A vida continua, mas de uma maneira diferente

Ex-professora da UFV conta com orgulho sua história, após sofrer acidente automobilístico.

Foto: Paula Dias

Maria José de Oliveira Fontes é formada em Economia Doméstica, com Bacharel e Licenciatura pela UFV e mestre em Psicologia pela UFMG. Aposentada, ela sempre teve afinidade pela área da família e desenvolvimento humano. Apesar de ser natural de Piumhi-MG se considera viçosense, pois reside na cidade há mais de 30 anos.

Durante sua carreira profissional, atuou como professora, participou e coordenou diferentes projetos. Com muito orgulho, dedicação, pesquisa e conhecimento, fundou a Ludoteca na Universidade Federal de Viçosa. Além disso, possui muita gratidão por sua grande mestra professora Miriam de Oliveira Fernandes que a colocou frente a diversas oportunidades. Sua trajetória sempre foi percorrida com muitos obstáculos e desafios, até que certo dia, a vida lhe surpreendeu, alterando sua rotina e a fazendo enxergar o mundo sobre uma cadeira de rodas.

A seguir, Maria José fala um pouco sobre suas dificuldades e superações diárias como cadeirante. Além da necessidade de se discutir acessibilidade:

Maria José, cadeirante há 11 anos e a cada dia superando desafios. (Foto: Paula Dias)

Plural: O que causou sua deficiência?

Maria José: — Depois de uma greve, fui para minha cidade com meu filho, e meu marido não pôde ir devido ao trabalho. Eu nunca ficava com o carro, porém nesse dia fomos com nosso motorista e até me aventurei a dirigir um pouco, mas sempre avisando meu marido onde estávamos. Passei uns dias com minha família e passeamos bastante. Sempre tive muita fé, e naquele dia, havia esquecido minha santinha. Eu tenho muita fé em Deus, em Nossa Senhora Aparecida. Então perguntei a minha irmã se ela tinha alguma para me emprestar e levei comigo. Eu e meu filho a beijamos e dissemos para guiar a nossa viagem. Foi ela que me protegeu. No dia 2 de outubro de 2006, voltávamos para casa com meu cunhado dirigindo e eu e meu filho de 4 anos no banco de trás. Naquele dia choveu e a pista estava molhada. Quando estávamos chegando em Ponte Nova, só deu tempo de avistar um carro na pista contrária, vindo desgovernado em nossa direção. Ainda brinquei com meu cunhado, olha que carro doido! E apesar de ter batido do lado dele, a força do impacto veio toda em minha direção. A física explica bem isso. Me lembro de perder muito sangue até ser resgatada. E meu medo maior não era nem perder os movimentos da perna, mas de ver meu filho machucado, sem saber a extensão dos seus ferimentos, que no fim, foi apenas um corte na testa, mas que sangrou muito. Tinha muito medo de me tirarem de lá, pois só lembrava de uma aluna que foi mal socorrida e ficou paraplégica. A motorista do outro carro disse que perdeu o controle após frear. O pior foi que os dois carros pegaram fogo e quase morri queimada. Os outros motoristas em volta que apagaram o fogo com os extintores. O nosso carro foi perda total. E quando eu estava no hospital, até as enfermeiras não acreditavam que eu poderia viver e por vezes se negavam a me examinar, dizendo que não adiantaria nada. A conclusão foi que depois de vários cortes para identificar a hemorragia, a bexiga comprometida e a medula comprimida, operada por um amigo do meu irmão e especialista em coluna vertebral, com doutorado em trauma de acidentes de trânsito com cinto de segurança. Mesmo assim, fiquei paraplégica. Mas, eu sou um milagre! Conto isso tudo em um livro que estou escrevendo.

Plural: Como foi lidar com essa situação?

Maria José: — Eu passei pelas 5 fases. A negação, revolta, depressão, negociação com Deus e a aceitação. A depressão só apareceu seis anos depois e veio junto com o pânico, o que me levou a me afastar da Universidade. Hoje eu falo tranquilamente do acidente, mas, no início não podia se falar disso comigo.

