Um vazio nas pernas
Era metade de agosto, já passava das nove naquela manhã em que fazia um calor incomum pra época, quando Tião, o melhor detetive de Guarulhos, acordou assustado.
- Caralho, nove e meia — resmungou olhando o relógio
Permaneceu deitado, na velha cama desconfortável, enrolado em seu cobertor cinza. Via-se apenas seu rosto cansado, os olhos grandes, nariz fino e pontudo, orelhas abertas e compridas, e a barba por fazer que começava a apresentar fios brancos nas bochechas e no meio do queixo.
Passaram-se alguns segundos, que pareciam horas, quando Tião lentamente começou a se levantar. Primeiro sentou, revelando o peitoral magro e côncavo. Jogou o cobertor pro lado, revelando os braços finos e veiudos.. Colocou os pés no chão, mostrando as canelas finas e os joelhos levemente tortos.
Quando Tião finalmente se levantou, revelando a bunda esquelética, notou um surpreendente vazio no meio das pernas.
Ao notar o estranho vazio, onde costumava ficar o pênis, Tião se desesperou. Soltou um grito, grito que durou uns bons segundos e foi ouvido por toda a vizinhança. Em seguida, apalpou a região, ainda incrédulo.
- eu … cadê… minha pica? — murmurou confuso
Tião estava em choque. Não sabia o que fazer, nem por onde começar a procurar. Entender a situação, naquele momento, era tarefa impossível. Por impulso, começou a revirar aquela pocilga de pouco mais de 30 metros quadrados em que morava , esperando encontrar seu membro.
Checou no monte de roupas, jogado no canto, aquelas que levaria pra sua mãe lavar, e nada. Na arara com algumas camisas e uma calça penduradas, também não. Na mala dura em que deixava suas cuecas e meias, nem sequer um vestígio. Em cima da televisão de tubo 14 polegadas, na escrivaninha, na única gaveta da sala/quarto, e nada. Naquele espaço, nada, nem mesmo uma agulha, poderia sumir sem que qualquer pessoa percebesse. Um detetive então, se perdesse algo ali, deveria mudar de profissão. Além do mais, ninguém alcança o titulo de melhor detetive de Guarulhos sem ter uma boa percepção e observação aguçada.
Tião foi ao pequeno banheiro, e revirou o armário atrás do espelho, outra vez sem sucesso. Na tímida cozinha, menor que o banheiro, vasculhou as três gavetas, o único armário, o micro ondas e o frigobar. Nada.
Voltou a cama e sentou estupefato. Como era possível seu pênis sumisse da noite pro dia ? Num impulso, sacou o celular e telefonou.
- Rosana, cadê minha piroca cacete?
- Oi ?
- Minha piroca Rosana, eu sei que você tem alguma coisa com isso.
- Vá se tratar!
Rosana foi esposa de Tião, num casamento de dois anos que não acabou em morte por preguiça. Brigavam e se traiam desde os primeiros dias, e assim foram até o fim. Rosana oferecia as comodidades de uma doméstica, enquanto Tião a provia com uma vida sem luxos, mas razoavelmente decente e sem dificuldades. E tudo sem que ela precisasse trabalhar.
Ela gostava de ficar em casa, fumar Minister e transar com o entregador de Gás, enquanto ele investigava adúlteros, charlatões e corruptos, entre uma ida e outra ao bordel, mais pra beber do que fazer o que se faz em bordéis. Quando chegava bêbado,encontrava-a chapada e discutiam muito. Fosse pela mecha grisalha do William Bonner, que aumentou ou não, ou pela alíquota do IPI para automóveis de fora do mercosul, pela moela da galinha caipira, ou pela ultima laranja da geladeira, as brigas eram cada vez maiores e mais constantes.
Quando Tião criticou o feijão tropeiro que Rosana preparou numa quinta-feira a noite, e ela, ofendida, o ameaçou com uma faca cega, ele pegou suas coisas e foi embora de casa, indo parar naquele cortiço, no prédio com o apelido de Treme-treme.
E lá estava ele, sentado na cama , perplexo com o desaparecimento. Na noite anterior havia visto seu membro, murcho, encolhido do frio, quase inútil, enquanto tomava banho. Não iria sair, nem esperava nenhuma visita feminina, ou um boquete surpresa, então não deu muita atenção a ele na hora de se lavar. Lembrou que antes de dormir havia checado a presença do membro pois, sentira um comichão nas bolas, que foi prontamente remediado com uma violenta coçada.
Tião então começava a se perguntar o que de fato havia acontecido. Onde teria ido parar seu pinto ? E o principal, por que diabos ele não estava onde deveria?
Tião caia agora no auto julgamento que sempre surge diante da perda. Se punia pensando que nos últimos tempos não vinha usando sua rola como se espera de um sujeito viril de 32 anos, usando-a constantemente para mijar, e algumas vezes por semana quando espiava o Xvideos ou o PornIQ.
Sentia-se agora arrependido e depressivo, lamentava cada segundo que havia desperdiçado quando tinha tudo no lugar. Era como o soldado que perdeu as pernas no campo de batalha.
Pensava, com temor, em como seria o banho depois do futebol de terça-feira, ou a sauna do clube no domingo. O que ele faria pra usar sua sunga vermelha na praia ? Como usaria um mictório, ou mesmo uma latrina turca, nos banheiros públicos ? A cada questão levantada, Tião chafurdava mais e mais no abismo que havia criado.
