Retratos por mãos pequenas

O que acontece quando uma fotógrafa deixa câmeras nas mãos de crianças de zonas rurais de diversas partes do mundo

(Texto de Andrea K. Scott publicado na New Yorker em 31/05/2018: https://www.newyorker.com/culture/photo-booth/what-resulted-when-a-photographer-gave-rural-children-cameras. Fotografias de Wendy Ewald cedidas por cortesia da galeria Steven Kasher à New Yorker.)

“Morri!”, Palesa Molahloe, África do Sul, 1992.

Todo fotógrafo tem uma relação de troca com seus retratados. A de Wendy Ewald, porém, é maior que a média. Desde 1975, a artista norte-americana vem conjugando fotografia, ativismo e educação em uma série de colaborações que põem em cheque nossas concepções de autor e autoria. Ela passou meses — e, em certas ocasiões, mesmo anos — em comunidades rurais nos mais variados pontos do planeta, de México e Marrocos a Índia e Holanda, para ensinar as crianças locais a usarem câmeras. As fotografias em preto e branco que resultaram do projeto são creditadas tanto a Wendy quanto a seus alunos, que são citados e nomeados nos títulos. (E isso vinte anos antes de o termo “arte socialmente engajada” fazer parte de nosso léxico.)

As imagens podem ser divertidas, mas são ao mesmo tempo honestas. A única coisa que não são é sentimentais. Encorajadas por Wendy a mergulhar em seus sonhos, as crianças despertam com visões tão sombrias quanto um conto de fadas dos irmãos Grimm: um melhor amigo assassinado ou um irmão enterrado sob uma pilha de lenha. Mas são as revelações dos pensamentos acordados que de fato nos perturbam. Uma garota branca na África do Sul descreve sua fotografia de um homem negro na calçada, de 1992, com as palavras “O que eu não gosto no lugar onde vivo”. Nessa exposição ao racismo casual, entre outras duras realidades, o projeto de Wendy evita aquilo que Teju Cole descreveu como “o complexo industrial branco-salvador” que assola, por exemplo, o documentário Nascidos em bordéis (2004).

“O tonto do meu irmão vestido como o santo Sadhu Hari”, Kalu Rupsingh, Índia, 1989-90.

“Eu sou a garota com a cobra em volta do pescoço”, um indelével autorretrato tirado em Appalachian Kentucky, em 1980, por uma garota chamada Denise Dixon — vista no cômodo de uma casa com paredes de madeira, usando uma peruca loira despenteada, fazendo beicinho e com uma pequena cobra não peçonhenta como se fosse um colar — evoca uma versão miniatura de Cindy Sherman. (Na verdade, a imagem foi exibida no Museu Whitney, na Bienal de 1997.) “Um cisne branco no meio do pôlder”, fotografado por Miranda Plooij, na Holanda, em 1996, é tão estranho quanto o cisne no “Castelo da Disneylândia”, de Diane Arbus. Aqui, o pássaro branco flutua não num canal, mas num mar escuro de grama, separado das nuvens por uma linha horizontal de árvores transpassadas.

“Um sonho de Shata com a boneca”, Franklin Monnakqtla, África do Sul, 1992.

Wendy começou a tirar fotografias ainda criança, enquanto crescia em Grosse Pointe, Michigan. Ela ganhou sua primeira câmera da mãe, aos onze anos. As sementes de seu futuro colaborativo foram plantadas no verão de 1969, após sua formatura no ensino médio, quando ela viajou para Labrador, no Canadá, para ajudar a montar um acampamento para crianças Innu e Mi’kmaq, nascidas em famílias originalmente seminômades, mas que agora vivem há um ano em uma reserva. Wendy chegou com Polaroids Instamatics que distribuiu para as crianças e uma câmera de formato grande para si mesma. Seus sonhos de se tornar uma Dorothea Lange da era dos direitos civis encontraram um obstáculo na constatação de que as “crianças” (algumas tinham quase a idade dela mesma) tiravam “fotos mais poderosas e mais íntimas do que as minhas”, como ela disse mais tarde.

“Eu sou a garota com a cobra em volta do pescoço”, Denise Dixon, Kentucky, 1980.
“Os aviões iam bater na minha cabeça”, Scott Huff, Kentucky, 1978.
“Este é meu novo primo, o nome dele é Patrick”, Lucy Dias Semedo, Holanda, 1996.

Na faculdade, Wendy cursou fotografia com perspectiva artística, e não como documentarista, estudando por dois anos com o modernista norte-americano Minor White, no M.I.T. Em 1975, ela se mudou para Whitesburg, Kentucky, para tirar suas próprias fotos, ao mesmo tempo que dava oficinas — incluindo um período na última escola de apenas uma sala em Kingdom Come Creek — com o título de Appalshop, a partir de um centro de artes cinematográficas chamado Appalachia, fundado em 1969. (Ele segue ativo, firme e forte.) Wendy viveu em Kentucky por seis anos e foi ali que chegou à sua concepção compassiva de conceitualismo. Como ela escreveu na monografia que acompanhou a retrospectiva do museu, “às vezes acho que me disfarço de professora para fazer as fotos que preciso ver”.

“O dorminhoco”, Luis Arturo González, Colômbia, 1982–85.
“As galinhas correm atrás da minha mãe”, Carlos Andrés Villaneuva, Colômbia, 1982-85.
“A minha prima, Miry, com crânios e frutas para o Dia dos Mortos”, Juan Jesús Murillo, México, 1991.
“O diabo está saindo de sua caverna”, Reymundo Gómez Hernández, México, 1991.
“Minha irmãzinha rezando”, Mounia Betioui, Marrocos, 1995.
“Surpresa!”, Suraya Beije, Holanda, 1996.
“O ladrão pego na sala de estar”, Fatima el Farroudi, Holanda, 1996.
“O santo Bhaataji cortou minha mão”, Dasrath, Índia, 1989-90.
“Um cisne branco no meio do pôlder”, Miranda Plooij, Holanda, 1996.
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