Plural: Qual foi a reação da família, dos amigos e como seus alunos lhe acolheram?

Maria José: — Foi um choque para todo mundo. Imaginem, hoje vocês estão andando e amanhã deixam de andar…Que impacto isso traz pra mim e para toda família?! Minhas irmãs revezaram para cuidar de mim e muitos parentes foram me visitar, sempre rezando e me apoiando. É impacto muito grande, não é fácil. E tem uma coisa que eu gosto muito de falar, que é sobre a ligação, o laço da mãe com o filho. A minha mãe já estava em um estado que ela não falava e andava, por causa de vários AVCs e naquele dia do acidente - eu sou católica e não entendo alguns mistérios - ela estava junto a ajudante e cuidadora no horário do acidente. Mesmo sem estar me vendo, ela ergueu a cabeça, abriu os olhos e ficou balançando a cabeça no sentido de negação, o que não fazia mais, surpreendendo a todos. Só depois que eu soube disso, fui entender o que estava acontecendo. Ela sentiu algo, parece que sabia e manifestou do jeitinho dela. E para meu pai, fiquei muito tempo sem vê-lo, só conversando pelo computador. Ele faleceu sem saber o que realmente tinha acontecido. Quisemos lhe poupar de sofrimento, pois tínhamos medo de sua reação. Então dizia a ele que aquilo foi uma queda da escada e a cadeira seria temporária. Ele sempre me via na cadeira e dizia que eu estava tão bonita, mas estava naquela cadeira. E eu sempre respondia que não tinha problema. Em relação aos meus alunos, assim que voltei a trabalhar optei por contar o que aconteceu e sempre via um rostinho ali e outro aqui chorando e me abraçando, como se quisessem me confortar e dar força. E isso se repetia em toda turma nova, pois eles se perguntavam o porquê de eu estar ali.

Plural: Quais foram as principais adaptações que você precisou passar na Universidade, pensando no seu trabalho?

Maria José: — Deixei de ministrar disciplinas que eu era apaixonada e que fiz muito investimento no meu mestrado, por falta de acesso nos laboratórios. E, quem perdeu mais com isso, foram os alunos. Então, os vários projetos de extensão que eu desenvolvia ficaram de lado devido à falta acesso aos lugares e tempo, porque depois do acidente, precisei fazer acompanhamento médico. E, a luta por acessibilidade tanto no Departamento quanto no Campus foi desde 2008. Antes mesmo de voltar, abri um processo para que reformassem os laboratórios, mas isso não aconteceu. Eu aposentei e eles não foram adaptados para mim. E, na época, só tinha eu cadeirante, mas, depois foram aparecendo crianças com diversos tipos de deficiências. Então, antes era só a professora Maria José que precisava. Depois, outras pessoas passaram a precisar dessas adaptações e mesmo assim não as fizeram. A Procuradora Geral da República, veio aqui duas vezes tratar desse assunto. Ela é responsável pela garantia da acessibilidade nas universidades. Fui nas duas reuniões, e na primeira, falei muito sobre as minhas demandas. Já na segunda, sobre as crianças. E mesmo assim, mais uma vez nada aconteceu. A Reitoria, por exemplo, tem um elevador que não cabe uma cadeira de rodas. Eu fui lá e comprovei isso. Então para que que existe, se o cadeirante não pode usar?! Ele foi feito só para cumprir uma lei e não pensando no usuário. E mesmo depois da lei de 2000, a UFV ergueu vários prédios e não a respeitou. A minha casa foi toda adaptada, e hoje eu faço de tudo. Tenho uma independência muito grande.

Plural: Pensando no espaço físico, como é ser deficiente em Viçosa?

