quatro narrativa curtas
Lista de compras
Óleo, arroz, feijão, macarrão, pão integral, sabonete, cotonetes, desodorante. Olhou a lista. Tudo ali no carrinho. Olhou as gôndolas. Que diabos é isso se chamar gôndola? Foi até os frios, pegou um iogurte de morango, um pote de manteiga, um requeijão. Ficou parado na frente da brisa fria pensando o que mais faltava. Tudo ali, mas faltava alguma coisa. Depois chegaria em casa, o blá, blá, blá de sempre, que não tinha atenção pra nada, que não fazia nada direito. Viu a mulher de pé ao lado da pia olhando as sacolas. Macarrão parafuso Osvaldo? Sinceramente, eu disse penne, PENNE. E então viu o avental sujo de sabão, as panelas sujas, a pia pingando e abaixo desta o armário com a porta em MDF branco rabiscado de tinta azul. O carro. Tinha largado o menino no carro. Voou pelos corredores. Lá fora o sol comia as lajes do estacionamento, o sol de janeiro de Brasília, o sol do cerrado e dos calangos. Viu sua vida se partindo como um espelho. Abriu aos prantos a porta, a lufada de ar quente veio como um forno. O pai miserável que abandona o filho na cadeirinha, o monstro que vai estar nos jornais do dia seguinte, o louco sem miolos que… Cadeirinha vazia. Quarta-feira o menino ia para a casa da avó. Sentou no concreto e chorou. Depois secou a cara na camisa e voltou para o setor de limpeza. Detergente, esqueceu do detergente.

Terceira Guerra Mundial
Vanessa?
Ricardo?
Três beijinhos. Ela era bonita, um pouco maquiada demais, mas interessante.
Que loucura.
Pois é.
Ele sabia como escolher um bom Chianti. Ela ficou impressionada.
Me fale de você.
Ela disse o que ele já sabia. Ele disse o mesmo pra ela. Conheciam-se de uma forma quase que completa. Viagens, empregos, últimos livros lidos, tudo isso no perfil de uma rede de relacionamentos virtual.
Defeitos?
Ela não havia sido muito específica nessa área. Mau humor matinal, falta de paciência com crianças, ele precisava de mais. Ela confessou que roubava de lojas de cosméticos uma vez por mês e mostrou um rímel recém roubado.
Hoje?
Antes de vir para cá.
Ele ficou obrigado a dar uma carta grande. Disse tinha inveja de um amigo da firma que havia comprado um carro novo, por isso foi ao estacionamento e riscou o carro com a chave de casa.
A chave entortou, tive que fazer outra.
Comeram. Veio a conta e ele pagou. Na saída ele ofereceu a ela um garfo e uma faca com as iniciais do restaurante. Ela ficou encabulada e pediu o telefone do amigo dele.
Para quê?
É casado?
É.
Deixa comigo.
Discou do telefone dela, quase meia noite, e mandou uma mensagem maliciosa com uma foto sua sensual, a mesma do seu perfil privado da rede.
Riram. Haviam se encontrado no mundo e graças a eles a Terceira Guerra Mundial tinha sido iniciada.

Pacote de dados
Eu gostaria de falar com o senhor Carlos.
É ele.
Carlos aqui é da companhia de telefonia. Temos um plano imperdível para o senhor.
Eu não tenho interesse.
É um plano com mais 500 minutos de ligações locais, mais internet liberada, SMS e desconto num novo aparelho.
Realmente não me interessa.
O senhor terá três meses de descontos exclusivos. É uma oportunidade única, para poucos clientes.
Muito obrigado, mas não me interessa.
O senhor terá passe exclusivo para qualquer época pelo nosso serviço de viagem no tempo.
Eu não… espere. O que?
Basta habilitar a linha e enviar uma SMS para *4478 que o senhor será direcionado para uma viagem no tempo com duração de 15 minutos.
Deixa ver se eu entendi.
Valores adicionais poderão ser cobrados de acordo com a franquia do seu plano. O senhor gostaria de participar?
Eu não sei.
(silêncio)
Senhor?
Sim.
É uma oportunidade única, poucos clientes terão este privilégio.
Sim. Eu quero.
Aguarde um momento por favor (som de cliques). A sua linha está habilitada. Obrigado pela atenção e tenha uma ótima tarde.
Olhou atônito para o celular, depois digitou o código e enviou a mensagem. Veio em resposta uma SMS com os seguintes dizeres:
Digite o ano que pretende visitar e data. Em seguida clique em jogo da velha e digite o local.
1789, 14 de julho. #Paris.
Apareceu no meio de uma turba. Fumaça, gritos, bandeiras. Antes que pudesse crer em seus olhos um revolucionário cortou sua garganta com uma espada. Mort au roi! No final do mês receberia um conta astronômica por uso excedente do pacote de dados.

Para Roberto Arlt
O detetive particular Pedro Russo tem um novo caso. Uma senhora maravilhosa que vive no centro de Buenos Aires. Toda quarta vai ao pilates, nas quintas aulas de pintura e na sexta vai a feira de San Telmo, onde sempre compra copos de leite. Senhora digna, quarenta e poucos, solteira e sem namorico. Na banca de revistas da Alvear compra sempre a Marie Claire americana. Não a argentina, a americana.
Terceiro mês de observação e nada fora do comum. No fim de setembro foi visitar a irmã que tinha uma pousada em Mendoza. Pela escuta ouviu apenas receitas de bolos, dicas de beleza. Em outubro uma festa infantil de uma das amigas do pilates chamada Olga, casada com um importante empresário do ramo de tecidos. Em novembro comprou um par de sapatos Tommy numa loja em Recoleta e na saída deu o troco a um homem descamisado. Comia sempre no Baldaquim, um restaurante modesto, onde pedia sempre a mesma coisa: salada Cesar e água com gás.
Naquela tarde Russo voltou para o escritório na Corrientes e encontrou-se com o contratante, um rapaz de vinte e poucos muito bem vestido e delicado. Falaram do mesmo. A rotina santa, a falta de falhas, o bom gosto. Recebeu o salário para mais dois meses de investigação e entregou o relatório ao rapaz.
Decidiu segui-lo. Rafael Berliz. Trabalhava numa firma de advocacia em Porto Madero, filho de família nobre de Montevidéu, boas notas, carro novo, namorada modelo fotográfico de uma agência brasileira. Em dezembro se encontraram novamente, o rapaz parecia atribulado.
_ Veja bem, essa senhora é o tipo que não esconde nada. O meu trabalho é achar os podres de alguém. Ou o senhor me diz que diabos está acontecendo ou vou eu mesmo até ela e ponho as cartas na mesa.
O rapaz começou a fungar e chorar. A senhora era sua mãe, que o abandonara bebê num orfanato em Ushuaia. Achou-a graças a uma ação de venda de imóveis. Precisava ver se era a ingrata capaz de largar o filho, precisava saber que vida levava, que coisas fazia e lhe faltava coragem de ir até ela pessoalmente. E ainda mais chegava o natal e seu coração começava a apertar.
Beberam um trago. Russo não sabia por onde começar. Anotou para ele o dia e a hora em que a senhora batia pernas na feira e deu ao rapaz um único conselho.
_ Compre um buquê de copos de leite.

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