Foto original: Fábio Soares/futeboldecampo.net

Torcedor: espécie em extinção

Mantenha-se em silêncio! A partida já vai começar.

Yuri Eiras (com a colaboração de Fabio Perina)

Torcer é entregar-se sem precisar, necessariamente, ser correspondido. Ir ao estádio vibrar por seu clube, gritar em apoio, chorar nas derrotas e sorrir nos triunfos é uma missão, não uma troca de favores. Herança de infância ou paixão arrebatadora de adolescência, é o amor que move e envolve um torcedor. Foi este sentimento que levou Rodrigo, 39 anos, a fazer com que sua filha, Maria Eduarda Milani, se tornasse sócia-torcedora do Palmeiras com apenas três dias de vida. Rodrigo não foi avisado, no entanto, da novidade que corre nas novas arenas: o torcedor é uma espécie em extinção.

A relação de amor que as gerações anteriores alimentaram com seus clubes não existe mais. Enrolar-se na bandeira, colecionar recortes de jornais, ficar sem voz no dia seguinte de um título já é coisa do século XX. O torcedor é, atualmente, um cliente, um cartão, uma matrícula. Vale mais a inscrição de sócio que o apoio vindo das arquibancadas. É tão importante quanto um cliente C&A, que recebe descontos em peças de roupas conforme sua fidelidade; comemora as vitórias do seu time tanto quanto comemoraria o título de algum clube rico europeu. Características que se modificaram ao longo dos anos, influenciadas pela relação de estou-pagando-para-isso que as novas arenas impuseram.

Rodrigo, torcedor do Palmeiras, levou esposa e filha para a partida do seu clube de coração contra o Goiás, realizada em maio deste ano, no Allianz Parque. O jogo válido pela terceira rodada do Campeonato Brasileiro não significava absolutamente nada para os rumos da equipe. Pela tranquilidade, o pai decidiu levar a família para conhecer o novo e belo estádio do Palmeiras. Ele, entretanto, sofreu um 7 a 1 logo na chegada. Sua filha, de apenas seis meses de idade, não poderia entrar no local. Ela é um ser humano e absolutamente todos os seres humanos devem pagar suas entradas no Allianz Parque. Idosos, crianças ou bebês recém-nascidos.

Ela não vai cantar o Hino do Palmeiras, porque ainda não sabe falar. Não vai chorar se o Verdão perder, pois não entende absolutamente nada daquele ambiente. Ela sequer lembrará daquele momento, pois bebês de seis meses não lembram de nada nunca; mesmo assim teve de pagar um ingresso.

O diálogo entre a funcionária do estádio e o pai da criança ganhou as redes sociais e virou motivo de revolta. Segue abaixo um trecho que circula:

A política de ingressos do Allianz Parque é a de não ter gratuidades para ninguém. Crianças de qualquer idade — as de colo, inclusive — devem também adquirir seus ingressos para entrar no estádio. Foi o que Rodrigo fez para sua filha ter esse direito: comprou a entrada nas mãos de um torcedor que estava do lado de fora.

Na partida contra o Goiás, o ingresso mais barato era o do setor Cadeira Superior (Laranja/Verde). O preço da inteira era de R$ 100.

‘Judaria de milianos’

O processo de elitização de torcedores que o Palmeiras passa não é singular a ele. Em quase todos os estados do Brasil, principalmente nas cidades que reformaram ou construíram estádios para a Copa do Mundo de 2014, o aumento no preço dos ingressos e a transformação do público médio nas partidas foi notada pela imprensa e pelos próprios torcedores.

A REVISTA FORA DA ÁREA comparou o preço médio dos ingressos desde 2009, um dos últimos anos em que o Palmeiras mandou seus jogos majoritariamente no Parque Antárctica. Como exemplo, utilizamos as partidas contra o Flamengo, por não ser um clássico estadual, mas, ainda assim, de grande procura.