Maria José: — Nossa! É muito difícil. Viçosa é uma cidade em que a topografia não favorece e as calçadas são muito irregulares, cheias de ressaltos e as ruas são cheias de buracos. Eu não me arrisco a andar na cadeira sozinha, como muitos fazem, pois já cheguei até a cair devido a irregularidade. Têm muitos lugares, estabelecimentos sociais, clínicas dentro da cidade que colocam aquelas rampas de alumínio. Mas, ela é paliativa, pois não está prevista na Lei de Acessibilidade de 2000. Para vocês terem noção, em 2004 e 2015, tivemos dois decretos falando dessa lei.

Hoje, somos mais de 45 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, de acordo com o censo de 2010. Então somos uma parcela muito significativa da sociedade, só que não somos apenas números, também somos pessoas. E nós queremos ser tratados como tal, com dignidade, respeito e como cidadãos com os mesmos direitos dos outros. E infelizmente isso não acontece. Para muito, somos invisíveis, como se não existíssemos.

Hoje eu penso não em mim, mas nas outras pessoas, porque isso pode acontecer com qualquer um. Pode ser temporário, as pessoas não pensam nisso, que em algum momento da vida, podem precisar de uma cadeira, bengala, muleta…Temos que pensar no coletivo.

Plural: Você está envolvida em alguma causa social ligada à acessibilidade?

Maria José: Sim… Estou no grupo da Multa Moral. Depois de algum tempo, sofrendo muito com a questão de vagas no estacionamento da UFV, perto do Departamento ou até mesmo quando ia às reuniões de colegiado, as pessoas que não eram cadeirantes usavam as nossas vagas. Eu reclamava, chamava a polícia, carros eram guinchados e até era agredida verbalmente. Certa vez, quase fui agredida fisicamente! Então era um desgaste terrível! Já deixei de almoçar depois das aulas, devido à revolta que passava diariamente. Então, eu tenho há muitos anos, um amigo virtual, que nunca o conheci pessoalmente, o Fred. E ele tem um site, acessibilidade na prática, então, ele criou a Multa Moral! Então, conversando muito com ele nas redes sociais, perguntei da possibilidade de implantá-la aqui em Viçosa. Na hora, ele concordou. A mãe de uma aluna minha se dispôs a me ajudar. Então, criamos um grupo no whatsapp. Então, a multa moral não é utilizada para se pagar em dinheiro, mas ela é colocada do no para-brisa do carro ou motocicleta, quando estes estão estacionados inadequadamente. Já aconteceram várias situações, me lavando a postar as fotos das cenas que eu presenciava. Com isso, começaram a parar de fazer isso. Dessa forma, já passei por episódios em que as pessoas assumem seus erros e dizem ser desatentas, mas também se negam a dizer que estavam erradas, que a multa não levaria em nada, junto à desacatos e quase agressões. O ser humano é sujeito à muitas variáveis em função do dia, da hora, do momento que ele está vivendo!

Plural: O que te motivou a escrever seu livro?

Maria José: — O livro não vai ser de autoajuda, porque livro assim, se fosse bom, não precisava de tantos. Quando a gente sofre um acidente, a gente imagina assim, nossa minha vida acabou! Não vou poder fazer mais nada. E realmente eu me senti desse jeito. Eu não posso mais trabalhar, criar meu filho, cozinhar … fazer nada! Mas isso não é verdade. A gente pode fazer tudo de forma diferente. Então, estou escrevendo no sentido de mostrar para as pessoas que a vida continua, mas, de uma outra maneira. Falando desde o acidente, da volta ao meu trabalho, das dificuldades que eu passei nos hospitais. Inclusive acho que vão ser dois livros. Porque tenho tudo aqui na minha memória. O livro vai ser mais no sentido de reflexão, porque eu trabalhei 9 anos na cadeira de rodas, dando aula. Então a gente aprende que é um recomeço difícil sim, mas, aprendemos a conviver e a viver de forma diferente!

Em entrevista, Maria José diz sobre acessibilidade e a importância de discuti-la diariamente:

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