Palestrante surdocega relata desafios da surdocegueira

Lara Gontijo foi uma das palestrantes da I Semana de Acessibilidade e Inclusão da UFV (Foto: Letícia Valério)

No terceiro dia da Semana de Acessibilidade e Inclusão da UFV, 31 de setembro, Lara Gontijo, com auxílio da intérprete Aline Carvalho, ministrou a palestra “Nove formas de comunicação com a pessoa surdocega”, no auditório do Departamento de Economia Rural.

Lara foi diagnosticada com a Síndrome de Usher, o que a faz ter surdez total e baixa visão. Ela é analista de sistemas, formada pela PUC Minas, representante regional da Associação Brasileira de Surdocegos (ABRASC) e educadora social de surdocegos da Feneis (Federação Nacional de Educação e Integração do Sul) de Minas Gerais.

Na palestra, o assunto foi tratado de forma ampla. Lara explicou sobre as principais dificuldades enfrentadas, a luta pelo reconhecimento do termo surdocego, os 40 mil surdocegos identificados no Brasil e a existência de apenas três legislações vigentes que auxiliam nesse meio, além da dedicação de somente um dia nacional (18 de novembro) e outro mundial (27 de julho).

A palestrante enfatizou os constantes e diários desafios dessa parcela da população, que vive escondida e muitas vezes não se reconhece, tornando-se sem identidade afirmada devido à falta de informação, capacitação de profissionais e a própria autoaceitação. Porém, A luta deve continuar, disse Lara.

Entenda a surdocegueira

A surdocegueira é uma deficiência única e não múltipla, caracterizada pela ausência significativa de 2 sentidos, a visão e a audição simultaneamente e em graus diferentes. Dentre as variadas causas, as principais são a Rubéola durante a gestação e a Meningite, além das Síndromes de Usher e de Charge, dentre outras.

No caso da Rubéola, é possível prevenir com a vacina antes da gravidez. Já as outras causas não podem ser prevenidas devido ao fator genético, mas, é possível atuar preventivamente com o aspecto psicológico dos adolescentes e adultos que podem ter surdocegueira mais tarde. Ou seja, deve-se preparar a pessoa com deficiência sensorial para poder vir a ter outra deficiência (perda da visão ou audição) e assim aceitar e aprender a lidar com as novas condições.

A necessidade de variadas formas de comunicação melhora a qualidade de vida, autoestima e aprendizado das pessoas surdocegas. São elas:

Nove formas de comunicação com a pessoa surdocega

  1. Libras tátil: realizada na palma de uma das mãos por meio de um profissional identificado como guia-intérprete, que ao sair acompanhado de uma pessoa surdocega, utiliza de diversos recursos de comunicação;
  2. Libras em campo reduzido (para quem já nasceu com surdez e adquiriu a surdocegueira): interpreta os sinais por meio dos movimentos do guia intérprete que, por sua vez, deve conhecer várias formas de comunicação;
  3. Tadoma (quando a pessoa nasceu ouvindo e enxergando e adquiriu a surdocegueira): consiste no ato do surdocego colocar a mão no rosto próxima a boca do interlocutor e sentir a vibração de sua fala;
  4. Alfabeto datilológico tátil: é quando se usa o alfabeto manual, ou seja, o interlocutor faz a letra na palma da mão da pessoa surdocega;
  5. Braille: baseia-se em 64 símbolos em relevo, resultantes da combinação de até seis pontos dispostos em duas colunas de três pontos cada, sendo um processo de leitura e escrita;
  6. Braille tátil: utilização desse sistema de comunicação de pontos dispostos de formas variadas;
  7. Escrita “em fôrma” na palma da mão: é quando o interlocutor utilizar o dedo indicador para escrever na palma da mão do surdocego;
  8. Fala ampliada (para pessoas que nasceram com cegueira e adquiriram a surdocegueira ou mesmo adquiriram a surdocegueira após ter o domínio do português como primeira língua): o intérprete fala alto no ouvido do surdocego aquilo que o outro diz;
  9. Comunicação social háptica: a comunicação é feita por símbolos ou palavras e acontece em várias partes do corpo, de acordo com a sensibilidade da pessoa.
Algumas das formas de comunicação apresentadas durante a palestra (Fotos: Letícia Valério)

Outro tema de extrema importância abordado na palestra é a formação e acompanhamento de profissionais que promovam a comunicação entre o surdocego e o meio no qual ele está interagindo. Papel desempenhado pelo guia-intérprete. Ele tem por objetivo atingir e esclarecer três elementos totalmente integrados: a interpretação da fala, a descrição do ambiente e o ato de guiar. Outro profissional presente no cotidiano das pessoas surdocegas é o instrutor mediador, que diferente de guia-intérprete, participa do processo do ensino do conteúdo. O mediador atua orientando, traçando estratégias e buscando meios possíveis para colaborar com o aprendizado do estudante surdocego.

Lara Gontijo e sua intérprete Aline Carvalho (Foto: Letícia Valério)

Em relação à comunicação, existem 2 períodos distintos em que ocorre a surdocegueira e que, consequentemente, influenciam a linguagem. A surdocegueira congênita é quando a criança nasce surdocega ou adquire a deficiência ainda bebê, antes da aquisição de uma língua, apresentando graves perdas visuais e auditivas combinadas. Já a surdocegueira adquirida é quando a pessoa apresenta uma deficiência sensorial (auditiva ou visual) e adquire outra depois de ter aprendido alguma língua ou adquire a surdocegueira sem ter alguma deficiência anteriormente, mas após já se comunicar por algum idioma.

Durante o evento, ao questionar o público se todos ali conheciam outros surdocegos, apenas 4 disseram conhecer. Por isso, a palestra como um todo foi pensada muito além de um relato de vida, mas como a própria Lara afirmou: “Hoje eu plantei aqui uma sementinha e eu quero que essa sementinha dê frutos. E espero que vocês tenham aprendido, que pesquisem, tenham contato e espalhem essa notícia por aí!”

Auditório cheio e atento à palestra e ensinamentos do dia (Foto: Letícia Valério)

Segundo Ana Luisa Gediel, professora do Departamento de Letras e uma das coordenadoras do evento, este se faz importante principalmente no processo de sensibilização da Universidade de forma geral, somada à aprovação de Lei de Cotas que entrou em vigor no fim do ano passado. Ou seja, a partir do ano que vem, o Enem também terá cotas para estudantes com deficiência. Assim, a UFV possuirá uma diversidade de estudantes muito maior do que tem hoje a partir de 2018.

Ainda de acordo com Ana:

A partir da palestra da Lara, fomos expostos a uma série de informações que a grande maioria, senão todas as pessoas que estavam ali, não tinham a mínima noção ou conhecimento. Então acho que foi muito importante para as pessoas começarem a pensar, terem fontes de onde buscar, quais são os órgãos, quais as formações dos nossos intérpretes. Dessa forma, o evento e especialmente essa palestra, nos faz ver o empoderamento dessa mulher que é surdocega e apresentando ela mesma como palestrante. Vemos, então, que ela é capaz. E é possível, desde que se dê meios para isso. Acredito completamente que pessoas das mais diferentes deficiências e especificidades possam adentrar à UFV e finalizar, não só ficar em frente às 4 pilastras.

Por Paula Dias e Letícia Valério

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