Madureira visitou a China de Mao Tse Tung e Cuba com Che Guevara. As viagens viraram uniformes de jogo e filme.

Eu também um dia fui uma brasa

Bangu, America, Madureira e outros clubes imploram o seu carinho

Por Marcos Coelho

Introdução de Yuri Eiras

Estádios aconchegantes onde corriqueiramente pipas ‘avoadas’ caem ao centro do campo. Nas arquibancadas e cadeiras, apenas alguns sócios do clube, já idosos, assistem a mais uma partida do Campeonato Carioca. O clima de subúrbio toma conta daquela tarde. O romantismo, entretanto, não paga as contas das centenárias equipes. Lembrar Domingos da Guia não deixa o Bangu ‘no azul’; exaltar Ronaldo Fenômeno não devolve o São Cristóvão a elite do Rio. Nos clubes de menor investimento não há jogos contra times grandes em seus estádios, não há cota de TV, não há transmissão. O que existe, de fato, são troféus empoeirados em algum cômodo de suas sedes, e o cantinho da esperança guardado na mesma sala, esperando glórias futuras.

Um samba clássico do paulistano Adoniran Barbosa versa sobre a vontade que há em um senhor de idade de mostrar para o mundo que um dia ele foi uma ‘brasa’: famoso, badalado, pop-star. Afundado no ostracismo, o personagem da música garante que, ‘se assoprarem’, a brasa pode acender novamente. Clubes de bairros tradicionais do Rio cantam os mesmos versos de ‘Já Fui Uma Brasa’. Precisam de carinho e atenção de torcedores e imprensa, para deixarem as denominações de ‘zebras’ e ‘pequenos’ e, enfim, voltarem para os holofotes da bola.


Exaltação necessária para voltar a ser charmoso

Marcos Coelho

Purgatório da beleza e do caos, não só nos contrastes apresentados em suas paisagens e classes sociais, mas também no futebol. O estado do Rio de Janeiro vive um momento conturbado, ainda mais grave quando falamos sobre os times de menor investimento, também chamados de ‘pequenos’ pela grande massa. Este termo usado para chamar tais equipes, muitas centenárias, contribui com um nivelamento por baixo das nossas competições estaduais, principalmente no Campeonato Carioca, apontado por muito tempo como o mais charmoso do Brasil.

Talvez o melhor exemplo de comparação seja o estado de São Paulo, onde as surpresas são chamadas de ‘clubes emergentes’ e têm seus jogos, pelo menos das três divisões principais do futebol estadual, com transmissão da TV. No Rio, agremiações centenárias como America, Bangu, Madureira e outros mais, quando beliscam pontos dos quatro gigantes são chamadas de ‘zebras’, quase nunca de ‘emergentes’. Somos conscientes para saber que a mídia não é responsável por tal panorama. Mas o tratamento, ou a falta dele, contribui demasiadamente. Em alguns casos, temos até a inexistência.

Times de menor investimento só recebem atenção quando figuram entre os quatro primeiros colocados, revelam alguma promessa ou chamam atenção por conta de dívidas constrangedoras. O último exemplo é o mais tradicional. Para ver um time pequeno em ação, o torcedor precisa esperar um duelo contra um time grande ou recorrer ao “dial”, ouvindo rádios locais ou webrádios que transmitam as partidas entre os pequenos. Para ver, só indo ao estádio ou esperar até o dia seguinte, quando a Federação publica em seu site oficial os lances dos gols de cada partida.

Hasta la victoria, Madureira

Um bom exemplo disso é o Madureira. O centenário do clube foi mais exaltado por conta das camisas comemorativas. Mas poucas pessoas sabem que em 2014, por muito pouco, o time quase subiu de divisão no Campeonato Brasileiro. Disputou o jogo mais importante de sua história, contra o CRB, em Maceió. Perdeu por 2 a 0 e seguiu na Série C. Aqui no Rio, quase ninguém viu. Só é possível ver em casos de boas campanhas no Campeonato Carioca, como acontece em 2015. Nos outros oito meses do ano, só os meios de comunicação citados anteriormente.

Outro que serve de exemplo é o Macaé. Um time municipal, que com um bom time subiu de divisão e na Série B, ao lado do Botafogo, vai representar o Rio de Janeiro no Campeonato Brasileiro. A torcida é pela manutenção, ou quem sabe por um novo acesso. Mas fica o alerta da situação passada pelo Duque de Caxias, que em 2008 fez uma campanha digna na Segundona do Brasileirão e hoje joga a Série D, alem de ter sido rebaixado no Campeonato Carioca.

Descendo um pouco mais, temos a sensação das divisões inferiores do Rio de Janeiro: o Gonçalense. Fundado em 2013, o clube foi campeão da Série C do Carioca no ano seguinte e, com um bom time, é um dos mais cotados para chegar à elite em 2016. No lado financeiro, nenhuma pindaíba como a que vive seus companheiros de divisão, o que é um ponto a favor. Há um estádio em construção, com planos de expansão até alcançar 43 mil presentes.

Donos dos melhores centros de treinamentos do estado, Tigres do Brasil e Nova Iguaçu vivem em um constante processo de idas e vindas entre as divisões do futebol carioca nos últimos anos. Em contrapartida, o Campo Grande, campeão da Taça de Prata de 1982, (equivalente à Série B do Campeonato Brasileiro) dono de um estádio que já suportou mais de 20 mil pessoas, está sem divisão no estadual.

Revelado pelo Bangu, o zagueiro Domingos da Guia foi imortalizado no hino do clube

É hora de olharmos com mais carinho para os nossos times de menor investimento. Hora de parar de chamá-los de ‘pequenos’, ‘zebras’ ou coisas do tipo e adotarmos os termos ‘emergentes’, ‘tradicionais’, ou outros adjetivos positivos. Com mais carinho e divulgação, é possível contribuir com o retorno das glórias de America, Bangu, Olaria, Bonsucesso, São Cristóvão… E quem sabe revelar novos jogadores como Ronaldo, Leônidas e Dadá Maravilha. Até porque não adianta ser charmoso sem exaltar tal charme.


(Marcos Coelho é jornalista, repórter do site e webrádio FutRio.net, o maior portal sobre os clubes de menor investimento do Rio de Janeiro)