Entrevista: Manfredo Sursis

Por Jorge Rocha e Rômulo Marques

Ócio criativo é passado! Se você é um desempregado descolê, do tipo intelectual e up-to-date, então já deve ter ouvido falar de Manfredo Sursis, autor do livro Nada é fácil: trabalhar pra que?, que está causando tremeliques e faniquitos no meio acadêmico. Ah, não ouviu falar? Tem problema não, faz cara de conteúdo e murmura “hummm” enquanto lê isso aqui; a gente explica tudinho pra você. Manfredo Sursis, que se define como sociólogo fuckfurtiano, defende que as teorias de Domenico De Masi, transpostas pro universo do desemprego 2.0, são “um puta papo chato, coisa pra jacu; ócio criativo my ass!”. Sursis, atualmente trabalhando para o terceiro setor, depois de longa temporada ligado a setores governamentais, defende a vagabundagem como desnegócio, apoiado em Kant e no que mais ele puder usar para cobrar um valor exorbitante pela consultoria. O mundo é dos isshpertos, não é mesmo?

Fired: Em seu livro, Nada é fácil; trabalhar pra que?, o senhor é categórico ao afirmar que o conceito de ócio criativo, alavancado por Domenico De Masi, é uma “banalidade furunculenta de quem tá parado em casa e quer sarna pra se coçar, pô!”. O senhor propõe o “ócio di cum força”. Pode explicar a diferença?

Manfredo Sursis: Olha, eu posso ter sido áspero nas palavras, mas nessas horas o coração fala mais alto do que meus anos de Humanidades. Diria que além de furunculenta e banal, os conceitos pregados pelo Masinho são uma farsa burguesa muito mal travestida de aristocracia aristotélica. Parte-se do princípio arrepiante que, uma vez que o indivíduo consegue a façanha de romper com a lógica dos modos de produção, ainda deve prestar reverência à superestrutura ao se tornar fornecedor de “bens simbólicos”. É como atingir o nirvana sem deixar a roda do samsara, entende? Não há nada mais revolucionário, eu diria, do que a negação do negócio, que se opõe ao ócio. Por isso, no meu livro, trabalho o conceito de desnegócio, mesmo com o risco da dupla negativa.

F: O desnegócio contempla também a paz de espírito do desempregado moderno, quando ele utiliza o wi-fi alheio para ver os classificados e acaba acessando pornografia na Internet, conforme o senhor defende no livro?

MF: Isso depende. Sentiria nosso desempregado culpa depois do gozo? Mesmo estando dentro de um Starbucks limpando o pau no guardanapo? O desnegócio, embora conceito transcendente, depende de características imanentes do indivíduo. A culpa judaico-cristã por exemplo, é um habitus a ser combatido pelo praticante do verdadeiro não fazer. Foram séculos de culto ao trabalho. Vai das ferramentas dos homens primitivos, passa pelos protestantes e sua ascese propícia ao capitalismo até os punks com o “faça você mesmo”. Quem não tem a malemolência, o rapport, a capacidade mínima de ressignificação, está condenado ao trabalho mesmo quando está no cinema comendo pipoca ao ver o filme novo do Jabour.

F: Mas isso soou meio vilanesco da parte do senhor. Confesso que não esperava uma afirmação dessas vinda de um sociólogo com o histórico de vida que o senhor tem. Quer dizer então que todo esse tempo trabalhando primeiro em áreas governamentais e depois para o terceiro setor só fizeram que se especializasse no falar vazio adamsmitheano e no coçar de saco kantiano?

MF: Interessante você trazer Kant para nossa conversa, mesmo que de forma veladamente cínica e acusatória. Saiba que meus anos como servidor público foram interrompidos por uma gorda aposentadoria por invalidez. Você não faz idéia do que aquelas cadeiras do Shopping Matriz fazem com a sua lombar. Quando fui para o terceiro setor (sociedade civil) com minha cadeira da Mirage tive a epifania que faltava para concluir meu pensamento: “quanto falta para a hora do almoço?”. Entendi que Kant foi pouco ousado em seu trabalho e eu poderia ir além. Assim que voltasse do almoço, claro. E, claro. Cobrar por isso.

F: Isso me faz lembrar do capítulo cinco do livro, O b4r4to é loko: minha consultoria não cobra pouco, onde o senhor escreve que dará dez conselhos gratuitos para o desempregado moderno. Mas estão listados apenas oito. O que o senhor está escondendo? Qual modelo de negócio está usando para adotar essa estratégia?

MF: A idéia do título foi do meu editor. Segundo ele, essa cruza de números e letras torna meu trabalho mais acessível para a geração Y, franca candidata a apreciação de minhas idéias, mesmo sem nunca ter tido contato com elas. O que eu acho bom, claro. Porém, francamente, vChe JauM Viu u TRabAAIO d IxcreVer AXXim? São mais letras do que o necessário, tem que alternar caixa alta e baixa e ainda colocar letras e números em lugares esquisitos. Não vejo isso de outra forma se não uma incomensurável vontade de trabalhar, o que me faz observar essa geração com muito receio. Deixe-me reler a pergunta agora.

Pronto, li.

F: Acho que o senhor está me sacaneando, Manfredo Sursis. Se não fôssemos nós, intelectuais, eu diria que é hora de partir pra ignorância. O senhor fica aí, com essa pose, com essa empáfia de sociólogo formado pela … Quer saber? Quer saber mesmo? Acho que, no fundo, o senhor queria mesmo é ser o Roberto Justus, na época de O Aprendiz! Rá!

MF: USP. Sou formado pela USP. Você não leu nem a orelha do livro? Que bom. Eu poderia responder a sua infundada acusação com alguma máxima de alto impacto do fundo do meu cabedal teórico. Mas usarei a citação de um grande pensador brasileiro, Gil Brother: “não guenta dez minuto de porrada comigo. Vai encarar?”. Aliás, muito bom da minha parte trazer o Gil Brother para o colóquio dessa forma. Ainda que como bravata. Ele seria um grande exemplo para o desempregado moderno se não tivesse sido conurbado pela Mtv. Perto dele, quem é Justus?

(publicada originalmente em 2011 ou 2012; nossa memória está de aviso prévio)

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