“Recomponha-se homem, quão longe uma pica pode ir, e mais, como poderia ela sumir da vista do maior de todos os detetives de Guarulhos” disse uma voz em sua mente. Seguindo a consciência Tião se recompôs, e decidiu partir em busca de sua pica. Vestiu uma calça jeans surrada, uma camisa branca, botas de trabalho e um sobretudo, pois todo bom detetive usa um sobretudo. Pegou também sua boina italiana do camelô e abriu a porta. No capacho, onde lia-se “Oh não, você de novo” havia um envelope branco, endereçado a ele. Tião abriu o envelope e leu, letra por letra, a carta.
“Ao meu grande companheiro,
Caro Tião, é com pesar que hoje nos separamos. Depois desses 32 anos da mais intima e confidente relação, hoje, em prantos, me despeço.
Lembro com muito carinho de quando nos conhecemos. Não sabíamos o que estávamos fazendo, nem mesmo qual era nossa função na vida do outro. Na raras vezes que nos víamos, tínhamos contatos rápidos e sem muito sentido. Lembro ainda de como sua mãe me olhava, com estranheza, enquanto seu pai demonstrava orgulho.
Com o passar dos anos fomos tendo mais contato e nos entendendo cada vez mais, e sou grato a você até hoje por ter cuidado de mim com tanto carinho e atenção, mesmo sendo tão jovem, quando fui amputado naquela operação tão precoce.
Mais tarde, lembro de você me mostrando, como um pavão, aos seus amigos, orgulhando-se de meu tamanho. Éramos os maiores, os melhores, ainda que não tivéssemos entendido que isso significava.
Abrimos os olhos pro mundo, e passávamos horas no chuveiro, em baixo d’água, refletindo e treinando mentalmente pros desafios da vida adulta. Com carinho me vem a imagem da Fernanda, nossa primeira homenageada, depois, a Barbara, a primeira a quem fui devidamente apresentado. A Joyce, linda menina, foi meu primeiro beijo. Talvez o que mais nos tenha marcado foi o dia em que seu tio nos levou aquela pequena casa onde morava a Kelly. Ali eu conheci um lugar quente, escuro e úmido, uma caverna, e cavernas são, até hoje, meus lugares preferidos em todo o mundo.
Nessa época também, criamos interesses mútuos. O cinema das brasileirinhas, a playboy, com as ótimas entrevistas que você até hoje propagandeia, os contos eróticos, a fotografia, a internet… e relembrar tudo isso enquanto estávamos no nosso templo, o banheiro.
Mas como nem tudo são flores, foi também nessa época que você Tião, naquele tempo Tiãozinho, começou a me questionar. É um pesadelo quando me recordo quando vimos aquele DVD do Kid Bengala. Você ficou semanas me medindo com uma régua. Me torturava, fazendo aqueles exercícios bizarros, sempre tentando fazer de mim algo que eu não era, nem nunca seria e aquilo me doía, me machucava.
Mais tarde, quando entrou aquele garoto negro na sua escola, você me escondia cada vez mais. Quantas e quantas vezes você evitava o banheiro do colégio para não me revelar aos outros ?
Mas rapidamente superamos essa fase, depois que seu pai lhe presenteou com aquele automóvel. Que tempo bom aquele ! Você me apresentou o mundo, um mundo de drive-ins, motéis, bordeis, matagais e lugares dos mais variados, e muitas cavernas que eu explorava. Claro que aquele ritmo era difícil de ser mantido, ainda mais com a quantidade cavalar de álcool que ingeríamos, mas aqueles foram nossos anos dourados.
Mas no fim, você conheceu a Rosana, e com ela visitávamos a mesma caverna todo santo dia. Visitas que passaram a ser semanais, quinzenais, mensais, e, no fim de tudo, elas não mais aconteciam.
E desde então vivemos nesse marasmo. Nos vemos em ocasiões burocráticas. Acabou nosso sentimento, nossa sinergia. É claro que eu esperava isso, apenas me surpreendeu que fosse tão cedo.
Não leve isso a mal, acontece com todo mundo, e não é culpa sua, nem minha, nem de ninguém.
São as coisas da vida
Espero que nos reencontremos em breve
Com amor,
Seu pau”
Tião estava perplexo, travado, sem reação. Não conseguia mexer um músculo sequer. Apenas uma lágrima escorria pelas maçãs agora rosadas de seu rosto. E ele ficou lá, imóvel, mergulhado na nostalgia e arrependimento que a carta trouxera.
Lembrava-se de Rosana, e de tudo o que havia passado até então. Como pudera ser tão displicente com sua masculinidade ? Fosse como fosse, Tião, já assimilando a ideia entrou em conflito. Devia ele partir como um bom detetive em busca de sua piroca? Ou respeitaria a decisão, ainda que a contragosto?
Voltou pra dentro do cubículo que era seu lar, sentou no chão e releu a carta por mais algumas vezes. Lembrou-se. em detalhes, de cada uma das mulheres que passaram por sua vida e que, a exceção de Rosana, fizeram exatamente o mesmo que seu pinto.
Logo Tião realizou que de nada valeria correr atrás do pau, como não valeu correr atrás da Fernanda, da Joyce, da Marta. Por melhor investigador que fosse, sabia que encontraria onde quer que fosse uma piroca feliz, mudada e decidida a seguir em frente. Já era um costume em sua vida.
Tião então pegou a velha lista telefônica que ficava em baixo de sua cama. Marcou aulas de piano, de datilografia, de escalada. Fez algumas flexões com a ponta dos dedos. Então saiu, em busca de mais uma investigação que lhe desse prazer.