(Foto: Rio 2016/Alex Ferro)

Os legados das Olimpíadas

O que os Jogos Olímpicos do Rio podem deixar de positivo ou não para a cidade e para o país?

Ingrid Midory, João Pinheiro e Valquiria de Carvalho (01/06/2016)

Nota: A reportagem a seguir faz parte de uma coletânea de reportagens sobre as Olimpíadas do Rio de Janeiro, na qual reportamos as expectativas um mês antes do início das competições. Veja a mais recente reportagem em “Os legados pós-Olimpíadas”.


O céu a perder de vista sobre aquele trecho da Niemeyer em São Conrado foi a última paisagem a preencher o campo de visão do empresário Eduardo Marinho, em mais uma de suas habituais corridas pela ciclovia Tim Maia. Impressionadas, algumas pessoas, nas proximidades da ciclovia, fotografavam as ondas inusitadamente altas. As mesmas ondas responsáveis pelo desmoronamento do trecho por onde Eduardo percorria. A cena que se sucedeu a esta tragédia não repercutiu apenas na imprensa nacional. Leitores de outras nacionalidades também compartilharam do mesmo sofrimento pelo qual passaram a esposa e o cunhado da vítima ao reconhecerem o corpo do empresário. Mais uma vez, a polêmica sobre a realização de um dos maiores eventos esportivos mundiais é levantada.

Em cima da hora?

Eduardo Marinho não foi o único. Outro corpo, não identificado, também foi encontrado. A obra, inaugurada três meses antes do ocorrido, era apresentada como um dos legados dos Jogos Olímpicos.

Os relatórios mensais de acompanhamento da construção, produzidos pela Secretaria Municipal de Obras e pela construtora Concremat em abril, maio e junho de 2015, não consideraram as ressacas do mar, muito comuns no trecho, como risco à obra e aos operários. Os documentos apresentam como perigos o tráfego intenso da Avenida Niemeyer, a inclinação da encosta e a proximidade de áreas urbanas, porém, as ondas não são apontadas em nenhum deles como um risco. O primeiro dos relatórios, de abril, afirma apenas que a região “é considerada zona de respingo de maré, o que aumenta o grau de dificuldade de execução das obras”.

Vista da Ciclovia Tim Maia, após o acidente. (Foto: Matthew Stockma/Getty Images)

Seguindo algumas medidas, a ciclovia poderia ser mais segura. “O que tem de ser feito é óbvio: que haja algo que suporte a ação das ondas e também um sistema de alerta que feche a ciclovia, em caso de ressaca. Ainda que a estrutura fosse forte, teria ocorrido a tragédia, porque as pessoas seriam engolidas pelo mar”, afirma o engenheiro Paulo Cesar Rosman, do Programa de Pós-graduação em Engenharia (Coppe) da UFRJ.

Este é apenas um exemplo das consequências da construção de obras de última hora. A menos de 100 dias para o início dos Jogos, várias das promessas estão em atraso. A Linha 4 do metrô, o velódromo e o Engenhão podem ser incluídos na lista. Inclusive algumas instalações ditas prontas não foram finalizadas de fato.

Foi o caso do estádio Aquático Olímpico, inaugurado no início de abril para sediar o Troféu Maria Lenk, mas fechado ao público por conta das obras que ainda eram realizadas no local. Entretanto, segundo a Prefeitura do Rio, a obra está “100% concluída”.

Estádio Aquático Maria Lenk, construído para o Pan de 2007 e reformado para a Olimpíada. (Foto: Buda Mendes/Getty Images)

O Engenhão, estádio construído para o Pan de 2007, que sediará competições do atletismo e do futebol, por sua vez, passa por uma grande reforma. 15 mil cadeiras temporárias serão instaladas e toda a pista de atletismo será substituída. A obra, ao todo, está orçada em 50 milhões de reais. A partir da segunda (16), o local será sede do Campeonato Ibero-Americano de Atletismo, um dos eventos-teste, que, provavelmente, ocorrerá nas mesmas condições do Maria Lenk.