As partidas realizadas no Pacaembu tiveram seus ingressos mais baratos se comparados aos outros estádios. A entrada de menor valor custava 30,00 reais. Um preço justo e bem dividido: quem desejasse entradas mais baratas, poderia adquirir. Quem quisesse mais conforto no estádio, também tinha opção, podendo comprar ingressos para os setores mais caros. A exclusão atual vem na falta de espaço dado àqueles que não podem pagar o valor médio praticado na Allianz Arena. Para quem não é sócio, o preço varia entre 90 e 120 reais.

Fabio Perina, torcedor do Palmeiras e membro da Mancha Alviverde, ainda não foi ao novo estádio do seu clube. Seu protesto não é único: diversos torcedores do Palmeiras, por revolta ou falta de dinheiro, ainda não desfrutaram do local. “Minha raiva com isso tudo não me deu coragem de sequer tentar entrar na arena ainda”, conta o palmeirense.

Fabio denomina de ‘Era Valdívia’ o processo de elitização que ocorreu nas arquibancadas por onde o Palmeiras jogou. Ele enumera as diversas dificuldades enfrentadas desde 2009. “Passamos por problemas como a perda traumática do título (Brasileiro) da forma que foi, também deixamos de jogar no velho Palestra para começar uma peregrinação”, diz. “Uma maioria de palmeirenses ficou tão carente a ponto de tratar o Valdívia como ídolo”, conclui Perina.

A mudança de público também gera indignação. Recentemente, a Mancha Alviverde, principal organizada do Palmeiras, adotou, como forma de protesto ao preço dos ingressos, o silêncio. Seus membros permanecem calados durante todo o primeiro tempo, e passam a apoiar apenas na segunda etapa. Em algumas partidas, como contra o Atlético-MG, o silêncio foi durante os 90 minutos. Alguns torcedores não-organizados passaram a protestar contra a atitude da organizada, com vaias e xingamentos.

Na visão de Perina, a transformação do público que assiste aos jogos do Palmeiras vem desde a época em que o ingresso era popular. “É muito claro: se comparar o Brasileirão de 2009, havia muito mais clima de festa e vibração no Palestra do que na Libertadores de 2013, no Pacaembu”, garante o torcedor, que conclui que os ‘coxinhas’ acharam o seu lugar no novo estádio. “Um número significativo de palmeirenses que adoram esse novo comportamento da arena já o fazia no Pacaembu, durante todos esses anos”, afirma.

‘Senta! Senta! Senta!’

Uma invasão de campo de Marcelo Fernandes e Oswaldo de Oliveira, então técnicos de Santos e Palmeiras, respectivamente, rendeu expulsão aos dois na final do Campeonato Paulista deste ano, em jogo disputado no Allianz Parque. Impedido de ficar à beira do campo, Oswaldo decidiu pela forma mais cômoda e próxima: abriu-se um portão na arquibancada e ali ele ficou, próximo ao banco e também perto da torcida. Ele pôde dar instruções, aos gritos, diretamente aos jogadores, mas também ouviu poucas e boas dos torcedores que pagaram — e caro — para assistir ao jogo.

Foto: bol.uol.com.br

Os torcedores, no geral, não gostaram do momento inusitado. No caminho até o acesso às cadeiras do estádio, Oswaldo ouviu xingamentos vindo das cadeiras. Eles gritavam que o técnico e sua comissão estavam atrapalhando a visão do campo.

O processo de mudança do público torcedor para o público cliente não acontece apenas no clube da Rua Turiaçu. Foi nos seus jogos, entretanto, que foi possível perceber o fenômeno de forma gradual, mas ainda assim traumática. A perda da identidade de uma torcida faz parte da filosofia econômica dos dirigentes, que não enxergam a relação torcedor/clube como um caso de amor. Os preços praticados no Allianz Parque não condizem com a qulidade de nenhuma partida de futebol no Brasil; também não condiz com o salário do brasileiro médio.

A fórmula perfeita é a de lucrar sem excluir, para que os últimos bravos torcedores não sejam extintos em breve.

Festa no Pacaembu nos anos 80. Bandeiras, fumaça, torcida

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