A infância de uma criança negra
Neguinha preta, cabelo duro, nariz de batata, pedaço de carvão… durante minha infância as pessoas faziam uso desses termos para se referirem a mim. Minha família, com seu instinto protetor, me dizia: “Não liga, finge que não ouviu!”. Passei a infância inteira tentando fazer isso.

Na escola, nas dinâmicas de autorretrato, por não gostar do meu cabelo crespo, sempre me desenhei com os cabelos lisos e, pelo fato de o lápis “cor de pele’’ não representar a minha pele, eu não pintava o meu corpo, apenas fazia o contorno com o lápis de cor marrom mais claro da caixa, numa tentativa de me embranquecer para, quem sabe assim, ser aceita. Não funcionou.
Essa questão estética foi motivo de tristeza e dor por longos anos. Nas brincadeiras eu sempre era a empregada que arrumava toda a bagunça, a
secretária que atendia as ligações e passava para a chefe, a babá ou a operadora de caixa. Nunca tinha um papel de destaque ou prestígio social.
Ninguém nunca me perguntava o que eu queria ser. Me davam aqueles papéis e pronto. Isso também refletiu na minha vida até pouco tempo. Eu achava que eu só poderia ser o que os outros queriam que eu fosse. Nada além disso.
Para me divertir durante a infância, além das brincadeiras, eu assistia desenhos na televisão. Desenhos esses que não me representavam. Não me enxergava naquelas personagens. As princesas sempre eram brancas, loiras e de cabelos lisos. Não tinha sequer uma super-heroína pretinha como eu. Nada! Com as bonecas acontecia o mesmo.

Já ouvi dizer que a infância é como se fosse um lugar delicioso do qual nunca queríamos ter saído. Talvez seja isso mesmo. Talvez se eu fosse criança para
sempre não enxergasse o quanto o racismo é cruel! Como ele destrói nossa autoestima durante muito tempo, faz com que a gente queira negar a nossa
própria imagem e nos faz acreditar que determinados lugares não são para nós negros.
Mas sabe de uma coisa? Que bom que eu cresci! Sai daquela zona ilusória e só agora, mulher, adulta, dotada de um certo conhecimento, consigo enxergar como essa sociedade racista contribuiu para a minha infância. E agora, tendo essa consciência, posso lutar para que a infância de crianças negras não sejam mais corrompidas pelo racismo como a minha foi. Posso ajudá-las a acreditar que nós podemos ser o que nós quisermos!
Se amar enquanto negro é um processo longo e de muito enfrentamento, por isso, enfrentar o racismo na infância é fundamental, pois é nesse período que estão sendo moldadas todas as possibilidades de identidade das pessoas!