Contudo, a maior preocupação é com o Velódromo, no Parque Olímpico da Barra. Prevista para o ano passado, a contrução, cujo custo ultrapassa dos 140 milhões de reais, está somente 85% pronta. O evento-teste programado para o mês de abril foi cancelado por conta disso.

Até mesmo o prefeito do Rio, Eduardo Paes, demonstrou sua preocupação com o local. “O maior desafio e a obra que tivemos problemas e escorregou o prazo é o Velódromo”. Mesmo assim, Paes afirmou que as obras estão dentro da reprogramação, e que o Parque Olímpico em geral já está 98% finalizado.

Parque Olímpico da Barra ainda em construção. (Foto: Estadão Conteúdo)

Quanto à mobilidade, a Linha 4 do metrô encontra-se ameaçada por conta dos atrasos. Segundo o Governo do Estado, o “trecho olímpico” estará entregue até julho. Uma data não foi estipulada. À vista de qualquer imprevisto, porém, os trens podem não estar em funcionamento até o início da Olimpíada, no dia 5 de agosto.

Para agravar a situação, a violenta ressaca da última semana de abril levou consigo não apenas a estrutura física da ciclovia, como também a credibilidade dos engenheiros responsáveis pelas construções.

Promessas não cumpridas

Mesmo quase dois anos após a Copa do Mundo, muitas das “obras-legado” do evento ainda não foram sequer terminadas. Um estudo da Fundação Dom Cabral, em parceria com a Universidade Griffth (Austrália), para avaliar o legado da Copa no Brasil apresentou diversas conclusões negativas.

O estudo aponta que os investimentos poderiam ser mais bem empregados em outros setores, para maior benefício à população. As principais críticas foram voltadas aos estádios, com orçamentos superfaturados e baixo custo-benefício. Os principais exemplos são os estádios em Natal, Manaus, Cuiabá e Brasília, em regiões sem um campeonato de futebol expressivo o suficiente para justificar os mais de 40 mil lugares nas arquibancadas.

Na capital amazonense, a Arena da Amazônia segue sem utilidade definida. O estádio menos usado depois da Copa custou 670 milhões de reais. A manutenção mensal de mais de R$ 500 mil fica por conta do Governo do Estado. Mesmo com toda a arrecadação de todos os eventos ocorridos, a Arena da Amazônia registra um prejuízo de mais de 4 milhões desde sua inauguração.

Cuiabá é outra cidade cujo estádio registra prejuízos. A Arena Pantanal, embora tenha recebido jogos, também não consegue cobrir os gastos mensais de manutenção, quase 1 milhão de reais. Além disso, o prometido VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) ainda não foi concluído. Os vagões já chegaram a ser entregues, mas os trilhos não prosseguiram. Apenas uma estação está pronta. As obras só estarão em uso a partir de 2018, segundo as previsões atuais.

Outro VLT que não foi totalmente entregue é o de Fortaleza. O Governo do Estado rompeu o contrato com o consórcio que iniciou a obra, que agora não tem prazo para ser entregue. Assim como no Aeroporto Internacional de Fortaleza, cujas obras não foram finalizadas.

Em Porto Alegre, 10 das 14 obras previstas para a Copa não foram entregues. Até mesmo o Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, sede dos Jogos Olímpicos em agosto, não esteve pronto a tempo para o Mundial.

Os temidos “elefantes brancos”

Outra questão preocupante quanto às construções para grandes eventos, como a Copa e a Olimpíada, é a utilidade das obras e seu aproveitamento após a realização dos mesmos.

Após a Copa de 2014, o Brasil ganhou os noticiários mundiais com notícias críticas aos gastos excessivos e que não trariam retorno à população. A competição, que deveria alavancar a imagem de um Brasil moderno, apenas manchou mais a reputação do país, criando um clima de tensão em relação à Olimpíada desse ano.

A maior parte da cobertura jornalística do exterior apresentava um tom negativo em relação aos gastos, aos protestos, à violência, ao atraso das obras, entre outros fatores. Uma das reportagens mais críticas foi feita pela agência Associated Press e publicada em diversos veículos.

