Que fonte eu uso nesse projeto?

Novo projeto para desenvolver: pesquisa, análise de similares, briefing, muitas etapas precisam ser cumpridas até chegar a uma solução adequada para a identidade visual, website, aplicativo, revista, livro, catálogo, enfim, a peça gráfica a ser gerada. Todas estas etapas são importantes e merecem atenção, mas vou abordar aqui uma em especial: a seleção das fontes tipográficas que serão usadas no projeto.

Não existe uma única maneira, ou um modelo, para fazer esta seleção. As vezes ela acontece de forma intuitiva e aleatória, começando por uma busca no próprio computador, depois avançando para a web. Outras vezes é feita uma escolha entre algumas poucas opções que o designer selecionou anteriormente, fontes que ele já conhece e sabe que “funcionam” bem. Mas essas são mesmo as melhores maneiras de encontrar a fonte mais adequada para um projeto?

Apostar em algumas boas fontes e usá-las sempre não está completamente errado, se você trabalhar com um universo restrito de clientes. Isso funcionou muito bem para os tipos móveis, mas é preciso lembrar que naquela época não haviam tantas opções e ter um grande arsenal de fontes envolvia muito investimento e muito espaço físico (caixas e mais caixas de madeira cheias de tipos não cabe em uma gaveta). Mas hoje o cenário é outro. As fontes digitais são muito mais baratas (muitas são gratuitas), não ocupam espaço físico e não existe um padrão de qualidade.

“Alguns dos melhores tipógrafos que já existiram possuíam apenas uma fonte romana por vez, uma gótica e uma grega. Outros podiam ter até cinco ou seis romanas, duas ou três itálicas, três góticas e três ou quatro gregas. Hoje, o tipógrafo pode comprar fontes aos milhares em CDs e copiar muitos outros milhares da internet: mais fontes do que qualquer ser humano poderia usar, e ainda assim uma seleção sempre incompleta.” (BRINGHURST, 2005)*

* Elementos do Estilo Tipográfico, de Robert Bringhurst, é um clássico e deve fazer parte da biblioteca de todo designer.

Só para ter uma ideia, apenas o FontShop www.fontshop.com tem atualmente 9.484 famílias tipográficas à venda. Fica difícil fazer uma boa escolha diante de tantas opções sem ter critérios bem definidos. Se este processo é complicado até para os designers experientes, com certeza para os alunos e os profissionais em início de carreira as incertezas são ainda maiores.

Estabelecer critérios e definir pesos para eles de acordo com as demandas do projeto pode ajudar muito neste processo. Um bom começo é responder algumas perguntas, como sugerem Fontoura e Fukushima no livro Vade-mécum de Tipografia publicado em 2012.

Considerando as respostas para estas questões você pode partir para a segunda etapa, selecionar os critérios e a importância de cada um de acordo com as necessidades do seu projeto. Lendo autores como Frutiger (2001), Bringhurst (2005), Jury (2006), Gruszynski (2008), Fontoura e Fukushima (2012), Farias (2013) e Lupton (2013) é possível definir alguns critérios fundamentais para a seleção tipográfica.

Legibilidade

A legibilidade está relacionada com o design de tipos, com a clareza dos caracteres e a velocidade com que podem ser reconhecidos. É claro que existe uma relação com o uso da fonte, ou seja, onde será aplicada, a diagramação da página, a organização do texto, que implica em sua leiturabilidade.

É importante considerar também o público e o volume de informação. É possível usar uma fonte de pouca legibilidade em um parágrafo de revista voltada ao público jovem, mas a mesma fonte seria complemente ilegível se aplicada a página toda de uma publicação voltada a um público conservador.

Qualidade da Fonte

Atualmente podemos ter acesso a um grande número de fontes digitais, pagas ou gratuitas, desenvolvidas por profissionais ou amadores. Portanto é cada vez mais importante testar a fonte antes de optar por ela.

Verificar se possui todos os acentos e caracteres especiais, se o kerning (ajuste entre pares de letras) é adequado e se as curvas são bem desenhadas é fundamental principalmente se você pretende usar esta fonte em textos mais extensos.

Família

Uma família tipográfica é composta por várias fontes que seguem o mesmo estilo porém com variações de peso, espessura e inclinação. Por exemplo a família Arial, composta pela Arial Black, Arial Narrow, entre outras.

Se você estiver selecionando fontes para um projeto editorial, por exemplo, é fundamental que elas pertençam a famílias completas e que ofereçam as variações necessárias para garantir uma hierarquia harmônica no projeto.

