O essencial é invisível aos olhos

Quando se passa a viver numa cidade grande, você começa a perceber quão individualista o mundo se torna. Em minha nova vida de estudante de jornalismo, comecei a morar em Bauru. Não que seja a maior das cidades do país, mas perto de minha querida Ibitinga é uma metrópole. Todos os dias acordo cedo, tomo meu café, como uma torrada e parto ao ponto de ônibus. Passo por alguns nesse trajeto. Cada um em seu próprio mundinho, isolado de seu entorno. Sento para esperar o próximo ônibus. Mais gente aparece para dividir a espera. Esta é a linha que leva até o Hospital Estadual, à SORRI-BAURU e à própria universidade, então o movimento é ligeiramente grande, dependendo do horário. Nem olham para meu rosto. Subo. Passo da catraca. Como costumo descer ao ponto bem adiantado, geralmente não encontro ninguém do meu curso. Mas o ônibus, na maioria das vezes, está cheio. Um está sentado, de cabeça baixa, quase dormindo; outro com seu fone de ouvido, sem olhar para os lados; mais um, dessa vez com uma cara emburrada e de poucos amigos. Fico pensando. Onde será que foi parar aquela típica cara do interior, de pessoas se cumprimentarem, puxarem papo mesmo sem assunto, se conhecerem, serem humanos? Em Bauru, ao menos por enquanto, não descobri quem faça algo parecido. Em Ibitinga, cada vez mais fica raro ver isso também.

Fui passar o fim de semana anterior na casa de meus tios, em Bebedouro. No meio da confusão que é o fim de semestre na faculdade, resolvi ir e espairecer, esvaziar um pouco a mente, antes que desse uma pane geral neste que vos escreve. A viagem é um tanto longa. Rádio ligado, observo a paisagem enquanto vamos. O caminho escolhido permite descobrir um pouco de lugares aos quais nunca pensei em ir. Passamos por Tapinas, Santa Adélia, Ariranha, Pirangi. Juntos, essas três cidades e um distrito de Itápolis somam cerca de 40.000 habitantes. Não chega a um décimo de Bauru. Não chega nem à população de Ibitinga. O reflexo da cidade pequena do interior: pouco movimento, pessoas sentadas na calçada batendo papo, ou então no bar do lado, tomando uma cerveja, um refrigerante e falando da família, dos amigos, do cachorro. O mais próximo de algo parecido que já vivi são as conversas de domingo, depois do almoço na casa da minha avó. Todos vão para a frente da casa, sentam-se nas cadeiras ou mesmo no chão e começam a conversar. Fala-se de tudo. Tirando os finais de semana, não vejo mais isso. Cada um fica em sua bolha, não dá a mínima atenção a quem vem do lado.

Fiquei um tempo com isso na cabeça. Lembrei de um trabalho que meu professor de Técnicas de Reportagem passou para fazermos. Uma reportagem (ora, nem imaginei que seria isso). Um dos grupos na sala decidiu dar uma merecida atenção a algumas pessoas que passam despercebidas em nosso dia-a-dia de faculdade, talvez por não mais olharmos na cara um do outro. As meninas desse grupo irão falar um pouco sobre as funcionárias da limpeza. São aquelas pessoas indispensáveis, importantíssimas para o melhor funcionamento de nosso cotidiano, mas que nem sequer sabemos o nome, nem sequer falamos um “bom dia, como vai? Estou bem, obrigado”.

O sonho de quem tornou-se invisível. Esse é o nome da reportagem de minhas amigas Caroline Oréfice e Victória Rangel, na qual apresentam um pouco sobre a vida das faxineiras, que dão seu suor para tornar mais agradável o viver na universidade. São pessoas como todos nós, com seus sonhos, suas alegrias e suas dificuldades. Elas não reclamam do trabalho que realizam; muito pelo contrário, sentem orgulho de exercer a profissão. Mesmo assim, não descartariam a oportunidade de buscar um novo emprego se a tivessem. Algumas queriam ser professoras, veterinárias, psicólogas, empresárias e até mesmo aeromoças. São pessoas com muito a dizer, só falta quem as ouça.

Todo dia, quando vou almoçar no restaurante da faculdade, sempre me deparo com uma funcionária de felicidade descomunal e contagiante. De fato, como pontuei no parágrafo anterior, não sei seu nome. Mesmo assim, a cada pessoa que chega, ela profere um caloroso “bom dia, meu querido!” É interessante ver como há sempre alguém em nosso dia-a-dia que, mesmo sem receber atenção, trata-nos bem. Talvez devêssemos sair das bolhas, olhar para os lados. Por mais “macros” que sejam os lugares, relações mais humanas como vemos nos pequenos ambientes, são bem-vindas. Como diz Saint-Exupéry, “só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”.


Apenas algumas palavras de uma pessoa pensante… João Pedro Pinheiro, 18, é aluno do curso de Jornalismo na Unesp Bauru e escreve crônicas em seu blog.
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