“O Brasil gastou bilhões de dólares renovando e construindo estádios da Copa do Mundo que deveriam ajudar a modernizar e melhorar o futebol local. Quase um ano depois do fim do torneio, o país ainda está tentando decidir o que fazer com eles”, dizia a AP.

Os problemas com “elefantes brancos” também atingiram outras sedes de Olimpíadas. As últimas quatro cidades que receberam o evento tiveram como justificativa planos de legado, mas que nem sempre acabaram sendo cumpridos.

Os Jogos de Londres 2012 possibilitaram um grande desenvolvimento da região leste da cidade, com descontaminação de solo e plantio de árvores. Após o evento, vários parques públicos foram inaugurados. Entretanto, o número de pessoas que não praticam nenhum esporte aumentou e muito recentemente. Com o aumento do preço no ingresso de piscinas públicas, por exemplo, quase 400 mil deixaram de praticar natação. Além disso, o Parque Olímpico Rainha Elizabeth, que custou cerca de 13 bilhões de dólares e é considerado um “elefante branco”, é motivo de muitas críticas.

Pequim foi uma cidade muito beneficiada com os Jogos de 2008. Novas linhas de metrô foram abertas e leis restringindo o número de carros em circulação foram aprovadas. Contudo, o crescimento desenfreado da cidade tornou mais grave os congestionamentos, problemas sociais e a poluição. Duas das principais obras para o evento, o Estádio Ninho de Pássaro e o Cubo d’Água, hoje estão praticamente abandonadas.

A Olimpíada de Atenas, em 2004, é considerada uma das principais culpadas pela crise que a Grécia enfrenta atualmente. Os gastos ultrapassaram o dobro do previsto originalmente. O Complexo Olímpico Helliniko, que deveria ser o grande marco dos Jogos, encontra-se hoje quase todo abandonado e à venda. Algo de bom que pode ser citado é o aumento no número de turistas, que dobrou em 10 anos.

Sydney talvez seja a cidade que mais apresenta legados positivos, desde os Jogos de 2000. As instalações criadas para a Olimpíada têm recebido diversos eventos todos os anos. O legado ambiental também foi grande. Com o evento, houve o investimento no maior parque metropolitano da Austrália, além do primeiro sistema de reciclagem de água do país. Mesmo assim, financeiramente, há críticas. Segundo dados da Universidade de Melbourne, os Jogos causaram um rombo de mais de 2 bilhões de dólares aos cofres australianos.

A “hype” Olímpica

Em todos os casos de cidades sedes citados, há algo em comum: grandes eventos esportivos causam impacto social, econômico, ecológico, e inclusive político. Sejam eles positivos, neutros ou negativos.

Entre os investimentos realizados, o setor de transporte têm recebido uma atenção especial no Rio de Janeiro, mesmo que nem todo o planejado tenha sido realizado dentro do prazo. Ao menos, duas linhas recém-construídas de BRT (Bus Rapid Transit), a TransOeste e a TransCarioca, estão operando. Há previsão de inaugurarem a BRT TransOlímpica a tempo. As grandes beneficiadas destes investimentos serão a região portuária e a Zona Oeste. A primeira, rica em sua história, a mais antiga área da cidade, demanda revitalização. Turistas poderão conhecer o sítio arqueológico Cais do Valongo.

Já a Zona Oeste, que concentra quase metade da população carioca, foi escolhida para sediar o Parque Olímpico e o Parque Deodoro; decisão que trouxe consigo uma ampliação da rede de transporte da região. Não há dúvidas: a vida das pessoas que moram nestas regiões sofrerá um impacto maior com o que está por vir. E são, de longe, em comparação com os demais brasileiros, quem mais serão impactadas pelas Olimpíadas.

Em contrapartida, o aspecto econômico, mais propenso a interpretações e consideravelmente mais abstrato, tem sido alvo de divergências. Num primeiro momento, quando ainda não se tinha escolhido a cidade-sede das Olimpíadas de 2016, o Ministério dos Esportes encomendou um estudo à Fundação Instituto de Administração (FIA), no qual se estimava que a competição poderia movimentar US$ 51 bilhões em recursos e gerar 120 mil empregos. De acordo com o mesmo estudo, efeitos positivos a longo prazo impactariam não apenas o Rio de Janeiro, como também os demais estados. Outro estudo, encomendado desta vez pelo Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos à Universidade Federal do Rio de Janeiro constatava os mesmos impactos positivos.