Expressão

O conceito de Cálice de Cristal, definido por Beatrice Warde na década de 1930 norteou a tipografia por muito tempo. Acreditava-se que as fontes deveriam ser neutras, transparentes, não interferindo na interpretação do texto. Porém esta não é mais uma verdade absoluta.

Para alguns projetos é muito importante que a tipografia tenha expressão, ou seja, que expresse a mensagem por meio do seu desenho, da sua textura e do contexto histórico. É preciso saber equilibrar o uso de fontes mais ou menos expressivas, buscando tornar o projeto interessante para despertar a atenção do leitor e oportunizar uma leitura agradável.

Direito de Uso

A licença de uma fonte digital para um computador não representa um custo elevado, porém se for preciso adquirir várias fontes para serem instaladas em muitos computadores o valor total pode interferir no orçamento de um projeto. Ao selecionar as fontes para um projeto é importante definir junto ao cliente se haverá verba para a compra de fontes ou se você deve usar apenas fontes de sistema ou outras fontes gratuitas.

A importância destes critérios varia de acordo com cada projeto, a legibilidade, a família e o direito de uso podem ser fundamentais quando se escolhe as fontes para uma grande editora e pouco relevantes quando o projeto consiste em um cartaz sobre uma exposição de artes plásticas.

Estabelecer pesos para cada critério de acordo com sua relevância para o projeto ajuda a “quantificar” o processo de seleção e torná-lo menos subjetivo. Uma sugestão para organizar este processo é usar uma matriz de seleção, como as usadas nas escolhas de alternativas de projetos, por exemplo. Em seu livro Projeto de Produto, Mike Baxter aborda esse tema se você quiser saber mais sobre matrizes de seleção. Mas o uso é bastante simples, o tabela a seguir representa este modelo.

Cada fonte deverá ser avaliada em relação ao critério. É recomendável usar a escala de 1 a 5 para atribuir as notas. Depois é só multiplicar a nota pelo peso que você definiu para o critério de acordo com o contexto do projeto. Pode parecer um pouco complicado, mas com a prática o processo fica rápido e objetivo.

Você não precisa usar a matriz, pode buscar outras formas de organizar essa escolha. O importante é que sempre considere os critérios e que analise bem as fontes antes de tomar uma decisão. Amplie, reduza, aplique sobre vários blocos de texto (se for um projeto editorial), imprima, observe na tela, enfim, olhe com atenção cada detalhe da fonte. Invista um pouco de tempo nesta etapa para ganhar tempo depois na execução do projeto. Iniciar o projeto com uma determinada fonte e depois de muito trabalho feito precisar trocar porque faltam caracteres ou porque as pessoas não estão conseguindo ler o texto, com certeza vai trazer complicações.

Outra dica para facilitar este processo de escolha das fontes é vê-las em ação. Ou seja, visualizar as fontes que você pretende usar sendo aplicadas em outros projetos, tanto para analisar seu “comportamento” na peça gráfica quanto para saber se ao usá-la em determinado contexto você estará inovando ou seguindo tendências.

Para identificar qual fonte está sendo usado em um projeto você pode recorrer a ferramenta “What the font”, disponível no www.myfonts.com. O processo é simples, basta fazer upload de uma imagem de boa qualidade onde a fonte esteja sendo usada. A ferramenta vai apresentar várias opções que se aproximam e muitas vezes será possível identificar exatamente qual fonte está sendo usada.

Outra alternativa interessante é o site Fonts in Use http://fontsinuse.com/. Lá você poderá fazer uma busca pelo nome da fonte, seguimento ou tipo de material e visualizar vários exemplos de projetos que usam determinadas fontes. O site é ótimo também para comparar combinações de tipo e assim identificar se aquela fonte display que você está pensando em usar combina com a fonte de texto que você já escolheu.

Por fim uma recomendação geral, sempre que estiver escolhendo os tipos que irão compor seu projeto lembre-se das célebres frases de Bringhurst (2005)

“Palavras bem escolhidas merecem letras bem escolhidas” caso contrário “aquilo que as palavras dizem lingüisticamente e aquilo que as letras inferem visualmente ficam dissonantes, desonestos e desafinados”.

Mary Meürer é professora de Tipografia no curso de Design da Universidade Federal de Santa Catarina. Atualmente desenvolve pesquisa de doutorado sobre o processo de seleção tipográfica e também coordena o blog TIPOS&textos.

Para saber mais sobre a MATRIZ PARA SELEÇÃO TIPOGRÁFICA: construção e aplicação veja o artigo completo publicado no 11º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design — P&D2014

http://www.proceedings.blucher.com.br/article-details/matriz-para-seleo-tipogrfica-construo-e-aplicao-12633