A infância de uma criança negra

Marilia Pereira
Jul 25, 2017 · 3 min read

Neguinha preta, cabelo duro, nariz de batata, pedaço de carvão… durante minha infância as pessoas faziam uso desses termos para se referirem a mim. Minha família, com seu instinto protetor, me dizia: “Não liga, finge que não ouviu!”. Passei a infância inteira tentando fazer isso.

Ilustração Igor Izy

Na escola, nas dinâmicas de autorretrato, por não gostar do meu cabelo crespo, sempre me desenhei com os cabelos lisos e, pelo fato de o lápis “cor de pele’’ não representar a minha pele, eu não pintava o meu corpo, apenas fazia o contorno com o lápis de cor marrom mais claro da caixa, numa tentativa de me embranquecer para, quem sabe assim, ser aceita. Não funcionou.

Essa questão estética foi motivo de tristeza e dor por longos anos. Nas brincadeiras eu sempre era a empregada que arrumava toda a bagunça, a
secretária que atendia as ligações e passava para a chefe, a babá ou a operadora de caixa. Nunca tinha um papel de destaque ou prestígio social.

Ninguém nunca me perguntava o que eu queria ser. Me davam aqueles papéis e pronto. Isso também refletiu na minha vida até pouco tempo. Eu achava que eu só poderia ser o que os outros queriam que eu fosse. Nada além disso.

Para me divertir durante a infância, além das brincadeiras, eu assistia desenhos na televisão. Desenhos esses que não me representavam. Não me enxergava naquelas personagens. As princesas sempre eram brancas, loiras e de cabelos lisos. Não tinha sequer uma super-heroína pretinha como eu. Nada! Com as bonecas acontecia o mesmo.

Ilustração Igor Izy

Já ouvi dizer que a infância é como se fosse um lugar delicioso do qual nunca queríamos ter saído. Talvez seja isso mesmo. Talvez se eu fosse criança para
sempre não enxergasse o quanto o racismo é cruel! Como ele destrói nossa autoestima durante muito tempo, faz com que a gente queira negar a nossa
própria imagem e nos faz acreditar que determinados lugares não são para nós negros.

Mas sabe de uma coisa? Que bom que eu cresci! Sai daquela zona ilusória e só agora, mulher, adulta, dotada de um certo conhecimento, consigo enxergar como essa sociedade racista contribuiu para a minha infância. E agora, tendo essa consciência, posso lutar para que a infância de crianças negras não sejam mais corrompidas pelo racismo como a minha foi. Posso ajudá-las a acreditar que nós podemos ser o que nós quisermos!

Se amar enquanto negro é um processo longo e de muito enfrentamento, por isso, enfrentar o racismo na infância é fundamental, pois é nesse período que estão sendo moldadas todas as possibilidades de identidade das pessoas!

Para conhecer mais o trabalho do ilustrador, sigam seu perfil do instagram @igorizy



Revista Ponto de Escambo

Revista independente com o objetivo de difundir a cultura local, independente e periférica, do Rio de Janeiro.

Marilia Pereira

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24 anos, graduanda em Letras — UFRJ ”Em primeiro lugar eu escrevo para existir.” Paulina Chiziane

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