
Ditadores democraticamente totalitários
“Chega de choramingar, temos que produzir com agressão ou sem agressão, com bloqueios e sem bloqueios, para fazer da Venezuela uma potência. Zero lamentos, o que eu quero são soluções.”
A frase acima foi dita pelo ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, na semana de 30 de julho de 2018, ao reconhecer que a situação do país foi causada pelas decisões do Estado — o que quer dizer, em grande parte, sua pessoa. É notável como tão poucas palavras revelam uma visão distorcida de mundo. Chama-me a atenção alguns pontos:
“Temos que produzir com agressão ou sem agressão”
O progresso econômico depende do comércio. No mundo selvagem não há comércio, mas justamente agressão. Em vez de trocas livres, em que ninguém é obrigado a nada, vale a lei da espada. A espada tira de um e dá a outro, enquanto o comércio dá a todos aquilo que querem mais — em posse de outros — em troca daquilo que querem menos — em sua própria posse — , pacificamente. Acreditar que uma economia possa voltar a funcionar com agressão, ou que funcione melhor com agressão, só não pode ser considerada mera tolice pré histórica porque os últimos dois séculos foram infestados de intelectuais dispostos a negar as regras da natureza, convictos de que as regras inventadas no escritório eram muito melhores — embora a natureza não tenha se interessado em mudar. O que nos leva ao próximo ponto.
“O que eu quero são soluções”
Em primeira instância, não há nada de errado com soluções. Mas a palavra não evoca uma mesma ideia para todos que a proclamam, escutam, acreditam e abusam. As ideologias revolucionárias (progressismo, marxismo, socialismo, comunismo, nazismo, jacobinismo e demais variantes) fazem acreditar que é possível forçar no mundo uma ordem perfeita imaginada, que nunca foi observada pela experiência. Ou, de forma alternativa, algumas correntes não creem na imposição de uma nova ordem, mas na inevitabilidade da mudança e final realização de utopias — basta que a roda da História gire o suficiente. Em qualquer um dos casos, é colocada como verdade indiscutível uma solução final. Acreditando-se nessa solução final, a violência, repressão e domínio total “momentâneos” e “temporários” não parecem ser muito custosos, do ponto de vista de quem acredita que certas ações são boas ou más tendo como único referencial um futuro que nunca chega, mas que, “quando chegar”, perdoará todos os excessos. “Afinal” — seria dito — , “foram os excessos que trouxeram ao mundo a solução de todos os problemas”. Os fins justificam os meios. O que são todos os crimes conhecidos do presente frente ao futuro prometido?
“Fazer da Venezuela uma potência”
Se o revolucionário se distancia da ordem concreta, da verdade do funcionamento e natureza das coisas e, por isso mesmo, da ciência, em seu sentido mais correto, além de considerar a violência e o crime relativos — pois em seu entendimento devem ser avaliados à luz dos benefícios e malefícios que trazem à causa revolucionária — , a definição de mais e mais metas, como “fazer da Venezuela uma potência”, demanda necessariamente ainda mais repressão e violência. É um círculo vicioso.
E isso porque o revolucionário, que não acredita na percepção da realidade concreta como bom norte nem muito menos na possibilidade do erro (o que, se fosse o caso, como ensinou Hayek, forneceria àqueles — como fornece aos liberais — uma humildade intelectual elevada: ao admitir a possibilidade de estar errado a vontade humana pelo poder e por forçar que outras pessoas vivam conforme nossas crenças é, senão aniquilada, saudavelmente reduzida e limitada), não verá problema em insistir em fins sem questionar meios. O alicerce do pensamento revolucionário das soluções perfeitas também é munição para que um revolucionário não seja capaz de entender, mesmo com ilustrações do mais ridículo didatismo, que todos os meios utilizados estarão errados e que, humildemente, deveriam se abster de envolver-se no que não compreendem. O conhecimento está disperso na sociedade, desta maneira não podem forçar que a população viva (sendo o trabalho um aspecto importante da vida social) segundo o que ditadores (ou mesmo a elite política de um estado democrático inchado) creem ser ideal.
No realidade, o progresso econômico só pode florescer se seguidas as descobertas da verdadeira ciência econômica. Não com congelamentos de preços, estatizações, fuzis apontados para civis pacíficos e agentes do estado definindo desde o preço do pão até detalhes como quanto produzir, o quê, a quem vender, quem contratar e demitir.
O revolucionário aniquila tudo o que é capaz de trazer o funcionamento da economia, a qual exige não muito além da possibilidade de trocar e produzir livremente. Mesmo admitindo a falha e a culpa, não nos enganemos: a menos que seja curado do espírito revolucionário, o que não parece provável, o totalitário acreditará que deve-se colocar em prática mais — e não menos — da mesma receita que trouxe o fracasso.
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