pai.

Bandeiras verdes do Hamas foram hasteadas na estrada, e um pôster com o nome de Toubasi em destaque também mostrava fotos da Cúpula da Rocha e da mesquita de al-Aqsa, em Jerusalém, o terceiro local mais sagrado do Islã.

O Hamas pagou os serviços funerários e doou dinheiro para as famílias dos mortos e feridos, uma medida condenada por Israel. O pai de Toubasi disse que o filho não era afiliado a um grupo político, mas que apoiava “todas as facções”.

Enquanto ele falava, as pessoas se aproximavam e o abraçavam, muitas vezes sussurrando condolências em seus ouvidos. “Obrigado”, ele respondia educadamente a cada um.

“A causa palestina foi abandonada e agora voltou à linha de frente”, disse ele, prometendo retornar à fronteira com Israel para mais manifestações. “Amanhã eu irei no lugar de Yazen.”