Há economistas que discordam. É o caso de Juan Jensen, da Consultoria Tendências, que ressalta o menor alcance temporal e geográfico das Olimpíadas, se comparada com a Copa. O impacto sobre a economia, segundo esta versão, será bem menos relevante que o evento do ano retrasado.
Jensen, entretanto, considera as possibilidades: “No longo prazo de fato existe a possibilidade de que a Olimpíada ajude a promover o Rio como destino turístico mundo afora. Se tudo ocorrer como previsto, sem incidentes de violência, podemos ter um ganho em termos de imagem”.

Otto Nogami, professor da Insper, questiona os efeitos a longo prazo. “Sempre existe o risco de que, se houver qualquer problema durante o evento, a imagem do Rio saia enfraquecida”.

Retoma ainda um efeito já presenciado na Copa:

“Além disso, mesmo olhando apenas para a economia do Estado que recebe os Jogos, é preciso considerar que também haverá feriados e paralisações, que podem neutralizar os efeitos positivos de gastos mais aquecidos em determinados setores”.

O especialista em economia do esporte da Universidade de Hamburgo, Wolfgang Maennig, desmente a crença de que grandes eventos esportivos causam significativos impactos na economia, com base em estudos empíricos desenvolvidos através de anos de análise. O especialista, que participa de eventos olímpicos desde 1984, desconfia das verdadeiras intenções dos governos ao indicarem cidades para sediar os jogos. Sob o ponto de vista de Maennig, os estudos de impacto com estimativas infladas divulgados pelos governantes são estratégicos para legitimar a candidatura dos mesmos.

Pedro Trengrouse, especialista em Gestão, Marketing e Direito no Esporte da FGV, consultor da ONU para a Copa passada, reconhece os legados positivos na infraestrutura da cidade carioca, mas reforça os argumentos de Maennig:

“Não adianta colocar as Copas ou Olimpíadas de verão ou inverno como solução de problemas econômicos que não tem nada a ver com esses eventos esportivos”.

Quais os legados da Rio 2016?

Para os Jogos Olímpicos de 2016, cinco legados estão totalmente garantidos. Mas algumas promessas correm o risco de não serem cumpridas, enquanto outras já foram abandonadas.

O maior investimento no esporte já pode ser visto. O Governo Federal aumentou em um bilhão de reais o montante investido na formação e treinamento de atletas. O Ladetec (Laboratório de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico) da UFRJ, que será utilizado para a realização de exames de doping, foi reformado e recebeu novos equipamentos. O transporte urbano em geral, mesmo que sem alguns corredores de ônibus, já é bem melhor que em 2009, quando a cidade foi escolhida como sede das Olimpíadas. O número de hotéis também cresceu para os Jogos. Além disso, a região portuária e a zona oeste da cidade serão muito beneficiadas com o evento.

Parque Olímpico da Barra, cujo futuro ainda é incerto. (Foto: Renato Sette Camara/Prefeitura do Rio)

Contudo, o futuro do Parque Olímpico é algo que preocupa bastante. A intenção do Governo Federal é a de transformar o local em um grande centro de treinamento. Já a Prefeitura pretende pretende que espaços esportivos abriguem escolas, projetos sociais e eventos de entretenimento. A Linha 4 do metrô continua com risco de atraso, assim como as reformas no Aeroporto Internacional do Galeão.

Peixes mortos na Baía de Guanabara. (Foto: Leo Correa/AP)

Projetos importantes, como a despoluição da Baía de Guanabara, a recuperação das Lagoas de Jacarepaguá, a reforma do Complexo Esportivo do Maracanã e o plantio de diversas árvores, foram descartados. A data de conclusão deles estaria muito além do início dos Jogos e, por isso, acabaram por ser tirados dos planos, apesar da grande relevância como legados.

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