Lata Doida: mais que uma banda, um agente de mudança pró-sustentabilidade e inclusão social
por Pâmela Duarte

Quem vê o Lata Doida pela primeira vez tende a achar que é somente uma banda, mais que isso, eles são uma ONG de Realengo com o título de Ponto de Cultura da Zona Oeste do Rio de Janeiro, concedido pelo Ministério da Cultura (MinC). A organização oferece diversas atividades envolvendo música, confecção de instrumentos musicais e artesanatos. Todas as iniciativas estão interligadas com o princípio da sustentabilidade do meio ambiente.
A história do Grupo Cultural Lata Doida começou em 2004, com Vania Maria, artesã e líder comunitária, junto com seu casal de filhos musicistas. Na época, Vanielle Bethania, estudante de História, e Vandré Nascimento, estudante de Geografia notaram os problemas sociais da região, reuniram suas habilidades e sensibilidades com o objetivo de intervir na realidade do bairro com arte. Não sabiam exatamente como e por onde começar, a quem se dirigir. A primeira ideia foi a oficina de música para crianças e adolescentes na Companhia de Habitação (COHAB), em Realengo. Depois de conseguir o espaço, matricular as crianças e realizar as primeiras atividades, eles perceberam que a demanda para o trabalho era maior do que se imaginavam. Algumas crianças não tinham condições de comprar os instrumentos musicais e o grupo não possuía instrumentos para todos.
Nascia assim a ideia que geraria a Associação Grupo Cultural Lata Doida, que tem como missão a promoção de experiências criativas, educativas e sustentáveis em arte, contribuindo para uma sociedade mais humana, menos desigual e capaz de se desenvolver em harmonia com o meio ambiente. Um trabalho que utiliza sucatas para a confecção de instrumentos, de forma muito simples. O material mais usado são as latas, por isso, os alunos batizarem o projeto como “Lata Doida”. Com o passar do tempo, a utilização desses materiais que era apenas uma solução provisória, torna-se a linguagem. Criando uma identidade na música com o uso de materiais que são vistos como “lixo”.

A trajetória da família que virou um grupo cultural
O trabalho é colaborativo, enquanto Vandré e Vanielle trabalha nas oficinas de música e produção de instrumentos, Vania, realiza oficinas de artesanato para as mães dos alunos, orienta na pintura dos instrumentos e produz os cenários para as apresentações musicais. E é assim que eles recebem a colaboração de amigos, artistas e educadores que possibilitam a manutenção das atividades da ONG, de forma contínua e independente.

Muitos shows, festivais, eventos locais e parcerias que permitem um aprofundamento da relação com o bairro de Realengo e uma maior percepção de suas reais dificuldades, influenciando o grupo a buscar uma formação que possibilitasse uma intervenção mais significativa.
Vania além de uma dedicação constante as artes plásticas e visuais, se formou em Gestão Ambiental e participou de cursos em arte-educação, gestão. Vanielle é formada em História e se especializou em Educação para o Terceiro Setor, além de cursos livres e dedicação constante à música. Vandré é geógrafo, e fez cursos de luthieria, acústica, áudio, audiovisual, gestão e produção cultural. Em 2013, o Lata Doida foi selecionado pela primeira vez em um edital de projetos culturais, o Criação Artística no Funk, da Secretaria Estadual de Cultura do Rio de Janeiro, com o fomento foi gravado um disco autoral e acústico de funk, o álbum “Experimental Funk Lata Doida”, lançado no mesmo ano.
Em 2014, tornaram-se um Ponto de Cultura, assinando um convênio com a Secretaria Municipal de Cultura. A associação vem ampliando sua rede e seu impacto na Zona Oeste, com a realização de shows, oficinas, fóruns locais, coproduzindo eventos, gravando artistas, fornecendo e operando som. O Lata Doida já ganhou alguns editais, que viabilizam financeiramente algumas das suas atividades, como o edital da RioFilme, o Programa de Fomento Cidade Olímpica, além de participarem da Feira Favela Criativa. Apesar de toda a dificuldade de se produzir cultura e arte na periferia, o Lata Doida tem conseguido construir uma trajetória cada vez mais sólida, sempre com poesia e dedicação.

Durante quatro meses, como trabalho de conclusão do curso de comunicação social — Jornalismo, foi produzido o curta-documentário “Lata Doida: uma experiência em arte e sustentabilidade”, pela repórter Pâmela Duarte.
O curta está disponível no Youtube:
